sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A cultura do capitalismo - desejo induzido



Nunca se produziu tanta “arte” e nunca surgiram tantos “artistas” quanto atualmente. Escritores, pintores e músicos proliferam em todos os cantos do globo. Entretanto, a qualidade do que nos é apresentado vem caindo vertiginosamente, nos fazendo repensar o conceito de arte. Afinal, o que nos tem sido atirado ao rosto todos os dias realmente é arte?
No mundo capitalista, a arte passou a ser apenas mais um item de consumo e, como tal, deve ser consumida rapidamente para rapidamente ser descartada, cedendo seu lugar para uma “nova” arte. Desta forma, temos “o sucesso do momento”, “a música do verão”, “o hit da estação”, apregoados por apresentadores de rádio e televisão, garotos-propaganda que são pagos para venderem um “produto”. E as pessoas, sem pensar no que estão lhes dizendo, “compram” o produto que lhes é oferecido. Assim, por intermédio de uma propaganda massiva veiculada em várias mídias, as empresas nos dizem o que devemos desejar.
Antigamente, a demanda por produtos era o que guiava a oferta. Os desejos dos consumidores geravam produtos que atendessem a esses desejos. Atualmente, as pessoas aprendem na tela da TV ou do computador o que devem desejar. Desta forma, quem antes era sujeito torna-se agora objeto.
Nem mesmo a cultura escapou a este processo. Passando a ser apenas mais uma mercadoria, assim como eletrônicos e roupas, os “produtos” culturais têm de ser consumidos de forma rápida. Livros e filmes, tão logo sejam assistidos, devem ser esquecidos para serem substituídos por outros livros e filmes que são diferentes apenas na aparência.
A cultura passou a ser usada como produto e agente do capitalismo. Os sujeitos, agora transformados em objetos, são alienados para que, por meio do “consumo” da “cultura”, possam livrar-se das tensões, frustrações e do esgotamento do dia-a-dia para que, revigorados, possam, no dia seguinte, trabalhar de forma mais produtiva para dar mais lucro ao seu patrão. Não é à toa que as empresas, cada vez mais, patrocinam “atividades culturais”. E, nesse caso, passa a ser considerado “arte” qualquer coisa que caia no gosto do público. Os “espetáculos” passam a ser uma catarse coletiva onde todos liberam suas frustrações, receios e raivas.
Assim, esgotado e refeito, o trabalhador não questiona a maneira pela qual está sendo usado. Apenas aguarda, ansioso, pelo próximo fim de semana, o qual trará um novo “show” onde ele poderá exorcizar suas novas frustrações e angústias.     

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Cansei de ser politicamente correto



