terça-feira, 22 de maio de 2012

Viagem ao som de uma ‘Frauta de Barro’


Luiz Bacellar foi um dos fundadores do Clube da Madrugada, movimento artístico surgido na Manaus dos anos 50 (oficialmente, o movimento nasceu na madrugada de 22 de novembro de 1954), que nasceu da inquietação e do descontentamento de jovens artistas com o clima provinciano de uma cidade que os sufocava. O intuito desses inquietos jovens era o de romper com o comodismo e a estagnação no qual se encontravam as artes naquele momento, promovendo uma renovação que propiciaria uma transformação da mentalidade da própria cidade e da sociedade manauara. A influência desse movimento pode ser sentida até hoje nos jovens artistas amazonenses.
Um dos livros mais importantes da obra de Luiz Bacellar é “Frauta de barro”, reunião de poemas/memórias, ou memórias relembradas em forma de poemas. Munido de sua ‘frauta de barro’, que “em menino achei um dia / bem no fundo de um surrão / um frio tubo de argila / e fui feliz desde então”, o poeta nos leva em uma viagem por uma cidade que existiu e que ainda existe, de fato ou apenas na memória do poeta.
Antes de iniciar a viagem, o poeta, nu, veste-se, não com as melhores roupas, as roupas de domingo, usadas para ir à missa ou a eventos mais solenes, mas veste-se de Natureza, ele próprio tornado uno com a magnificência da enorme floresta que o rodeia. “Com seu paletó de brumas / e suas calças de pedra, / vai o poeta”, “Ele leva sobre os ombros / a cachoeira do lago / (cachecol à moda russa) / levemente debruada / de um fino raio de sol”. Após vestir-se, o poeta rememora elementos simples anteriormente utilizados pelas pessoas em “10 sonetos de bolso”: o lenço, o canivete, o relógio de bolso, o porta-níqueis, a caixa de fósforos – “Minha cápsula de incêndios, / meu cofre de labaredas! / meu pelotão de alva farda / e altas barretinas pretas”. Devidamente paramentado, como um dândi o poeta flana pelas ruas da cidade, relembrando lugares, pessoas, mitos, histórias e fatos.
O livro divide-se em várias partes. Como um cicerone guiando um turista, o poeta nos guia pelas várias partes da cidade, nos desvelando suas belezas, seus crimes, suas partes obscuras, seu passado e seu futuro. Após vestir-se e encher seus bolsos com os objetos de seus ‘10 sonetos de bolso’, o poeta nos leva para conhecer a cidade. A primeira parada é ‘Romanceiro Suburbano’, onde o poeta nos fala de bairros da cidade e de casos acontecidos ou fantasiados, os fatos unindo-se aos mitos para formar a história da cidade. Temos aí lugares conhecidos como a Rua da Conceição, o Bairro do Céu, o Beco do “Pau-não-cessa”; coisas prosaicas como um “Torneio de Papagaios” e uma “Receita de Tacacá”, além de casos fantásticos tais como “Santa Etelvina” e “O Caso da Neca”. Sobre este último, começa assim o poeta: “ ‘Eu juro, senhor juiz, / não fui eu quem a matou, / que a pior fera do mundo / me agarre se assim não for! / juro! Por São Jorge eu juro / que é meu santo protetor!’ /  E o juiz acreditou...”. e, punida pela mentira proferida, Neca foi agarrada por um jacaré que “com a Neca nas mandíbulas / três vezes ele boiou / para que todo mundo visse / a falsa que perjurou”.
Depois o poeta nos leva para os ‘Sonetos Provincianos’, como “Porta para o quintal”, onde ele nos conta: “As telhas debruçadas dos beirais / vão com as calhas de lata, lá entre elas, / coisas de chuva e vento conversando / quais velhinhas comadres; nos varais / a roupa brinca de navio de velas / minha perdida infância reinventando...”.
Como todo bom cicerone, o poeta não poderia deixar de nos levar a pontos turísticos, como em ‘Três Noturnos Municipais’, quando ele nos leva para conhecer, por exemplo, a Praça da Saudade e a rampa do mercado. No “Noturno da Rampa do Mercado”, o poeta nos diz: “As luzes das barcaças sonham ventos / quando em águas propícias e serenas / no cansado ancorar brilham pequenas / em almos lucilares cismarentos...”.
Em ‘Dois Escorços’, o poeta mistura amor, mar e misticismo. No poema “Rimance Praiano”, temos: “Que coisas loucas dizíeis / sussurrando aos meus ouvidos... / Deixavam leves ourelas / na orla fofa da areia / nossos passos distraídos...”. Em “Canção do Grumete”, temos: “Fundaram-se outros limites / além do oculto horizonte. / A caravela pequena / bóia no mar; infinita...”, remetendo-nos aos poetas portugueses que têm no mar e nas conquistas portuguesas os seus mais caros temas.
Por fim, o poeta encerra sua viagem dedicando poemas a quem o levou a viajar por terras desconhecidas, descortinando-lhe todo um mundo novo: João Cabral de Melo Neto, Dante Allighieri, Rilke, Hölderlin... Aqui ele assinala, não o fim da viagem, mas o início de uma próxima. Ou a continuação de uma eterna viagem, sem pausas.
O livro é uma mistura de memória, ficção, roteiro de viagem, história. O que era e o que virá a ser. As mudanças pelas quais passa a cidade e, junto com ela, o próprio poeta, testemunha ocular da marcha inclemente do tempo. O livro é um mosaico que nos mostra imagens diferentes que se unem para formar um todo coeso, assim como a própria cidade descrita pelo poeta forma um mosaico com lugares, pessoas e paisagens diferentes unidas em um todo, nem sempre coeso, mas ainda assim um todo. A própria cidade vai sendo moldada durante a viagem do poeta, cidade moldada do mesmo barro que foi utilizado para moldar a frauta, o mesmo barro utilizado para moldar os homens.
Para narrar esta viagem, o poeta passeia por diversos estilos, não se detendo em nenhum: sonetos, redondilhas, versos livres. O novo e o antigo se unem não só nas imagens evocadas pelo poeta – o que era e o que agora é –, mas também na estrutura dos poemas, onde versos livres, sem métrica e sem rimas, convivem com decassílabos e redondilhas. A história da cidade se funde com a história da poesia, a literatura não mais servindo para narrar uma viagem, mas ela própria tornada uma viagem.
Bacellar nos leva, ao som de sua frauta, assim como o flautista de Hamelin levava os ratos, hipnotizados pelo som que saía do seu instrumento. 
   
