sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A tensão entre oralidade e escrita em “Grande sertão: veredas”



A obra de João Guimarães Rosa nos permite efetuar várias leituras diferentes sobre os mais diversos temas, o que faz com que sua obra seja uma das mais ricas da literatura brasileira e, até mesmo, da literatura mundial. Guimarães Rosa nos apresenta um sertão rico em descrições tanto físicas quanto linguísticas. Rosa era um pesquisador do sertão, o que faz com que sua obra seja rica em detalhes. Nesse aspecto, seu trabalho se aproxima de “Os sertões”, de Euclides da Cunha, embora não possua o tratamento técnico, científico deste.
A preocupação com a linguagem é uma das marcas da obra de Rosa. Ele faz uso de um falar sertanejo, bem como de uma linguagem mais refinada, ambas as linguagens presentes no sertão, ao mesmo tempo separando e unindo os personagens. A linguagem do sertão se faz presente no mundo, e a linguagem do mundo se faz presente no sertão. Para o próprio Guimarães Rosa, o sertão é o mundo. Conforme as palavras do personagem-narrador Riobaldo, em “Grande sertão: veredas”, “o sertão está em toda a parte”.
Muitos teóricos afirmam que Guimarães Rosa faz uso de diversos neologismos nos seus textos, inventando, ele mesmo, muitas das expressões utilizadas no livro. No entanto, uma observação mais atenta nos mostra que, em muitos casos, Guimarães Rosa faz uso de estrangeirismos (é o caso de esmarte, do inglês smart, e joliz, do francês joli mais a palavra portuguesa feliz) e de arcaísmos (é o caso de vuvú vavavá, que constam do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa). Muitas expressões usadas nos seus textos são palavras dicionarizadas que, por um motivo qualquer, deixaram de ser utilizadas e que já eram consideradas arcaísmos na época em que sua obra foi escrita.
Guimarães Rosa foi tachado tanto de reacionário (por se utilizar de arcaísmos) quanto de revolucionário (por se utilizar de neologismos e de estrangeirismos). O termo “reacionário” é usado, geralmente, de uma forma pejorativa. Entretanto, se considerarmos que, ao utilizar uma palavra já esquecida, portanto, desconhecida para a maioria, senão para a totalidade, dos leitores, revivendo-a, isso teria o mesmo efeito que a criação de uma palavra nova (já que, para os leitores, essa palavra seria, efetivamente, “nova”). Assim, ele estaria sendo mais revolucionário do que reacionário.
Porém, o que se observa é que, mais do que trabalhar a linguagem, “Grande sertão: veredas”, talvez mais do que qualquer outra obra de Guimarães Rosa, ressalta o conflito entre a tradição oral e a escrita. Além dos diversos ‘causos’ contados pelo personagem-narrador, Riobaldo, que são uma característica da história transmitida de forma oral no sertão, há também a própria estrutura narrativa utilizada pelo autor: o monólogo. O texto se inicia pela fala de Riobaldo, dispensando a presença de um narrador que normalmente situaria a história, o local e os personagens. Enquanto n’Os sertões, de Euclides, temos um capítulo destinado a descrever a terra e outro a descrever o homem, antes de narrar a luta, que é o objetivo do livro, em Rosa vamos conhecendo um e outro – terra e homem – à medida em que a narrativa de Riobaldo avança.
Rosa também nos faz acreditar na presença de um interlocutor que estabelece um diálogo – outra característica da oralidade – com Riobaldo, um interlocutor cuja presença, contudo, está comprometida pela própria fala de Riobaldo. O interlocutor de Riobaldo não é passivo – ele “participa” da narrativa fazendo perguntas e pequenas interrupções –, contudo, essa não-passividade só se dá através do próprio Riobaldo, o qual monopoliza toda a narração – o que é uma característica de um texto escrito. Os personagens falam pela boca de Riobaldo. Temos, nesse caso, uma ambiguidade onde um texto escrito encena uma situação falada e onde a oralidade simula um texto escrito. A escolha de uma narrativa que simula a oralidade revela-nos uma simulação do próprio ambiente do sertão, repleto de personagens rústicos, refratários a mudanças.