O brasileiro adora modas! Sempre que aparece alguma moda nova, ele não para pra pensar se essa moda é válida ou não: ele simplesmente a abraça, como um náufrago abraçaria um tronco flutuando no meio do oceano. E a moda, agora, é o politicamente correto. Todos vivem se policiando para não deixar escapar alguma expressão ou atitude que possa ser considerada ‘politicamente incorreta’.
O ‘politicamente correto’ começou como uma tentativa de se evitar algumas atitudes reprováveis, como são os casos de racismo e de homofobia, entre outras. Porém, essa atitude acabou sendo levada ao extremo, ocasionando alguns exageros. Vemos, atualmente, muitas imbecilidades serem praticadas, protegidas pelo rótulo de “politicamente corretas”.
É óbvio que devemos evitar, a todo custo, casos de discriminação e preconceito. Porém, não podemos deixar que isso vire uma obsessão e que passemos a ver ‘discriminação’ e ‘preconceito’ em tudo. Determinadas palavras passaram a ser consideradas pejorativas, e seu uso passa a ser considerado preconceito ou discriminação. A língua passa a ser tratada como vilã, quando está apenas a serviço dos seus falantes.
O que precisamos compreender é que as palavras foram criadas para exprimir estados, impressões e sensações, bem como para designar objetos – reais ou imaginários. Em todas as línguas, encontramos o fenômeno da polissemia, quando uma mesma palavras adquire vários significados, algumas vezes, opostos. Na Língua Portuguesa, várias palavras adquiriram, ao longo do tempo, um sentido pejorativo. É o caso da palavra ‘medíocre’ que, no início, designava algo comum, que estava na média. Atualmente, a palavra tem sido utilizada com o significado de algo ‘ruim’, de ‘má qualidade’.
O mesmo vale para as palavras ‘preto’ e ‘negro’, designando pessoas que, atualmente, estão sendo rotuladas como ‘afrodescendentes’. Tanto negro como preto não são, necessariamente, palavras pejorativas. O sentido que se passou a dar a elas é que as tornaram pejorativas. Substituir estas palavras por ‘afrodescendentes’, a princípio, não altera nada. Uma pessoa racista não deixará de sê-lo apenas porque não pode mais dizer ‘negro’ ou ‘preto’.
O que tem que ser mudada é a mentalidade das pessoas. No Brasil, anos após a escravidão, os negros ainda não foram incorporados à nossa sociedade. Foram libertados para continuarem sendo párias, assim como no tempo da escravidão.
Politicamente correto não é ser proibido de dizer uma palavra, mas dar condição de vida digna a todos os cidadãos do país, sejam eles mulheres, negros ou homossexuais. É considerar todas as pessoas como sendo, realmente, iguais, e não apenas ver isso como um preceito religioso ou uma prescrição da Lei, mas que não tem nenhuma validade. É mudar a mentalidade das pessoas, não por meio de leis – que apenas impedem a manifestação pública do preconceito e da discriminação, mas que não os eliminam realmente –, e sim por meio de uma educação que mereça esse nome (o que não ocorre com a tão propalada “educação” brasileira).
Para alguém preconceituoso, ‘afrodescendente’ passará a ser utilizada como uma palavra pejorativa. E cada nova palavra inventada será utilizada da mesma maneira.
Roland Barthes dizia que a linguagem é fascista. Mas, na verdade, fascistas somos nós, que utilizamos a linguagem para expressar os nossos mais sórdidos sentimentos e ações. Pessoas e grupos que reclamam quando estão sendo oprimidos, passam a oprimir quando têm a oportunidade. Todo mundo tem um pouco de Hitler.
No final das contas, tudo não passa apenas de uma disputa pelo poder. E, nesse caso, voltamos a Barthes, que reconhecia que quase nada estava fora do poder. Nem mesmo a linguagem!   

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Literatura: ficção ou reflexo da realidade?



