terça-feira, 12 de março de 2013

Os textos de informação como elemento formador da nossa literatura


Os assim chamados textos de informação, embora causem muitas controvérsias, são de grande importância para entendermos nossa história e, até mesmo, para o desenvolvimento da literatura que viria a se desenvolver no país. As controvérsias causadas por estes textos vão desde fatos históricos a discussões sobre serem considerados como literatura ou não. Além disso, fomos testemunhas de um fato raro entre os povos: apesar de os habitantes naturais do Brasil – os índios – serem ágrafos, nosso país teve o seu nascimento ligado diretamente ao símbolo escrito.   
Quanto aos fatos históricos, colocam-se dúvidas sobre a autenticidade de algumas passagens, inclusive pelo fato de que textos diferentes referem-se a um mesmo fato de maneira diversa. Na carta de Pero Vaz de Caminha, por exemplo, é narrado que dois degredados ficaram em terra, por ordem de Cabral, e que dois grumetes resolveram ficar naquela terra, quando da partida das naus, por vontade própria. Na carta do Piloto Anônimo – que muitos questionam ser de fato um piloto –, nada é dito quanto aos dois grumetes. Quanto aos degredados que aqui ficaram, é narrado que ambos tiveram que ser confortados pelos próprios índios, já que choravam desconsolados. Caminha não se refere a esse fato, dando-nos a entender que os degredados aceitaram a ordem sem nenhum questionamento. Em contrapartida, ambos os relatos concordam sobre a inocência dos nativos em relação a sua nudez. Eles não demonstram nenhuma vergonha em se mostrarem nus àqueles estrangeiros. Nem mesmo as mulheres demonstram qualquer tipo de pudor. E o interessante de se notar é que, embora venham de uma cultura onde a nudez é vista como algo vergonhoso, inconcebível, não se nota nos relatos que os exploradores sentiram-se incomodados com a nudez dos índios. Mostraram-se surpresos com a naturalidade e a inocência com a qual os nativos exibiam sua nudez, mas em nenhum momento pareceram incomodados ou chocados. Em contato com algo que, para os índios, era natural, passaram a encarar esse fato como natural também, embora para a sua cultura não o fosse.    
Lendo os textos desse período, podemos depreender dois pontos básicos: a preocupação dos cronistas em descrever a nova terra a ser conquistada, seus frutos, seus animais, seus rios e sua gente, de um lado; o assombro resultante da visão de um mundo diferente do que já haviam visto, de outro. A descrição da terra tem um propósito bem específico: fornecer elementos a El-Rei para que este pudesse decidir sobre um possível processo de colonização da nova terra, sobre as possibilidades que esta terra oferecia como fonte de riquezas para a Coroa. A descrição dos índios, sua inocência e amabilidade, bem como o conhecimento que possuíam da terra e a sua total integração com a natureza, pode servir como uma indicação de que aquele povo poderia ser utilizado como mão-de-obra, sem muitas dificuldades e sem ônus para a Coroa.
A descrição da floresta, dos animais, das flores, dos frutos demonstra, além de uma fonte de informações das possibilidades que aquela terra oferecia, devido às novidades que possuía em abundância, o assombro do europeu diante de um mundo novo, desconhecido, que impressiona pelo tamanho e exuberância, pelos mistérios que aquela imensa muralha verde pode ocultar em suas entranhas. Temos aí a admiração pela grandiosidade, o medo dos perigos ocultos, o respeito pelo desconhecido, a excitação pelas possibilidades, elementos do Sublime, um conceito explorado por Burke, no século XVIII, e utilizado soberbamente por Joseph Conrad em sua obra “O coração das trevas”, o qual pode ser demonstrado nesta passagem do livro: “O lugar parecia extraterreno. Estávamos habituado a vê-lo sob a forma de um monstro agrilhoado e domado, mas ali – o que víamos ali era uma coisa monstruosa e livre”. E esta parece ser a impressão que os cronistas têm da nova terra: um lugar selvagem, indomado, poderoso. Diferente de tudo o que eles já haviam visto em suas viagens e explorações. O desconhecido, ali, se fazia presente de uma maneira inteiramente nova para os exploradores. E esse devia ser o sentimento dos índios em relação aos homens brancos: a suntuosidade e curiosidade de suas vestes, as naus imensas, as armas e enfeites desconhecidos dos nativos. Um assombramento mútuo a dominar cada cultura. 
O Sublime, embora à época ainda não estivesse estruturado como conceito, marcaria o encontro do homem branco europeu com o índio nativo da nova terra. Longe de ser um encontro de intenções puramente mercantilista, o convívio do europeu com o índio teve implicações outras que influenciou a formação da própria terra recém-descoberta. Tanto que podemos observar em documentos e escritos dos jesuítas uma espécie de crítica aos costumes adotados pelos europeus radicados na nova terra, os quais pareceram amalgamar comportamentos europeus – tidos como ‘civilizados’ – com comportamentos demonstrados pelos índios – os chamados ‘selvagens’, povos sem ‘cultura’. Os colonos radicados no Brasil passaram a ter relações com as índias – e, posteriormente, com as negras –, praticaram a poligamia etc. A própria terra, com seus novos produtos sendo exportados para a Europa, modificou hábitos alimentares e comportamentais.   