 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O desabrochar de uma Violeta Branca

A poesia brasileira sempre foi fértil em nos presentear com grandes talentos ao longo do tempo. E, entre esses talentos, as mulheres, talvez por sua maior sensibilidade, sempre brilharam no cenário poético nacional. Poetisas como Cecília Meireles e Cora Coralina, entre tantas outras, nos brindaram com páginas de pura sensibilidade e beleza. Em um cenário geralmente dominado pelos homens, algumas mulheres brotaram como flores raras.
Uma dessas flores é uma poetisa que hoje é desconhecida até mesmo de seus conterrâneos: trata-se de Violeta Branca que, assim como a exótica Vitória-Régia, brotou das paragens amazônicas para exalar seu inquieto perfume, desfazendo os miasmas que impregnavam a produção cultural de Manaus na década de 30.
Violeta Branca foi uma transgressora em uma sociedade conservadora e provinciana. Seus poemas denunciavam e criticavam essa sociedade quando dizia que

O que me rodeia
Já não me encanta!

Seu primeiro livro, “Ritmos de Inquieta Alegria”, já no título nos mostra o caminho que ela nos convida a trilhar. Ela não nos convida para um plácido passeio, e sim para uma inquieta caminhada pela cidade e por nós mesmos, em uma

(...) exaustiva viagem
Sem calmaria e repouso.