Longe de se limitar, entretanto, à ambiguidade entre oralidade e escrita, Rosa estende essa dicotomia para a própria situação do sertão: um ambiente de tensão constante entre os senhores proprietários de terras e o povo, ou seja, a língua escrita como forma de opressão em contraste com a liberdade que se permite a oralidade. O próprio diálogo de Riobaldo com o interlocutor não-nomeado já representa uma ambiguidade, um conflito: o interlocutor demonstra ser um homem culto e cosmopolita, enquanto Riobaldo, atualmente um fazendeiro, já foi jagunço no passado.             
A figura do interlocutor não-nomeado, homem letrado, o qual aparentemente questiona Riobaldo sobre as coisas do sertão, sugere alguém que não pertence àquele meio, embora possua grande interesse nele. Sugere a pessoa de um pesquisador mais do que a de um simples curioso. Esse perfil do interlocutor se encaixa perfeitamente no perfil do próprio Guimarães Rosa, o qual viajava pelo sertão conversando com as pessoas, coletando “causos”, observando a paisagem e a linguagem. Encarando a situação por este ângulo, temos mais uma ambiguidade que permeia o texto. Se considerarmos Rosa como sendo o interlocutor, o narrador passaria a ser esse mesmo interlocutor e, portanto, o texto readquiriria o seu caráter de linguagem escrita; caso contrário, teremos a figura de Riobaldo como narrador e, portanto, voltamos à linguagem oral. Ou seja, de maneira sub-reptícia, Rosa figura a tensão, no controle da narrativa, entre oralidade – Riobaldo, o sertão – e escrita – o interlocutor cosmopolita, o urbano.
Oralidade e escrita, sertão e litoral, proprietários de terras e povo, Deus e Diabo! A própria palavra ‘veredas’, do título, expressa essa dualidade: de acordo com o dicionário Aurélio, vereda, na linguagem do nordeste brasileiro, significa “região mais abundante em água na zona da caatinga, entre as montanhas e os vales dos rios, e onde a vegetação é um misto de agreste e caatinga”.  Vereda também significa “caminho estreito, senda”, em contraste com o “grande sertão”.
A linguagem pode ser tão vasta quanto o sertão, mas também pode ser tão limitadora e estreita quanto uma vereda!  

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A construção do mito em “O senhor dos anéis” e “Crônicas de gelo e fogo”


O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, e Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, são duas das maiores sagas já escritas em tempos modernos. “O senhor dos anéis” foi dividido em três livros: “A Sociedade do Anel”, “As Duas Torres” e “O Retorno do Rei”. Se quisermos, podemos incluir “O Hobbit”, como sendo o primeiro livro da série, formando uma quadrilogia. Já “Crônicas de gelo e fogo”, segundo se diz, é uma saga composta por sete livros, dos quais cinco já foram publicados: “A Guerra dos Tronos”, “A Fúria dos Reis”, “A Tormenta de Espadas”, “O Festim dos Corvos” e “A Dança dos Dragões”. O sexto volume, a ser publicado, será “Os ventos do inverno”.
Ambas as sagas possuem semelhanças e diferenças. Entre as semelhanças podemos citar as cenas de batalhas, magia, monstros, seres mitológicos e um mundo que se parece com a nossa Terra em sua época medieval, com reis, príncipes e princesas, castelos etc.
Entre as diferenças, podemos citar a construção das personagens e o próprio foco da história. Enquanto em “O senhor dos anéis” o foco encontra-se no Um Anel – enquanto uns o querem para utilizá-lo em proveito próprio, outros querem vê-lo destruído –, em “Crônicas de gelo e fogo” o foco concentra-se na luta pelo Trono de Ferro e todas as disputas pelo Poder que isso acarreta, além da chegada iminente dos temíveis Outros, que se levantam com o frio – ou que trazem o frio quando se levantam?