Pode a literatura explicar ou refletir a sociedade na qual ela está inserida, com todos os seus movimentos históricos, com todas as mudanças pelas quais as sociedades evoluem, ou a literatura apenas conta uma história que nada tem a ver com a HISTÓRIA, algo completamente fora de contexto, uma ficção no mais estrito sentido da palavra?
O desenvolvimento das ciências sociais, as quais passaram a se utilizar de métodos de análise tão rigorosos quanto os das ciências naturais, abriu um vastíssimo campo de estudos sobre diversas áreas. Dentre elas, a literatura passou a ser analisada como algo mais do que apenas histórias oriundas da imaginação de um escritor, mas como algo mais profundo, uma representação e/ou reflexo do real, uma maneira distorcida de se perceber a realidade, um espaço de crítica e várias outras tentativas de definição que, antes de definir, abrem mais espaço à especulação. Contudo, é inegável o impacto que a literatura, em geral, e alguns livros, em particular, têm sobre as sociedades. Por isso, a literatura acabou merecendo uma atenção à parte, sendo interpretada por meio de diversas tendências ao longo do tempo, à medida que as ciências sociais evoluíam. Livros passaram a ser analisados e a ser criticados de uma forma cada vez mais detalhada e com métodos cada vez mais precisos. A análise, ou crítica literária, estava começando a tornar-se uma ciência.
O livro, enquanto criação, é algo meramente subjetivo. Há alguém que o escreve e alguém que o lê. E, nesse diálogo, abre-se um imenso leque de interpretações que dependem do olhar que cada leitor lança sobre a obra. Contudo, sem deixar de lado interpretações pessoais, não podemos ignorar os novos olhares e compreensões que passamos a ter de campos como a História, a Psicanálise, a Linguística, a Biologia, a Sociologia etc. O avanço nesses campos permitiu que pudéssemos utilizá-los para – além de procurar entender o ser humano, individual e coletivamente – analisar a literatura e como ela se insere no nosso psiquismo e nas nossas relações interpessoais – seja refletindo ou inventando a realidade.
Essas ciências acima citadas auxiliaram no embasamento do que se convencionou chamar de métodos críticos. Dentre eles, temos: a crítica genética, a crítica psicanalítica, a crítica temática, a sociocrítica e a crítica textual. Esses métodos ora se afastam ora se aproximam, utilizando-se de elementos uns dos outros para compor um painel mais abrangente desse algo ao mesmo tempo simples e complexo que é a literatura. Como o próprio homem, aliás.
Eu poderia desenvolver uma comparação entre os diversos métodos na tentativa de encontrar os limites onde eles se encontram e se interpenetram. Porém, este tipo de trabalho se tornaria por demais longo e exaustivo, se prestando melhor a uma tese ou um livro. Assim, decidi-me a me ater apenas à sociocrítica.
Sociocrítica é um termo relativamente recente que serve para designar uma ideia antiga. A partir do momento em que as ciências sociais começaram a surgir e a se firmar como tais, começaram a refletir sobre as realidades socioculturais, tanto dentro de um mesmo espaço (cidade, país) quanto em espaços diferenciados. Além disso, essa análise passou a ser realizada tanto de forma sincrônica quanto diacrônica (e aqui há um paralelo com a linguística).
A mudança de mentalidade que ocorreu em virtude de diversos fatores que revolucionaram o modo de agir e de pensar – Iluminismo, descobrimento da América, Revolução Francesa etc. – fizeram com que a sociedade se transformasse, abrindo espaço para novas possibilidades e criando necessidades até então desconhecidas. A literatura anunciava e prenunciava essas mudanças sociais, participava dos acontecimentos ao invés de se manter à margem. A literatura, conforme dizia Madame de Staël, passara de ser arte para ser arma. O que combina com a máxima que diz que a pena é mais forte que a espada. A arte, antes vista como algo abstrato, passou a ser um produto da História (produto, enquanto refletia os movimentos sociais; produtora, quando atuava de modo a modificá-los). A produção literária assumiu um caráter de diálogo entre o autor e o leitor. Cabia à sociocrítica analisar o autor e a obra, não como divindades em seus Olimpos, mas como elementos participantes do diálogo com seu público. Para apoiar essa ideia, podemos recorrer à Claude Duchet quando este nos diz que a sociocrítica visa ao próprio texto como espaço onde se desenrola e se efetiva uma certa socialidade.