Violeta Branca publicou o livro “Ritmos de Inquieta Alegria” em 1935, quando contava 20 anos de idade. No Brasil, o Modernismo já havia ganhado adeptos e deixara de ser visto como algo estranho e como uma espécie de não-arte. No Amazonas, entretanto, o Parnasianismo e o Romantismo ainda vigoravam com uma certa força, influenciando leitores e autores.
Remando contra a maré, Violeta Branca desabrochou exalando um perfume novo, que inebriava com o olor da novidade contra a mesmice e a rigidez da época. Nos seus poemas, Violeta Branca rompeu com o formalismo, renunciando ao rigor da metrificação tradicional e utilizando-se de uma linguagem simples, o que a aproxima da primeira fase do modernismo.
Sua poesia é repleta de sensualismo, expondo os desejos femininos e sua ânsia por liberdade em uma sociedade castradora, principalmente em relação às mulheres. Sua proposta, de expressar os desejos e paixões femininas, foi de uma extrema ousadia para as condições da época. Sua intensidade nos remete à força e ardência que encontramos em Cecília Meireles, como vemos no “Poema das tuas mãos”:

Tuas mãos imperiosas,
Tuas mãos rebeldes,
Cantam silenciosas aleluias de gestos,
Quando compõem poemas de volúpia,
Gritos incontidos de alegria pagã,
Correndo ligeiras
         Leves,
         Toturantes,
         No teclado branco de meu corpo...

Também encontramos em sua obra uma forte tendência ao regionalismo, como podemos verificar em passagens como

Nos poemas que ora escrevo
Não há, como outrora,
A suavidade de um enlevo...
São ardentes, tropicais:
Têm o cheirovde terra molhada
E o gosto das frutas maduras...

Violeta Branca foi uma voz dissonante que, ao casar-se e mudar-se para o Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 7 de outubro de 2000, aos 85 anos, fechou-se durante algum tempo até que, em 1982, publicou seu segundo e último livro, “Reencontro: poemas de ontem e de hoje”. Sua inquieta e transgressora alegria ainda está no ar, nos incitando a uma viagem onde

Transformei-me em onda,
Para embalar no ritmo diferente
A galera inquieta e sem rumo
Do teu esquisito destino de marujo.

O destino de um marujo que, assim como os poemas de Violeta Branca, nos levam a uma viagem repleta de descobertas.    
               

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Um tesouro a ser descoberto


A literatura e o cinema estão repletos de livros e filmes sobre tesouros escondidos que, de uma forma inesperada, às vezes, ou após várias peripécias, acabam sendo descobertos. Na literatura, um destes tesouros ainda está por ser descoberto. Trata-se do escritor português Antônio Patrício, falecido em 1930 e dono de uma obra numericamente pequena, mas imensa sob o ponto de vista literário.
O escritor publicou um livro de poesias, em 1905, intitulado “Oceano”; um livro de contos, em 1910, intitulado “Serão Inquieto”; e quatro peças teatrais: O Fim (1909); Pedro, o Cru (1918); Dinis e Isabel (1919); e D. João e a Máscara (1924). Após a sua morte, foi publicado um livro de poesias, intitulado “Poesias”, em 1942.
Os poemas de Patrício, autor inserido no simbolismo-decadentismo, tratam de temas muito caros ao povo português, tais como o mar, as viagens e a saudade, por exemplo, temas ligados ao período glorioso da história portuguesa e que foi cantado em prosa e verso por vários autores, entre eles, Camões, o bardo da literatura portuguesa e o seu imortal “Os Lusíadas”.
No teatro, Patrício resgata personagens e temas da História de Portugal, trabalhando os mitos que cercaram estes personagens e que se misturam com a História propriamente dita. É o caso da Rainha Santa, Isabel, e o episódio de Inês de Castro, que se tornou rainha após a sua morte. 
O livro “Serão Inquieto” nos traz apenas seis contos, contos estes construídos de forma poética, podendo-se dizer que são prosa apenas na estética. São textos que nos falam de amor e de morte. Aliás, amor e morte confundem-se nos textos de Patrício, um parecendo precisar do outro para existir e se manifestar. O conto “Suze”, por exemplo, é uma comovente elegia, um hino ao amor. Um amor que vai sendo construído junto com o próprio conto, um amor interrompido pela morte. Aliás, no conto, tanto o amor quanto a morte, além de estarem ligados ao destino dos dois personagens, são construções que surgem com o desenrolar da história. Tanto o amor quanto a morte são presumidos pelo narrador em face do desaparecimento do objeto amado. O que o move, mais do que o amor, é a saudade, saudade do que possuía e que parece ter perdido.
A saudade permeia a obra de Patrício. Saudade do ser amado ou do passado glorioso de Portugal. O passado é o grande personagem dos seus textos, um tesouro ainda a ser descoberto pelo público brasileiro.  