Em relação aos personagens, enquanto “O senhor dos anéis” segue uma linha maniqueísta – os bons são extremamente bons e os maus são extremamente maus –, “Crônicas de gelo e fogo” fugiu dessa linha, tornando os personagens mais humanos e mais identificáveis com os seus leitores. Os selvagens do Norte, apesar do nome, demonstram certas emoções, como é o caso de Ygritte por Jon Snow, defendendo-o inúmeras vezes enquanto os demais selvagens o acusavam de ser um traidor. Já Jon Snow, que deveria ser um dos ‘mocinhos’ da história, juntou-se aos selvagens apenas para traí-los depois, o que custou a morte da selvagem Ygritte, por quem ele se afeiçoara. Mesmo personagens que começaram a história como vilões, como é o caso de Jaime e Tyrion Lannister e o Cão de Caça, por exemplo, demonstraram uma certa ‘humanidade’ em determinados momentos: Cão de Caça salva Sansa quando a comitiva do Rei Joffrey é atacada e várias pessoas são mortas; Jaime Lannister, o Regicida, volta para salvar Brienne de Tarth; Tyrion preocupa-se em evitar que a prostituta Shae seja morta, sendo traído por ela, depois. Em contrapartida, a jovem e sonhadora Sansa Stark, que a princípio é uma das ‘mocinhas’, mente em favor de Joffrey, contra a irmã Arya, apenas para não ver o seu sonho de casar com o “galante cavalheiro” ser destruído. Por conta dessa mentira, sua loba gigante Lady acaba sendo morta, bem como o filho do açougueiro que brincava com Arya, Mycah. A ‘mocinha’, no fim das contas, acabou agindo como a maioria dos mortais comuns: de forma egoísta.
Em “O senhor dos anéis”, a luta não é pelo Poder, e sim a velha luta do Bem contra o Mal. Os membros da Sociedade do Anel – Gandalf, Aragorn, Frodo, Gimli, Legolas etc. – não buscam glórias pessoais nem o controle de terras ou o governo de reinos. Querem apenas acabar com o mal provocado por Sauron e seus orcs, eliminando a ameaça que paira sobre a Terra Média. Frodo, ao aceitar o encargo de destruir o Um Anel, não pensa em dominar o Condado, após sua volta. Altruisticamente, pensa apenas em evitar que Condado seja afetado pelo mal proveniente de Sauron.
Já em “Crônicas de gelo e fogo”, todos querem uma fatia do bolo do Poder. Quando um grande senhor se junta a um dos reis, o faz pretendendo obter terras e títulos após a vitória do rei que apoia. Caso esse rei seja derrotado, esse mesmo senhor não hesita em dobrar o joelho e jurar fidelidade ao rei vencedor, esperando, pelo menos, ser poupado de uma execução.
Enquanto Tolkien, criado dentro do catolicismo, utilizou vários elementos do cristianismo em sua história – Gandalf, o Cinzento, morre, ressuscita e volta como Gandalf, o Branco (numa alusão à morte e ressureição de Jesus); Sauron perde seu corpo físico, mas continua a existir em uma forma espiritual, espalhando o mal pela Terra Média (numa alusão ao Demônio bíblico); os seres malignos são criaturas que vivem na escuridão e no fogo e possuem formas horrendas, enquanto os seres bons têm uma aparência angelical, como os elfos –, Martin resolveu centrar a história em uma época parecida com a Idade Média, quando reis lutavam por riquezas e territórios, visando ampliar o seu poder, lembrando-nos de que isso perdura até hoje. Ambas as sagas são riquíssimas, atuais e deveriam ser lidas por todos aqueles que tentam compreender o mundo no qual vivemos. Enquanto “Crônicas de Gelo e Fogo” mostra a luta pelo Poder – riquezas e territórios, coisa que acontece desde que o homem passou a viver em comunidades –, “O Senhor dos Anéis” aborda, de maneira não muito evidente, os prejuízos causados pela industrialização exagerada que vemos ocorrer desde a Revolução Industrial (para maiores detalhes, leia “A simbologia de “O senhor dos anéis”: Frodo e o conflito com a modernidade”, neste mesmo blog).