O Iluminismo e a Revolução Francesa, principalmente, tornaram a noção de política como algo que fazia parte do cotidiano das pessoas, e não como algo pertencente apenas a uma pequena classe de privilegiados. A filosofia, por exemplo, teve que rever seus conceitos de disciplina meramente especulativa, tornando-se uma disciplina política e atuante. Ou seja, de uma filosofia baseada em Platão, voltada para abstrações, passou-se a uma filosofia mais aristotélica, baseada no empirismo, analisando as coisas como elas se apresentam ao mundo. A própria visão de ‘homem’ passou por mudanças, substituindo-se a visão religiosa por uma visão do homem como um ser ativo social e historicamente, um elemento provocador de mudanças por meio de sua influência no meio no qual está inserido. Esse homem passou a se questionar sobre o seu lugar e propósito no mundo. Da mesma forma, a literatura passou a ser questionada sobre sua utilidade e o seu significado. Percebeu-se que a literatura altera-se de acordo com as mudanças da sociedade, adapta-se às mudanças no pensamento e nas ciências. A literatura segue o curso da História, de um modo diacrônico, adaptando-se às configurações que vão se sucedendo. Mas a literatura não é uma simples documentação de fatos históricos – para isso existe a História. Ao mesmo tempo que ela reflete, ela também constrói, também inventa.
Nesse ponto, vale ressaltar a importante contribuição das ideias de Karl Marx. O marxismo procurava explicar os acontecimentos históricos por meio das relações sociais e da luta de classes, e a literatura não escapou a essa ótica. Para o marxismo, “a literatura e a cultura deveriam ser repensadas como efeitos e como meios de uma última instância econômico-social”. Isso porque, segundo eles, “a literatura não é apenas uma prática restrita aos grandes escritores. Ela é também um mercado e uma prática extensiva”.
Entretanto, preso a essa visão reducionista onde as relações econômicas tornavam-se o foco central de sua análise, o marxismo que executava suas primeiras leituras ficava bitolado a uma análise desprovida de um rigor científico. Posteriormente, a interpretação marxista buscou auxílio no campo da semiótica literária e da psicanálise, o que abriu um novo leque de possibilidades.
É, de fato, inegável que o meio exerce uma forte influência sobre o trabalho literário. Quando escrevem, os autores refletem a sua época, a sua classe social e o pensamento dominante. Escritores que consideramos ‘machistas’, por exemplo, estavam simplesmente espelhando a condição da mulher à época, quando o conceito de ‘machismo’ sequer existia. O mesmo é válido para o preconceito racial e para a homofobia. Mas também é inegável que muitos escritores mantêm-se à parte de determinados acontecimentos de sua época, muitas vezes por não perceberem a importância que aquele fato terá futuramente. É o que ocorreu com os acontecimentos de 1968 em Paris, Praga e México. O ano de 68 foi emblemático e está tendo reflexos até hoje. Recentemente, foram lançados diversos livros sobre o tema, no Brasil e no mundo. Entretanto, 1968 não está na literatura de 1968. Apesar de todos os protestos (especialmente os de Paris, em maio) e passeatas, 1968 não fez parte da literatura da época. Posteriormente, com os seus reflexos aparecendo aqui e ali, começou a figurar na literatura, culminando na enxurrada de livros que têm sido escritos atualmente. Só muitos anos depois percebeu-se a influência que aquele ano teve para o mundo. Na época, contudo, enquanto o processo histórico ainda estava se desenrolando, isso passou despercebido.
Existe, também, um processo de vislumbre de um processo histórico que ainda está se desenrolando e projetá-lo para o futuro. Alguns autores, analisando fatos históricos recentes, cujos efeitos ainda estão começando a se fazer sentir, projetam um futuro decorrente daquele momento. É o que acontece em livros como “A revolução dos bichos”, de George Orwell, e “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley. Analisando aquele momento histórico, eles projetam os seus efeitos em um determinado período de tempo, muitas vezes alcançando uma precisão inacreditável nas suas previsões.
Há, ainda, a análise sobre um fato histórico que não ocorreu. É o que acontece em livros como “O homem do castelo alto”, de Philip K. Dick. Nesse livro, o autor imagina como seria o mundo se a Alemanha e o Japão tivessem vencido a 2ª Guerra Mundial. É um interessante jogo especulativo que mostra o que poderia ter acontecido se a história tivesse tomado outro rumo.
Temos, nesse último exemplo, uma tentativa de ler nossa própria história. O exemplo de 1968, ao contrário, demonstra a nossa incapacidade de ler a história no momento em que ela está acontecendo – temos, como exemplo, as revoluções comunistas, que acabaram se tornando regimes totalitários.
A sociocrítica, longe de ser apenas um método crítico, é uma maneira de descobrirmos a nossa relação com o outro e com o mundo. Uma maneira de entendermos nossa própria influência dentro de um contexto histórico sempre sujeito a mudanças. E nós, participantes desse contexto, mudamos junto com ele. Somos como Alice, de Lewis Carrol, quando ela reclama: “nunca tenho certeza do que eu vou ser de um minuto para o outro!”.         
     