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A Torre Negra e o mistério do Tempo


“O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás”.
Assim começa o que poderia ser chamado de ‘a obra-prima’ de Stephen King, a série “A Torre Negra”, uma saga escrita em sete volumes. Nesses livros King narra a saga de Roland de Gilead, um pistoleiro que tem por objetivo encontrar a torre negra do título. Para alcançar o seu intento, Roland busca a ajuda de três improváveis companheiros: uma negra paralítica, um viciado em drogas e um garoto de 12 anos. O que há de tão improvável em se procurar a ajuda de um grupo tão heterogêneo quanto esse? Cada um vem de uma época diferente e vai iniciar sua jornada em um mundo onde o tempo fragmentou-se, misturou-se e onde flui de uma maneira mais rápida. A Torre Negra poderá ser a salvação do tempo. Ou a sua perdição. Ninguém sabe o que irá acontecer com a realidade quando os feixes que se ligam à Torre Negra se romperem – e é o rompimento desses feixes que está ocasionando a mudança no tempo.
Essa obra de Stephen King possui diversos elementos distanciados no tempo e no espaço: os pistoleiros do oeste americano; cavaleiros da Idade Média; pessoas vindas de Nova Iorque, oriundas de épocas diferentes; magos; etc. A obra mistura elementos reais – o próprio autor participa da história – com seres fictícios criando uma fantástica epopéia digna de um Camões. A obra, por sinal, teve como inspiração “O senhor dos anéis”, de Tolkien; o poema épico “Childe Roland à Torre Negra chegou”, de Robert Browning; e o filme “Três homens em conflito”. O tempo, aqui, transcorre paralela e simultaneamente em um único agora. Ficção e realidade se encontram em uma zona indeterminada onde se confundem e se mesclam, expandindo-se em um novo Universo.        
Há durante todo o tempo uma mudança de cenário, cada um remetendo a uma época diferente ou mesmo a mistura de mais de uma época no mesmo agora. Isso nos remete ao texto de Octavio Paz, “Os filhos do barro”, quando ele nos diz que “aceleração é fusão: todos os tempos e todos os espaços confluem em um aqui e um agora”. O tempo histórico acelerou-se. Com isso não queremos dizer que a Terra esteja indo mais rápido em sua revolução ao redor do Sol, nem que ela esteja girando mais rápido sobre o seu próprio eixo. O dia ainda tem 24 horas, a semana 7 dias e assim por diante. Contudo, indubitavelmente, sentimos o passar dos dias de uma maneira mais rápida, como se tivéssemos menos horas por dia e menos dias por ano. Contudo, a quantidade de coisas que se passam nesse tempo dão-nos a sensação de que o tempo está mais rápido ou menor. Várias coisas acontecem, e acontecem todas ao mesmo tempo. As coisas que acontecem parecem possuir uma urgência jamais sentida em qualquer época anterior, fazendo-nos sentir uma importância que, muitas vezes, ela não possui. Por exemplo, se analisarmos fatos recentes de nossa História, temos uma sensação de ruptura irremediável com o passado. Porém, ainda podemos perceber traços desse mesmo passado que consideramos como acabado ainda persistindo nos dias atuais. As novidades que pululam ao nosso redor – principalmente as novidades tecnológicas que surgem a cada dia – nos dão a falsa sensação de uma modernidade em constante mudança. Vivemos tempos ‘modernos’, procuramos ser pessoas ‘modernas’, procuramos romper com tudo o que recebe o rótulo de ‘tradicional’, como se isso fosse uma praga que devemos evitar a qualquer preço: costumes, lendas, tudo o que é antigo.   
 Em “A Torre Negra” há uma urgência em se chegar à torre, o tempo vai escasseando a cada momento e cada momento é precioso. O tempo conspira contra eles. Há muito o que fazer e há pouco tempo. E o tempo é uma das coisas que o Homem não consegue controlar. Não podemos moldar o tempo à nossa vontade. J. R. R. Tolkien, em sua obra “O senhor dos anéis”, nos diz através do personagem Gandalf: “só podemos decidir o que fazer com o tempo que nos é dado”. E é assim que Roland e seus companheiros tem que agir: decidir o que fazer no pouco tempo que têm para achar a torre. O tempo, sua única esperança, é também a sua maldição. O Tempo, nesse livro, é o grande personagem.
Roland representa a mudança. Quando ele recruta seus três companheiros – Eddie Dean, Jake Chambers e uma negra com dupla personalidade que, depois de juntá-las, assume o nome de Suzannah, além de um estranho animal chamado Oi – estes, até então, jamais ouviram falar de uma torre negra ou haviam percebido qualquer alteração no tempo. Roland os coloca em uma nova situação, uma nova ‘modernidade’ constituída por uma colcha de retalhos: tanto possuía elementos novos, completamente desconhecidos pelos personagens, quanto elementos conhecidos, alguns vivenciados, outros não. No final, os três voltam a uma versão de Nova Iorque, em um ‘quando’ diferente, porém com características semelhantes às das cidades que eles conheciam. Apenas a partir do momento em que os três tomaram conhecimento do que estava acontecendo ao seu redor puderam interferir para ajudar Roland a provocar uma mudança. A consciência permite um questionamento e, às vezes, uma mudança. No fim da jornada, com apenas uma vaga consciência do que acontecera, eles retornaram para algo conhecido – a cidade de Nova Iorque – e para uma vida semelhante à que tinham antes. 