Temos, aí, o reconhecimento da figura do ‘outro’. O índio, que teve a cultura do homem branco sendo-lhe impingida aos poucos, perdendo pouco a pouco sua própria identidade; e o homem branco, que teve que adaptar seus hábitos para as necessidades impostas por aquela nova terra onde sua cultura não tinha ainda conseguido se impor. A colônia, sendo explorada para lucro do europeu; e a metrópole, tendo que lidar com a nova terra que tinha em seu poder.  
Além disso, o europeu teve a sua cultura, considerada civilizada e superior, confrontada com os povos tidos como selvagens, tidos como uma cultura inferior ou, até mesmo, como povos sem cultura. Contudo, alguns estudiosos perceberam traços de civilidade que não eram encontrados mesmo em culturas européias. Além disso, alguns costumes considerados bárbaros pelos europeus, encontraram equivalentes em sua própria cultura. Enquanto condenavam alguns atos de ‘selvageria’ dos índios, perceberam os mesmos elementos utilizados, por exemplo, na Santa Inquisição.     
Quanto ao fato de serem considerados literatura ou não, os textos de informação ainda suscitam debates. É comum vermos esses textos inseridos, em livros sobre literatura, em um período conhecido como Quinhentismo, assim como temos o período conhecido como Seiscentismo ou Barroco. Muitos questionam o fato de esses textos de informação serem considerados como literatura, por diversos fatores: eram documentos – muitos oficiais, como a carta de Caminha – sobre as explorações que vários povos fizeram com o objetivo de conquistar novas terras para suas respectivas coroas; limitavam-se a descrever elementos da nova terra, tais como os índios, a floresta, os rios etc.; seus autores eram escrivães, pilotos, historiadores etc., estudiosos aparentemente sem pretensões literárias; seus autores eram europeus, e não nativos da nova terra. Contudo, se observarmos atentamente alguns documentos, veremos que determinadas partes não se limitam apenas a narrar fatos e descrever a geografia do local. Um documento estritamente oficial seria isento de linguagem poética, de senso de humor e de trocadilhos maliciosos. Caminha, talvez até mesmo inconscientemente, deu um certo tom “literário” à sua Carta, talvez inspirado pela grandiosidade do quadro que o cercava. Além disso, a admiração e o deslumbramento de alguns trechos das diversas crônicas escritas sobre o Brasil dão-lhes determinados elementos encontrados apenas em obras consideradas como sendo literatura. Além disso, as descrições que foram feitas sobre os índios serviram, mais tarde, de inspiração para o Romantismo, que tinha como uma de suas características o nacionalismo. Em oposição à literatura européia, onde os heróis nacionais são valentes cavaleiros medievais, na literatura brasileira temos a figura do índio como sendo o herói nacional. Além disso, temos toda a exuberância da natureza, que os românticos ora apresentam como pertencente à pátria, ora apresentam como uma espécie de refúgio à vida atribulada dos grandes centros urbanos de então. Temos em José de Alencar um dos autores que recuperou o elemento indígena, transformando-o em herói de seus romances: O Guarani, Iracema e Ubirajara. Esses livros apresentam o índio em três momentos distintos: em Ubirajara, a ação se passa em um período pré-cabralino, apresentando o índio em seu estado mais puro, uma espécie de índio original; em Iracema, temos o contato do índio, representado pela personagem-título, com o europeu, mostrando o que seria a origem do povo que seria chamado de ‘brasileiro’; e em O Guarani, o índio ‘europeizado’, fruto do contato com os colonizadores, principalmente com os jesuítas. Para a composição de O Guarani, Alencar pesquisou diversos documentos do período quinhentista. Posteriormente, temos em Mário de Andrade e o seu Macunaíma, já no período Modernista, uma retomada do elemento indígena como tema literário. Macunaíma é um anti-herói, índio que nasce preto e vira branco, representado a própria mistura racial que determinou o povo brasileiro, fruto dos cruzamentos entre índios, negros e brancos. Em ambos os casos – em Alencar e em Andrade –, temos uma espécie de volta às origens, um mergulho no período quinhentista como uma forma de resgatar a figura do índio, o verdadeiro índio, e uma busca por uma identidade nacional. 
Contudo, é inegável a influência da literatura portuguesa, em particular, e da européia, em geral, na formação da nossa própria literatura, já que esta era a única literatura que conhecíamos e que, portanto, era a única que poderia nos influenciar. Perguntado se outros escritores influenciaram seus escritos, Milton Hatoum respondeu que todo escritor é, antes de tudo, um leitor, portanto, não há como escapar a influências externas. O mesmo ocorreu com nossa literatura. A busca de uma literatura brasileira é, antes de tudo, a busca pelos elementos formadores de nossa terra, as influências que recebemos dos vários povos que aqui aportaram. E, mesmo em menor grau, essa sempre foi uma via de mão dupla.
Em um mundo que começou a se globalizar a partir das longas viagens marítimas e do comércio entre países, a figura do outro começou a se fazer cada vez mais presente.  