sábado, 15 de setembro de 2012

A literatura e a escola



A literatura sempre exerceu uma grande influência no pensamento e comportamento humanos ao longo do tempo. Várias obras retratam com fidelidade os usos e costumes de uma época. Ler alguns romances equivale a ler um livro de História. Por esse fato, a literatura passou a ser uma disciplina do Ensino Médio, sendo também utilizada, em menor grau, no Ensino Fundamental. Além disso, é matéria obrigatória no curso de Letras. Porém, devemos analisar como essa disciplina vem sendo praticada nas nossas escolas.
Atualmente, o ensino de literatura se restringe a um “decoreba” de nomes de autores, obras e escolas literárias. O aluno tem de decorar qual obra iniciou determinado período e qual obra finalizou-o; quais as características desse período; os principais autores e as datas de lançamento de suas respectivas obras. O professor faz um resumo das principais obras, citando os personagens principais e alguns secundários que possuem relevância na história. De posse destas informações, o aluno é considerado apto para fazer uma prova.
Mas, e a obra em si? Basicamente, os alunos aprendem os nomes de vários autores e de suas respectivas obras, porém, geralmente não lê nenhuma delas. Conhece “por alto” a história de um determinado romance, mas nunca o lê por inteiro. O aluno acaba não desfrutando do prazer de ler um livro. Consequentemente, esse aluno acabará por não se tornar um leitor.
A maioria dos leitores, quando lê um livro, não o faz com o objetivo de analisá-lo em suas estruturas mais intricadas e profundas, mas sim pelo exclusivo prazer de desfrutar de uma boa história, assim como ele faz quando assiste a um DVD. O leitor comum não precisará, em sua vida futura, de conhecer movimentos literários e suas respectivas características. É claro que, em alguns casos, esse conhecimento auxiliará o leitor a compreender melhor a obra em questão, mas isso não é uma condição ‘sine qua non’. O leitor não precisa ser um profundo conhecedor de História do Brasil para compreender, por exemplo, “O guarani” ou “O cortiço”.
Ao invés de se preocupar em ensinar questões externas à obra, o professor de literatura deveria, primeiramente, ensinar o aluno a gostar de ler e, para isso, deveria incentivá-lo (eu disse incentivá-lo, não obrigá-lo) a ler algumas obras e, posteriormente, discuti-las em sala de aula. Contudo, a discussão deveria ficar restrita à história narrada na obra. Questões ligadas à sua estrutura devem ficar a cargo dos estudiosos de literatura (professores, críticos etc.), e não do leitor comum.
É importante revermos nossos conceitos e objetivos. Ouvimos muitas pessoas ligadas à educação dizerem que os alunos de hoje não leem mais. Porém, muitos não leem por não receberem o incentivo adequado. As aulas de literatura, com sua enxurrada de nomes de autores, nomes de obras, escolas literárias e datas, acabam por afastar o aluno dos livros, ao invés de aproximá-los.      
    

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A intolerância de quem diz pregar a tolerância