O tempo fascina os homens desde que estes passaram a ter consciência suficiente para perceber sua passagem. As religiões orientais acreditam em um ciclo de reencarnações onde a pessoa retorna a um novo corpo para refazer sua jornada no mundo até que não precise mais reencarnar. Santo Agostinho questionou essa doutrina dizendo que “não é verdade que, por ciclos sem conta, o filósofo Platão esteja condenado a ensinar em uma escola de Atenas, aos mesmos discípulos, as mesmas doutrinas”. Santo Agostinho, permeado pelas ideias cristãs, não entendeu ou preferiu não entender o que de fato essas religiões pregavam: as pessoas voltavam, sim, ao mesmo mundo de onde haviam partido mediante o processo da morte, mas não no mesmo corpo e não para fazer as mesmas coisas. As pessoas voltavam em um novo corpo, com personalidades diferentes. Um ciclo de vida e morte onde cada morte e cada renascimento representavam uma ruptura com o estado anterior – vida física e vida espiritual. A nova vida, ou a reencarnação, poderia ser nos mesmos moldes da vida anterior (uma quase repetição) ou uma vida completamente diferente. Santo Agostinho, nesse caso, considerou a volta como sendo no mesmo corpo – Platão voltando como Platão e ensinando as mesmas coisas – por estar impregnado da idéia cristã de uma volta à vida no dia do Juízo Final, onde os mortos ressuscitarão com o mesmo corpo que tinham quando morreram – uma impossibilidade provada pela Física.
Já em “A Torre Negra”, o pistoleiro, quando completa sua jornada e chega à torre, o faz apenas para descobrir que terá que recomeçar toda a jornada novamente. Contudo, King se aproxima da noção oriental sobre reencarnação e carma quando introduz uma pequena diferença. Nos primeiro volumes da saga, King narra uma aventura anterior de Roland com um outro grupo com o qual ele tentava chegar à torre. Nesse caso, quando seu grupo foi massacrado no que ele denominava Colinas de Jericó, Roland foi o único sobrevivente e, ao fugir, deixou para trás todos os apetrechos que seus companheiros levavam: armas, munição e uma pequena trompa que pertencia ao seu companheiro Cuthbert. No seu retorno ao início do ciclo, com suas lembranças apagando-se para reiniciar a aventura – de acordo com a tradição das religiões orientais, que pregam o esquecimento da vida anterior durante a nova encarnação – Roland se vê às voltas na mesma batalha. Porém, diferentemente da vez anterior, durante a fuga Roland pega a trompa de Cuthbert. E uma voz se faz ouvir na sua cabeça, antes do esquecimento cair sobre ele: “Esta é a sua promessa de que as coisas podem ser diferentes, Roland – que ainda pode haver descanso. Até mesmo salvação”. Os orientais acreditam que, no final do ciclo, quando se alcança a Iluminação, abandona-se a roda das reencarnações e volta-se ao Todo original de onde partimos.                
Muito se fala da ‘crise’ do romance. Após a Internet, tem-se previsto o fim da literatura. E, no entanto, nunca se publicou tanto quanto atualmente. Silviano Santiago, em “Vale quanto pesa”, nos diz que a literatura vive de e em crise. Afinal, o que é a crise senão um questionar-se a si própria, um questionar que não exige uma resposta, mas uma eterna interrogação que gera novos questionamentos que nos fazem buscar novas soluções que, longe de resolver, impõe-nos novas dúvidas em um ciclo que se repete indefinidamente. Como o tempo. Como a roda das reencarnações. A literatura é feita de interrogações, não de respostas. Quando a literatura for respondida – quando tiver alcançado a Iluminação –, aí sim, ela terá atingido o seu fim.
Tentamos entender a literatura, rotulá-la como tudo o mais, como se ela fosse uma lei da física ou da química, como se ela tivesse um campo próprio propício a uma análise definitiva. Para a literatura, entretanto, tudo pode transformar-se em ficção, “mesmo a verdade” – nos diz o escritor argentino Ricardo Piglia –, “ou, sobretudo, a verdade, pois também ela é tecida de ficções”. Pontos dispersos que se cruzam formando uma teia labiríntica cujo centro nos escapa, uma teia tênue formada não de fios sólidos, mas de partículas de pó. E como podemos ver o pó se o que o caracteriza é a dispersão?  
“A Torre Negra” é um livro sobre o tempo e sua urgência; sobre a relação escritor-personagem (o próprio autor participa da história); sobre ficção e realidade. Trata de rupturas, de perdas. Trata do novo e do antigo. É um livro de mudanças. Isso nos leva ao pensamento de Octavio Paz quando ele nos diz que “o moderno é uma tradição. Uma tradição feita de interrupções, em que cada ruptura é um começo”. E nos remete à frase final do sétimo e último volume da série que, como a roda das reencarnações, repete a frase de abertura do primeiro volume: “O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás”.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