sábado, 2 de março de 2013

Camões e Bocage: mitos e fatos confundindo vida e obra dos dois poetas



Bocage é um dos mais importantes poetas de Portugal, formando com Luís Vaz de Camões e Antero de Quental a Santíssima Trindade da poesia lusitana. Se incluirmos Fernando Pessoa, seriam o Quarteto Fantástico da poesia portuguesa. Inclusive, não raro nos deparamos com comparações entre Bocage e Camões, tanto pela importância de ambos na literatura portuguesa quanto por semelhanças entre a vida dos dois poetas. Muitos dos acontecimentos da vida de Bocage guardam semelhanças com situações que ocorreram com Camões. Porém, é necessária alguma cautela ao examinarmos esses acontecimentos, já que na vida dos dois poetas fatos biográficos e mito não raro se confundem.  
Bocage é um confesso admirador de Camões, com quem se compara nas desventuras da vida, mas reconhece-se um poeta “inferior” ao mestre, conforme se pode observar nas estrofes abaixo:

Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa no fez perdendo o Tejo
Arrostar co sacrílego gigante:
[...]
Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.

Bocage parecia perseguir, de forma consciente, essas semelhanças, levando-nos a considerar que muitas das situações foram planejadas pelo próprio Bocage para que se parecessem com fatos ocorridos com Camões. Alguns fatos estão registrados, enquanto outros são de procedência duvidosa, talvez uma invenção do próprio Bocage para fazer com que sua vida se assemelhasse a de seu mestre. Como todo bom poeta, Bocage era um fingidor, conforme nos diz Fernando Pessoa.
Além das semelhanças entre a vida dos dois poetas – ambos foram soldados, viajaram por países do Oriente, morreram praticamente na miséria –, também apresentaram semelhanças no campo literário. Um exemplo é o nome que Bocage deu à sua obra, publicada ainda em vida, a qual tem o mesmo nome de uma obra de Camões, publicada postumamente: Rimas. A obra de Camões foi publicada em cinco volumes, enquanto a de Bocage foi publicada em três; enquanto Camões retratou, em Os Lusíadas, as glórias da história de Portugal, desde sua formação como nação até a época das Grandes Navegações, Bocage retratou as mudanças pelas quais passavam Portugal e o resto da Europa; se em Os Lusíadas Camões tratou do episódio da morte de Inês de Castro, Bocage também não se mostrou indiferente a esse episódio, escrevendo À Morte de Inês de Castro, que ele inicia com dois versos retirados do Canto III, Instância 135, do próprio Os Lusíadas; ambos fizeram referência aos deuses da mitologia grega – Camões utilizando-os conforme exigia o modelo do épico; Bocage seguindo, inicialmente, o modelo utilizado pelo Arcadismo, o qual ressuscitou o modelo clássico.
Um outro paralelo, citado pelos críticos e estudiosos de literatura, refere-se ao uso dos sonetos como forma de expressão. Tanto Camões quanto Bocage utilizaram-se dessa forma para compor alguns de seus melhores poemas, utilizando-se do formalismo do soneto para realizar a expressão, de forma condensada, dos estados emocionais.
Além disso, Bocage, sempre que pôde, utilizou-se de paralelismos com Os Lusíadas em seus poemas. Um exemplo é o Canto e soneto ao Capitão Lunardi, onde Bocage utiliza-se da comparação do citado Capitão Lunardi com personagens mitológicos, tais como Ícaro e Prometeu, além de personagens históricos de Portugal, como Magalhães e Vasco da Gama, ambos presentes em Os Lusíadas. Além disso, no mesmo poema Bocage contrapõe a “escuridade” e a luz, com aquela representando aqueles que iam contra o progresso, e esta representando os homens ilustrados, os sábios representantes da ciência. Os “ilustrados varões” são aqueles que defendem o progresso, numa clara referência ao início de Os Lusíadas (“As armas e os barões assinalados”). Camões retratou os marinheiros portugueses, homens audazes que se lançaram ao mar em busca de novas terras, como sendo os homens que trariam o progresso a Portugal e, no mesmo Os Lusíadas, o Velho do Restelo como símbolo da precaução e do conservadorismo.
Ou seja, guardadas as devidas proporções, e sem diminuir o mérito de Bocage nas letras portuguesas, é inegável que ele teve Camões como modelo, e procurou moldar a sua vida de acordo com a do seu mestre, procurando imitá-lo nos transes da vida bem como na estética literária.   