O Cristianismo é uma religião cuja doutrina, pregada por Jesus, entre outras coisas, prega a não-violência e a tolerância para com o próximo. Entretanto, o que se observa nos autoproclamados cristãos, é uma total falta de tolerância para com aqueles que apresentam um pensamento diferente do deles. Observamos isto na intolerância que apresentam com quem segue uma religião diferente, como o Espiritismo ou o Budismo, por exemplo, ou com aqueles que se confessam ateus.
Outra prova de intolerância refere-se às artes, em geral. Livros, filmes ou peças de teatro que apresentam uma temática religiosa, geralmente causam polêmica, o que só contribui para aumentar o interesse pela obra em questão.
É comum vermos as pessoas clamando por LIBERDADE, DEMOCRACIA e LIBERDADE DE EXPRESSÃO. Porém, essas palavras só valem quando o pensamento dos outros se coaduna com o nosso. Quando alguém pensa diferente, costumamos ter atitudes fascistas, bem ao estilo de Hitler ou Mussolini, e tentamos cercear o direito que aquela pessoa tem de se expressar livremente.
Temos visto isto com frequência nas redes sociais. Um exemplo recente é o que foi lançado no Facebook. Segundo o autor da mensagem, o comediante Renato Aragão irá lançar um filme onde ele aprece como o segundo “filho de Deus”, que vem completar a missão iniciada por Jesus (veja a foto). Os “cristãos” se sentiram afrontados e pedem que se “denuncie” esta afronta.
Em primeiro lugar, foi o próprio Jesus quem aconselhou que, quando fôssemos ofendidos, oferecêssemos a outra face. Mas o que vemos aqui, na verdade, é um “bateu, levou”. Em segundo lugar, será que essas pessoas que “se dizem cristãos” realmente o são? Será que elas seguem os mandamentos do Cristo? Jesus pregou a não-violência, mas vemos “cristãos” que são fãs de filmes violentos, os chamados filmes de ação, e de MMA (muitos lutadores, inclusive, se dizem cristãos, e depois arrebentam um outro cara no octógono). Jesus também pregava contra a promiscuidade, mas os “cristãos” assistem a filmes pornôs e transam com quem aparece pela frente (às vezes, até com quem aparece por trás).
Resumindo: clamamos por liberdade, mas tentamos cercear a liberdade de quem pensa diferente. Queremos impor a todos o nosso pensamento, ignorando que as pessoas possuem diversidade de ação e de pensamento. Só falta os “cristãos” voltarem a queimar livros e pessoas nas fogueiras da Inquisição, como a Igreja Católica fazia no passado.
Cada um tem direito a sua crença e ao seu pensamento. Se queremos ter os nossos direitos respeitados, devemos começar dando o exemplo e respeitar o pensamento do próximo.
Provavelmente, é o que Jesus iria fazer!         
 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Pensar, nem pensar!




Pensar, nem pensar!
Nos dias atuais, esse passou a ser o pensamento (ou o não-pensamento) dominante. Afinal, pensar pra quê? Temos a televisão e a Internet para nos dizerem tudo o que devemos saber; a moda que nos diz o que devemos vestir; as rádios que nos dizem que música devemos ouvir.
Portanto, pra quê pensar?
Pra quê vou analisar se a música que estão me mandando ouvir é boa ou não? Se estão dizendo que é boa, é porque deve ser mesmo! Se me mandam vestir uma determinada roupa, por quê vou me preocupar se ela fica bem ou não em mim? Visto logo de uma vez e estou na moda! Por quê me preocupar com a qualidade dos programas que passam na televisão? Se a tv os exibe, eu os assisto!
Quando perguntamos para algumas pessoas por que elas vestem determinada roupa, ouvem uma determinada música ou assistem a um determinado programa, geralmente ouvimos a mesma resposta: “Todo mundo faz isso!”.
E esse é o problema! Fazemos coisas porque “todo mundo faz”. Se todos os meus amigos usam piercing, por quê só eu não uso? Vou lá e coloco um também (às vezes, até mais de um). Não paro para pensar se eu gosto ou não de piercing, se eu realmente quero usar um piercing ou não. Uso porque “todo mundo” está usando.
A necessidade de fazer parte, de ser aceito em um grupo, nos tira a capacidade de pensar. Faço porque todos fazem. Agimos como os animais que andam em grupo e que se comportam do mesmo jeito, sincronizadamente. Todos andam ao mesmo tempo, comem ao mesmo tempo, bebem água ao mesmo tempo, dormem ao mesmo tempo. Observando alguns grupos humanos (e não apenas de adolescentes, grupos de adultos também), nos perguntamos em que eles são diferentes de um grupo de zebras, leões, gnus ou búfalos. As manadas (sejam de que espécie for, inclusive humana), no geral apresentam os mesmos comportamentos, que só diferem em algumas particularidades (todos os leões caçam zebras do mesmo jeito; todas as zebras fogem dos leões do mesmo jeito).
As manadas humanas, quer estejam caçando, quer estejam sendo caçadas, quer estejam apenas passeando pelas nossas savanas de concreto, agem do mesmo jeito. E assim como uma zebra não pensa por quê come, apenas o faz quando todas as demais zebras do grupo o fazem, nós também nos deixamos levar pelo comportamento da manada à qual pertencemos.
Faço porque todos fazem! – esse é o lema. Não questiono, não analiso, não perquiro, não pergunto. Não penso se aquilo, realmente, é o que quero fazer, se é o melhor a fazer. Faço porque todos fazem e pronto!
Pensar dá muito trabalho. Exige conhecimento, discernimento e nos torna responsáveis pelo caminho escolhido. Ao nos entregarmos à cadência da manada, transferimos aos outros a responsabilidade sobre nossos atos.                       
          