“O lado escuro da Lua” e a alma humana

Não existe nada mais obscuro do que a alma humana, esse labirinto onde, muitas vezes, nós mesmos nos perdemos enquanto procuramos nos encontrar. Apesar disso, costumamos dizer que ‘conhecemos’ alguém. Conhecemos, mesmo?

Sócrates, o grande filósofo grego, mentor de Platão, cunhou uma frase que ficou famosa: “conhece-te a ti mesmo”. E esse já é um grande desafio, o descobrir a nós mesmos. Assim, como poderemos almejar conhecer, de fato, outra pessoa?

Nélson Rodrigues, o grande dramaturgo brasileiro, autor de, entre outras obras, “Vestido de noiva” e “Bonitinha mas ordinária”, dizia que, se as pessoas soubessem o que as outras faziam na intimidade, não se cumprimentariam umas às outras. As pessoas escondem-se por trás de máscaras, como em um eterno carnaval, para ocultarem o lado que elas não querem mostrar para ninguém. Assim como a Lua, que tem um ‘lado escuro’ que não pode ser observado.

Em um dos contos que compõem o livro, “O voyeur”, o personagem do título nos fala que “era como um desejo secreto, do tipo que não se compartilha com ninguém. Todas as pessoas possuem o seu lado oculto, que nunca é mostrado. Algo assim como o lado escuro da Lua, que ela caprichosamente esconde de nós nos mostrando apenas o lado que ela quer que vejamos”. Mostramos ao outros apenas o que queremos que os outros vejam.

A vida em sociedade é um eterno ‘fingir’. Fingimos sentir o que de fato não sentimos. Os motivos disso variam. Fingimos por interesse financeiro, para conquistar uma posição social, para ganharmos fama, por convenções sociais. Tentamos nos passar por quem não somos, fazemos o que os outros esperam que nós façamos. Aqueles que não se moldam de acordo com o que se espera deles, acabam sendo postos de lado ou impõem a si mesmos um exílio voluntário. É o caso do personagem do conto “Extinção”. Ao voltar de um hospital, após sofrer um ataque cardíaco que o deixou internado durante muito tempo, o personagem não reconhece mais a sua vida anterior. Sente uma estranheza e uma falta de sentido em tudo o que o cerca. Assim, resolvi ‘extinguir’ a sua vida anterior, rompendo os elos de tudo o que o ligava ao passado, iniciando uma nova vida, um renascimento. Outros, como é o caso do personagem do conto “Só”, não conseguiu acompanhar a tão propalada ‘modernidade’. Vivia uma vida simples e, por isso, foi abandonado pelos filhos, após a morte da mulher. Seu único sonho: voltar a ver o mar, senti-lo como o fazia quando era pescador. Não pertencia a este mundo, e abriu mão dele por uma vida diferente, uma vida que ele acreditava que levaria em companhia daqueles que o entenderiam, como seu filho que morreu no mar. Saímos do mar para nos tornar homens; ele voltou ao mar para readquirir sua humanidade.