sábado, 26 de janeiro de 2013

Imbecilidade em ‘horário nobre’



Todo início de ano vemos a reedição de uma das maiores imbecilidades já apresentadas na televisão brasileira: o famigerado “Big Brother Brasil”. E, o que é pior, vemos as pessoas preocupadas com quem irá ganhar o prêmio ou apreensivas diante de mais um paredão, como se isso fosse algo de importância vital para a continuação de suas vidas. Mesmo quem não perde seu tempo assistindo a uma imbecilidade destas, não tem como deixar de conhecer alguns detalhes, seja por intermédio dos comentários das pessoas – na rua, no trabalho etc. –, seja por flashes durante a programação da TV Globo.
Verdade seja dita: o programa é uma verdadeira ‘mina de ouro’ para a TV Globo. A cada paredão, vemos milhares de ligações, o que proporciona milhares de reais para os cofres da emissora, sem contar o dinheiro dos patrocínios. Com o que arrecada, a TV Globo consegue pagar todas as despesas e prêmios com os participantes e ainda sobra alguns milhões na sua conta bancária.
O triste da história é vermos uma pessoa que, ao longo da carreira, tanto como jornalista quanto como escritor, sempre demonstrou ser um homem inteligente, como é o caso de Pedro Bial, prestando-se para apresentar um programa dessa qualidade e, o que é pior, qualificando os representantes do programa como ‘heróis’!
Heróis, por quê? Por aguentarem passar alguns meses representando seus ridículos papéis para todo o Brasil? Por falarem idiotices atrás de idiotices e arranjarem confusões pelos motivos mais fúteis? Por se sujeitarem a apresentar cenas dignas de filmes pornôs em um horário no qual há crianças assistindo?
Herói é a pessoa que trabalha o dia todo e, à noite, vai para a escola ou faculdade pensando em adquirir conhecimentos que possam ajudá-la a progredir na vida. Herói é a pessoa que sobrevive com um salário mínimo, em um país no qual os políticos e alguns funcionários públicos ganham verdadeiras fortunas para não trabalhar. Herói é você viver em uma cidade violenta, saindo de casa todos os dias para trabalhar ou estudar, apesar do medo que sente de ser assaltado ou assassinado. Herói é o professor e o médico, que insistem nas suas profissões, apesar de não terem reconhecimento e receberem um pagamento ridículo.
Em um país como o Brazil – com ‘z’, sim, subservientes que somos à cultura americana –, onde as pessoas não estão habituadas a refletir sobre as coisas, aceitando qualquer porcaria que lhes seja atirada na cara, teremos que aguentar por muito tempo a presença desse Big Brother, um programa que representa um total desserviço à educação – e, infelizmente, não é o único – e que não acrescenta nada de útil, nem mesmo como simples divertimento.
É triste vermos tantas pessoas desperdiçando seu dinheiro votando em ‘paredões’, quando essa mesma quantia poderia ser utilizada para projetos educacionais, para a construção de postos de saúde, para a ampliação de escolas, para a compra de remédios para os hospitais, para o saneamento básico de bairros miseráveis.
Porém, as pessoas preferem doar seu dinheiro para sustentar uma imbecilidade como o Big Brother, ao invés de doar esse mesmo dinheiro para uma instituição de caridade ou um asilo, por exemplo.