sábado, 21 de julho de 2012

A liberdade de não ser livre



Você já reparou que, para onde quer que nos viremos, sempre tem alguém falando em democracia, direitos e liberdade? Porém, se analisarmos os fatos, veremos que essas são palavras vazias e, muitas vezes, quem as pronuncia não sabe realmente o significado de cada uma.
Já postei algo sobre esse assunto, mas acho que nunca é demais repetir, principalmente quando começamos a acreditar no que ouvimos e passamos a repetir as mesmas coisas como se fôssemos um papagaio repetindo uma nova palavra aprendida.
A questão é que, atualmente, todo mundo se considera um defensor da liberdade e apregoa defendê-la com unhas e dentes. Entretanto, quando surge a oportunidade de realizar esse discurso na prática, mostram-se mais reacionárias do que as pessoas que elas acusam de sê-lo.
Essa é uma prática muito comum na política (inclusive a que é praticada no meio universitário). Todos pregam a liberdade de pensamento e de expressão, mas se mostram intolerantes e intransigentes diante de um pensamento contrário. Fala-se muito em dialética, mas não existe dialética quando se nega e não se aceita o contrário. A dialética se caracteriza pela junção de ideias opostas e/ou contraditórias para que se possa chegar a um consenso, a síntese. Alguns podem dizer que nossos políticos fazem isso, já que chegam a acordos. Errado! O que eles fazem são concessões para conseguir privilégios: me dá um Ministério e eu voto a favor da sua emenda. Isso não é dialética: é troca de favores.
Temos sofrido esta censura no nosso modo de pensar até mesmo coisas triviais. Simplesmente se estabelece que, a partir de agora, determinado tipo de comportamento deve ser aceito como algo normal, sem críticas. E ai de quem pensar o contrário: é tachado de reacionário, conservador e preconceituoso. Ninguém tem mais o direito de defender suas ideias e valores, já que muitas coisas passaram a ser impostas por força de Lei. Pense o contrário e será preso!, é o lema atual. Seja um bom menino e aceite tudo passivamente, sem pensar. Quem sabe, você não ganha uma balinha?
Até os nossos direitos nos são impostos. Ouvimos dizer que o voto é um direito do cidadão. Se é um direito, então eu decido se quero votar ou não, não é mesmo? Não! O voto é considerado obrigatório, e você poderá sofrer sanções caso não vote, como não obter empréstimos ou ficar impossibilitado de assumir um cargo público.
Que democracia é essa onde não temos a liberdade de pensar por conta própria e onde direitos são obrigatórios? Reclama-se da ditadura, porém, classes que antes se diziam oprimidas e/ou discriminadas, agora se tornaram opressoras e discriminatórias. Não vou citá-las nominalmente. Acho que o leitor é perspicaz o suficiente para identificá-las sozinho.
No passado, muitas pessoas morreram lutando por liberdade e democracia. Deram suas vidas para que outros pudessem dizer o que pensam e pensar livremente, quando eles mesmos não tiveram essa oportunidade. Será que lutaram e morreram em vão?
Termino com uma frase, dita pelo filósofo Voltaire, que procuro manter como meu lema de vida: “Não concordo com nada do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”.
Isso é liberdade!