As novas relações da vida moderna, como a situação da mulher, por exemplo, são retratadas nos contos “O canto da sereia”, “Casamento liberal” e “Noite de futebol”. A troca de posições em “Noite de futebol”, faz com que os homens ‘sintam’ o que é estar do outro lado do preconceito. Já “O canto da sereia” nos mostra as reflexões de uma alta executiva em conflito com a nova posição que a mulher alcançou e os desejos inerentes ao sexo feminino, como ter filhos, por exemplo.

A solidão, que tentamos ocultar nos cercando de pessoas e nos fazendo alegres,ou que sentimos mesmo estando cercados de pessoas, está presente nos contos “Trem noturno”, “Mesa de bar”, “Apenas o vento”, “Cotidiano” e “Não há mais ninguém no alto da colina”. A velhice está presente nos contos “Só”, “Velho olhando o mar” e “Não há mais ninguém no alto da colina”. As nossas perversões mais ocultas, disfarçadas sob uma capa de polidez e educação, está presente no conto “Vermelho quase sangue”.

Os contos de “O lado escuro da Lua” procuram explorar os recônditos mais sombrios do ser humano e da sociedade atual. Eles não procuram dar uma explicação, nem pretendem transformar o livro em um tratado de psicologia. Pretendem, apenas, que o leitor se reconheça em um dos contos – ou em mais de um deles – e que tire suas próprias conclusões.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ó – onde a matéria encontra a linguagem