Somos o país do Big Brother. E, enquanto permanecermos assim, continuaremos a ter desigualdade social, racismo, homofobia e outros problemas advindos da falta de cultura e conhecimento do nosso povo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Duna: A “Guerra dos Tronos” da ficção científica


Várias sagas têm sido escritas ao longo do tempo: “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien; “Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R. R. Martin; “As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley; “A Busca do Graal”, de Bernard Cornwell; “A Torre Negra”, de Stephen King, entre outras. Em uma linha infanto-juvenil temos “Rangers – Ordem dos Arqueiros”, de John Flanagan. Na ficção científica, uma que merece atenção é a saga “Duna”, de Frank Herbert.
Publicada na década de 1960, a saga de “Duna” ganhou reconhecimento por críticos e leitores. “Duna” ganhou prêmios como Nebula e Hugo e, em 1975, em uma pesquisa de opinião pública, foi escolhido como ‘o romance de mais imaginação dos últimos tempos’, superando concorrentes como “1984”, de George Orwell, e “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien. A saga mereceu, também, elogios de dois monstros da literatura de ficção científica: Arthur C. Clark e Robert A. Heinlein.
A saga de Duna é composta por seis livros: “Duna”, “O messias de Duna”, “Os filhos de Duna”, “O Imperador-deus de Duna”, “Os hereges de Duna” e “As herdeiras de Duna”.
A saga narra as intrigas políticas e religiosas que ocorrem em torno do planeta Arrakis, conhecido como Duna, um planeta desértico, lar de vermes de areia gigantes e produtor da disputada ‘especiaria’. O planeta é habitado por um estranho povo da areia, conhecido como Fremen. Além disso, o Imperador Padishah vive às voltas com a insatisfação que se espalha pelo Império, conseguindo manter-se no poder apenas pelo medo que as grandes e pequenas Casas têm do seu temível exército, os Sardaukar.
A Casa Atreides ganha a concessão de explorar a especiaria no lugar da Casa Harkonnen, sua inimiga, a qual procura recuperar o planeta e os fantásticos lucros que obtinha com a exploração da especiaria. O equilíbrio do poder é precário, sendo disputado pelo Imperador, pelas Grandes Casas, pela Corporação Espacial e pelas Bene Gesserit.
Em um mundo onde os computadores foram suprimidos, após o Jihad Buleriano, ou Grande Revolta, a Corporação Espacial e as Bene Gesserit transformaram-se em duas escolas de treinamento físico e mental, cujo objetivo era o de fazer com que seus adeptos fossem capazes de realizar grandes feitos sem precisar de computadores para isso. As Bene Gesserit eram extremamente habilidosas nas artes do combate e os navegadores da Corporação Espacial eram capazes de transportar pessoas e cargas para qualquer ponto do Universo, substituindo os aparelhos convencionais de navegação. Havia, também, os Mentat, ‘computadores humanos’ que deviam processar informações e retirar delas resultados lógicos. Toda grande Casa possuía um Mentat.     
Intrigas comerciais, políticas e religiosas estão presentes em todos os cantos. Um novo culto, iniciado em Arrakis, ameaça tomar o Império, bem como uma força composta por Fremens, denominada Fedaykin, ameaça o poder do exército imperial, os Sardaukar. Arrakis torna-se o centro de uma força que poderá varrer o Império, desestabilizando o já precário equilíbrio de Poder.
Frank Herbert criou um universo consistente e complexo, que se mantém atual com os acontecimentos que vemos no mundo moderno. Para Arthur C. Clark, autor de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” e “Fim da Infância”, o livro de Frank Herbert é “único... na profundidade da caracterização e nos detalhes extraordinários do mundo que cria”.     
   

sábado, 12 de janeiro de 2013

O fascismo da linguagem



Em seu livro ‘Aula’, Roland Barthes escreveu que não há linguagem fora do Poder, e que a língua não é reacionária nem progressista, e sim fascista: porque o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer.
Atualmente, mesmo sob um sutil e tênue discurso – e disfarce – de liberdade e democracia, temos visto o fascismo da língua imperando nos mais diversos setores de nossa sociedade. E é um fascismo pior do que o citado por Barthes, pois este, além de nos “obrigar a dizer”, também nos “impede de dizer”. Esse fascismo tem respondido pelo nome de “Politicamente Correto”.
Lembro de um episódio ocorrido com a presidente Dilma, quando ela foi vaiada durante um discurso simplesmente porque disse ‘portadores de necessidades especiais’ ao invés de ‘pessoas com necessidades especiais’. Da mesma forma, um jovem delinquente que, a despeito da idade precoce, não passa de um ladrão, assassino ou estuprador – ou uma combinação dos três, em alguns casos –, não pode mais ser ‘preso’, e sim ‘apreendido’, como se o ato em si não fosse a mesma coisa – com a diferença que o jovem delinquente brevemente será solto para continuar assaltando, assassinando e estuprando, por ser considerado incapaz de responder pelos seus atos, embora seja suficientemente capaz de praticá-los.
A nossa sociedade, escondida atrás de uma bandeira democrática, está na verdade tornando-se uma sociedade autoritária e fascista. As pessoas estão perdendo o direito de terem ideias próprias, sendo obrigadas a aceitar as ideias que são impostas pela sociedade como se estas fossem ‘verdades supremas’ que não podem ser questionadas.
Apropriando-me das ideias de Roland Barthes, posso dizer que as funções da literatura são: mathesis, mimesis e semiosis. Deixando a primeira e a última de lado, poderíamos dizer que mimesis seria uma ‘imitação’ da realidade – ou, como preferem alguns, representação. Em alguns casos, a literatura se antecipa à realidade, tornando-se um tanto visionária, e antecipando situações que ainda não ocorreram. Para ficar em apenas dois exemplos, cito os livros ‘1984’, de George Orwell; e ‘Admirável mundo novo’, de Aldous Huxley. Ambos os autores escreveram sobre sociedades autoritárias, que obrigavam as pessoas a agir de acordo com o que ela considerava “melhor” para as pessoas, evitando que estas mesmas pessoas pensassem e raciocinassem sobre o que estavam fazendo. O pensamento livre era suprimido por uma aceitação passiva do que lhes era imposto pelo Governo. Ninguém dizia o que pensava – pois, na verdade, ninguém pensava –, apenas repetiam o que lhes era ensinado a dizer.
Hoje, quando vejo pessoas querendo banir os livros de Monteiro Lobato das escolas, por acusação de racismo – quando este conceito não existia, na época em que ele escreveu suas histórias –, e quando vejo pessoas querendo alterar grandes livros da nossa literatura, utilizando os mesmos argumentos sobre racismo ou homofobia, por exemplo, lembro-me da manipulação feita na História, utilizada pelo governo fascista do Big Brother, no livro ‘1984’, no qual funcionários modificavam fatos históricos para favorecer o governo autoritário.
É o que está sendo sutilmente sugerido pelo ‘politicamente correto’: alterar nossa história, esquecer fatos relevantes do passado para forjar um futuro baseado na falsidade.
O Big Brother já está aí, nos observando e manipulando como se fôssemos gado sendo tocado, obedientemente, em direção ao matadouro.
Ao matadouro da nossa inteligência, da nossa razão e do nosso livre-pensamento. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Temos liberdade ou apenas concessões?



Desde priscas eras temos ouvido as pessoas clamarem por ‘liberdade’. E muito já se fez em nome dela: guerras, assassinatos, revoluções. A ‘liberdade’ é colocada como antônimo de autoritarismo, de ditadura. Na época do governo militar, no Brasil, muitas pessoas desapareceram nos porões da ditadura lutando pela liberdade; nos Estados Unidos, o povo americano lutou contra os colonizadores ingleses pela sua liberdade; a Revolução Francesa depôs a monarquia para acabar com sua opressão e obter liberdade; o Aliados enfrentaram a Alemanha de Hitler para evitar o nazismo que oprimiria a liberdade das nações. E, afinal, conseguimos esta tão sonhada e propalada liberdade?