O livro “Ó”, de Nuno Ramos, conquistou o 1° lugar do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009. Por si só esse fato já chamaria atenção para a obra cujo autor já é reconhecido como artista plástico e que vem buscando espaço também no campo das letras – antes de “Ó” ele já havia publicado os livros Cujo (1993), O pão do corvo (2001) e Ensaio Geral (2007). Porém, além do prêmio, o que chama atenção no livro é a originalidade dos textos que o compõem.
“Ó” é um livro que frustra aqueles que gostam de catalogar, classificar e ordenar as coisas dentro de categorias, sub-categorias e escolas literárias. Embora, a título de catalogação, tenha sido classificado como sendo um livro de contos, “Ó” parece ser isto e muito mais. Poesia em prosa? Crônicas? Ensaios? Sim e não. “Ó” parece ser tudo isso ao mesmo tempo em que parece não ser nada disso. O livro é um conjunto de reflexões sobre vários temas. Ou, conforme disse o próprio autor em uma entrevista, “Ó” seria um conjunto de “narrativas entre a poesia e o pensamento”.
Ao se começar a ler os textos tem-se a impressão de que estamos diante de contos em sua estrutura tradicional. Alguma coisa situada entre os textos de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu. Temos o que parece ser um narrador em primeira pessoa narrando uma situação prosaica – situação presente nos contos de Clarice. “Manchas na pele, linguagem”, o primeiro texto do livro, começa assim. À medida que se avança na leitura, contudo, os textos começam a dar a impressão de que vão enveredar pelo caminho da crônica. O segundo texto, “Túmulos”, começa nos dando a impressão de que será uma crônica e termina nos deixando um gostinho de ensaio. Começamos o terceiro texto, “Tocá-la, engordar, pássaros mortos”, fazendo ainda uma tentativa de classificar os textos dentro de um formato pré-estabelecido, familiar. Então, chegamos ao quarto texto, o primeiro “Ó”, e aí começamos a deixar de lado qualquer tentativa de classificação. Nos damos conta de que estamos diante de algo novo que, com sua linguagem exuberante, como se fosse um rio caudaloso, resiste a ser encarcerado dentro de quaisquer fronteiras que o limite.
O livro é marcado por uma inquietação do autor em encontrar... o quê? Uma nova possibilidade de manusear a linguagem assim como ele faz com suas obras de artista plástico? A metafísica das coisas? O corpo como elemento espacial e como possibilidade de linguagem?
Lendo “Ó”, adquire-se mais perguntas do que respostas. E, talvez, seja exatamente essa a intenção do autor: nos levar a, junto com ele, questionar o sentido das coisas – da própria matéria, da própria linguagem. Porque, longe de nos dar respostas, o livro nos abre um leque de possibilidades, uma multiplicidade de sentidos.
Em “Ó”, o corpo humano é um elemento recorrente. Exemplos disso são os textos ‘Manchas na pele, linguagem’, ‘Túmulos’, ‘Tocá-la, engordar, pássaros mortos’, ‘Recobrimento, lama-mãe, urgência e repetição, cachorros sonham?’, ‘Esquecer os sonhos, ovas’ e ‘No espelho’. Talvez em função de seu trabalho como artista plástico, os textos de “Ó” procurem uma conexão com a matéria, que nos textos tem um papel predominante. Matéria que se expande, se contrai, experimenta, sente.
A morte – real ou apenas pressentida – é outro elemento que aparece em vários textos de “Ó”: ‘Túmulos’, ‘Tocá-la, engordar, pássaros mortos’, ‘Manias, na trincheira’, ‘Sinais de um pai sumido, canção’ tocam nesse tema. Segundo o próprio autor afirmou em uma entrevista, “morte é matéria, redução do sopro, do desejo, ao peso, ao inerte. Acho que esse é o primeiro interesse que tenho pelo tema: a passagem entre uma coisa e outra”. Lembrando que o termo ‘passagem’, principalmente para um artista plástico, é uma via de mão-dupla: a matéria inerte ganha vida, ao mesmo tempo em que a matéria viva se torna inerte.
O tema da velhice é outro elemento que aparece em vários textos: ‘Tocá-la, engordar, pássaros mortos’, ‘Manias, na trincheira’, ‘Recobrimento, lama-mãe, urgência e repetição, cachorros sonham?’, ‘Coisas abandonadas, gargalhada, canção da chuva, previsão do tempo, ida à Lua, ida à Marte’, ‘No espelho’. Aliás, esses três temas – corpo, velhice, morte – estão imbricados de uma forma complementar, um não existindo sem o outro.
Podemos encontrar, nos seus textos, algumas referências a escritores tanto da literatura nacional quanto da literatura internacional. A importância do corpo como elemento de apreensão da realidade, incorporando-a, percebendo-a, misturando-se a ela, tem um quê de “A paixão segundo GH”, de Clarice Lispector. Além disso, temos o fato de que as situações que ocorrem nos textos são desencadeadas por fatos banais – como em Clarice –, e que desembocam em uma espécie de revelação. Uma epifania que está presente em todos os textos do livro.
Outra influência parece ser a do escritor americano Philip Roth o qual, nos seus últimos livros, vem tendo a velhice e a morte como temas recorrentes. Roth tem recebido críticas por seus livros apresentarem uma visão sombria – mas realista – da velhice e da proximidade da morte, uma espécie de esquecimento. Nos textos de “Ó” vemos a deterioração do corpo, o aparecimento de manchas, gorduras, secreções. A morte também é vista como esquecimento – como no texto “Túmulos”. Em oposição à deterioração da matéria, do esquecimento, a linguagem surge como uma maneira de perpetuação, o Verbo divino que gera Vida.
Novamente temos aí o artista plástico lidando com os limites da matéria, com a sua finitude. Aliás, essa dualidade artes plásticas/literatura está presente em praticamente todos os textos. “Ó” é um livro que foi sendo modelado aos poucos, sua forma surgindo a cada golpe do cinzel, uma massa bruta a ser lapidada e da qual pode emergir várias possibilidades, várias formas.
O autor, que passou grande parte de sua vida trabalhando com a matéria, tentando encontrar uma linguagem para ela, agora trabalha com a linguagem, tentando encontrar a sua matéria, uma espécie de linguagem da carne ou carne da linguagem.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

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