Liberdade, na verdade, é apenas um conceito abstrato e vago. Mesmo nas chamadas ‘democracias’ não existe, verdadeiramente, liberdade. No Brasil, por exemplo, onde supostamente vivemos uma democracia, vemos que não possuímos, de fato, liberdade: somos obrigados a votar; somos obrigados a nos alistar nas Forças Armadas; somos obrigados a lutar pelo país em caso de guerra; somos obrigados a pagar impostos; e por aí vai. Ou seja, somos obrigados a fazer uma porção de coisas que não queremos, e deixar de fazer umas tantas outras que queremos. Na maior parte dos casos, somos obrigados a agir contra a nossa vontade.
Quando votamos, não votamos nos candidatos que achamos serem os melhores para determinados cargos, mas votamos nos candidatos que os Partidos nos oferecem. Não escolhemos quem queremos; escolhemos dentre as opções que nos são oferecidas.
Temos Leis que nos dizem o que podemos ou não podemos fazer. Mantemos a nossa liberdade quando obedecemos a essas leis; quem desobedece, fica privado de sua liberdade.     
Moralmente, existe uma ‘lei’ que nos diz que o limite da nossa liberdade vai até onde começa a liberdade de outra pessoa. Eu só posso fazer algo que não incomode outra pessoa, caso contrário não devo fazê-lo. Posso exercer minha liberdade dentro de determinados limites. Nossa liberdade é cerceada e vigiada – Big Brother em ação (estou falando do famoso livro ‘1984’, de George Orwell, e não daquela imbecilidade exibida pela Rede Globo).
Em tempos idos, permitia-se a realização de duelos. Se uma pessoa matasse outra em um duelo não seria presa por assassinato, já que a vítima havia concordado em participar do referido duelo. Atualmente, duelos são proibidos. Se uma pessoa matar outra em duelo, será presa por assassinato. Mesmo que as duas partes concordem em duelar, o duelo é considerado ilegal.
Ou seja: nossa liberdade é determinada pela sociedade e por suas ideias de momento. A sociedade nos prende a determinadas convenções que devemos seguir, querendo ou não. Daí podemos deduzir que não temos, de fato, liberdade. O que temos são concessões que a sociedade nos dá, permitindo que façamos algo ou não.             
Na verdade, esse tempo todo temos lutado por uma utopia: a utopia da Liberdade! Temos matado e morrido por nada. O povo – a grande massa de gente – foi feita para seguir, e não para ser seguida – daí o grande número de igrejas e religiões que nascem todos os dias; daí o número de ditaduras que pululam pelo mundo. A ‘massa’ faz não o que quer, mas o que a mandam fazer. A televisão nos diz o que comprar, o que vestir, o que assistir e o que fazer, enquanto nos passa a falsa impressão de liberdade, de que fazemos o que queremos.
Mesmo em governos ditos ‘democráticos’, essa democracia é pura ilusão. O governo do povo, na verdade, é o governo de uma minoria que recebe o aval de uma maioria para oprimir esta maioria. E, geralmente, essa minoria age em proveito próprio, sem defender os interesses da maioria que os colocou lá.
O que devemos fazer, então, para alcançarmos a Liberdade?
Não sei. Não escrevi este texto com a pretensão de fornecer respostas, mas de fazer perguntas, de fazer com que as pessoas pensem sobre a questão.
Pelo menos, aqui, cada um terá a liberdade de encontrar suas próprias respostas.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O papel da mulher na educação dos filhos


Na maioria dos países, os cargos de liderança são exercidos por homens. As mulheres reclamam que vivemos em uma sociedade patriarcal e que elas são manietadas e sofrem preconceitos por parte dos homens, opressores. Porém, se refletirmos sobre o assunto, chegaremos à conclusão de que a culpa de ainda termos uma sociedade machista e patriarcal é culpa das mulheres, já que são elas que, verdadeiramente, nos governam.
Quando pequenos, ficamos aos cuidados da mãe, que nos alimenta, nos dá banho, nos põe pra dormir. Mesmo quando estamos um pouco maiores, passamos mais tempo com nossas mães, enquanto nossos pais estão no trabalho ou, no seu tempo livre, estão bebendo cerveja com os amigos. 
Na escola, do 1° ao 5° ano, a maioria dos professores são mulheres – as “tias”, como nos ensinam a chamá-las. Assim como nossas mães e avós, são elas que nos educam nos primeiros anos do nosso aprendizado, quando estamos aguçando a nossa curiosidade para novas descobertas. 
Quando os filhos são adolescentes, já demonstrando sinais incipientes de independência, o pai, em muitos casos, se aproxima mais das filhas, com quem conversa e troca ideias. E, sem perceber, acaba se deixando levar pelo jeito carinhoso e meigo da ‘filhinha’. Geralmente, a filha consegue manipulá-lo a deixá-la fazer quase tudo que ela deseja. 
Os nossos líderes são forjados no seu caráter e na sua integridade pelas suas mães. Poderíamos dizer que são as mulheres que formam os nossos líderes, embora muitos deles acabem se desviando dos ensinamentos que lhes foram passados. Outros se desviam por não terem recebido de suas mães – e também de seus pais – ensinamentos adequados ou suficientes. 
A mulher, mesmo nos dias atuais, ainda mantém a sagrada tarefa de educar os filhos nas suas fases iniciais. Pena que muitas delas (a maioria, infelizmente) não tenham consciência da importância e responsabilidade que lhes cabe. Acham que educar o filho é apenas banhá-lo, alimentá-lo, vesti-lo, dar-lhe uma boa escola. Não percebem que cabe a elas moldar o caráter dos filhos, formando os homens que eles serão no futuro. Valores morais e educação não se adquirem nas escolas nem nas igrejas. Estas instituições apenas reforçam ou expandem o que foi aprendido em casa. O lar é a escola primeira, que nos prepara para a vida ou, pelo menos, nos fornece subsídios para que possamos nos ajustar e nos ajeitar da melhor maneira possível. 
A escola não nos educa, apenas nos ensina. Porém, nos dias corridos de hoje, muitos pais deixam a cargo da escola e da televisão (que nos mostra coisas boas e más, indiscriminadamente) a educação dos filhos, sem se darem conta – ou, o que é pior, recusando-se a se darem conta – de que as bases são lançadas no lar. Sem uma base sólida não podemos construir o edifício da educação. 
Muitos pais dizem não ter tempo para conversar com os filhos, para simplesmente estar com eles. Contudo, esses mesmos pais arranjam tempo para jogar futebol, tomar um chopp com os amigos, para ir ao cabeleireiro ou ficar horas ao telefone fofocando da vida alheia com uma amiga. Há falta de tempo, tempo mal administrado ou simplesmente desinteresse? 
Quando os pais, principalmente as mães, que ainda são as reais administradoras do lar, se conscientizarem de que depende deles a aquisição de valores morais por parte dos filhos, passando-lhes estes valores, principalmente, por meio de exemplos – uma conduta correta, um lar equilibrado e harmonioso – teremos, no futuro, cidadãos comuns e líderes conscientes e honestos, preocupados com o desenvolvimento justo da sociedade, com a diminuição das injustiças sociais, enfim, preocupados em realmente erigir uma sociedade justa por meio de atitudes realmente eficazes, ao invés das palavras vazias que comumente ouvimos dos nossos políticos.
Os pais são responsáveis em transformar esse futuro em realidade, passando para os filhos valores e ideais elevados, iniciando-os no caminho da justiça social. 
Porém, lembremo-nos de que não podemos dar aos outros aquilo que não temos nem para nós mesmos.