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O menor que será apresentado como o autor do disparo do sinalizador seria apenas um “laranja”?



O caso ocorrido na Bolívia, durante o jogo entre Corinthians e San Jose, durante o qual morreu o menino Kevin Espada, de apenas 14 anos, ainda não chegou a um desfecho. Várias situações foram levantadas a partir do lamentável incidente. Cogitou-se, até mesmo, a exclusão do Corinthians da Copa Libertadores. A Conmebol, a princípio, puniu o clube paulista obrigando-o a realizar os próximos jogos da 1ª fase da Libertadores com os portões fechados, o que gerou protestos por parte da torcida corintiana que tem ameaçado, inclusive, reunir-se na frente do estádio e tentar, eventualmente, forçar sua entrada.
Em uma tentativa de amenizar a situação, iniciou-se um acordo com o objetivo de a torcida corintiana apresentar o responsável pelo incidente. A notícia, agora, é de que um menor, de 17 anos, será apresentado, nessa semana, como sendo o autor do disparo do sinalizador. Vale levantar algumas questões sobre essa situação.
Em primeiro lugar, as torcidas organizadas possuem um “código” que impede que qualquer membro da torcida organizada “dedure” um membro que tenha cometido um crime. No caso atual, esse “código” foi desconsiderado e a torcida irá apresentar o infrator. Por que abrir mão desse “código” nessa situação?
O segundo ponto é o que levanta mais suspeitas: o fato de o infrator ser menor de idade.
Segundo as leis brasileiras, um cidadão brasileiro não pode ser extraditado para um país onde tenha cometido um crime. Para responder o processo na Bolívia, o infrator teria que ter sido preso no país, antes que pudesse voltar ao Brasil. Como o infrator voltou para o Brasil, não poderá ser extraditado.
Outro ponto é a questão da idade do infrator. Caso ele tivesse 18 anos, poderia ser processado criminalmente e cumprir pena por homicídio (que pode ser doloso ou culposo, dependendo do rumo das investigações). Por ter 17 anos, o infrator é considerado menor de idade, pelas nossas leis, não podendo, portanto, responder processo por homicídio. O que pode acontecer ao menor, caso seja realmente considerado culpado, é que ele seja recolhido à Fundação Casa (antiga FEBEM) e ficar detido durante 3 anos, no máximo, saindo antes dos 21 anos. Caso fosse maior de idade, poderia pegar pena de 12 anos ou mais. Ou seja, com a apresentação de um menor, a pena será bem menor do que se o infrator fosse maior de idade.
Assim, faço uma pergunta: será que o menor não é apenas um “laranja”, apresentado com o objetivo de proteger o verdadeiro assassino do torcedor boliviano?
No programa Bate-Bola, do canal ESPN Brasil, deste domingo, foi veiculada a informação de que o advogado do menor afirmou poder “provar” que ele foi o responsável pelo disparo que vitimou o torcedor boliviano. Não é um pouco estranho que um advogado queira “provar” que o seu cliente é realmente culpado? Geralmente, a função do advogado é provar que seu cliente é inocente, mesmo que ele não seja, exceto quando a confissão do crime resulte em algum benefício para o infrator. Nesse caso, o benefício poderia ser para o verdadeiro culpado, provavelmente maior de idade. De outra forma, por que a torcida Gaviões da Fiel está tão interessada em apresentar o “autor” do disparo, quando o seu “código” sugere que seja feito exatamente o oposto?
Isso levanta outro ponto: até quando um menor de idade, no Brasil, continuará sendo considerado “incapaz” de responder pelos seus crimes, crimes, muitas vezes, cometido com premeditação? Quando a Lei brasileira irá perceber que os menores dos tempos atuais, com Internet e outros recursos de informação, não são mais os ‘inocentes’ que eram nas décadas de 40 e 50?
Muitos criminosos, atualmente, utilizam-se de menores de idade para realizar seus crimes, sabendo que, com isso, os autores ficarão impunes. Será que se a Lei fosse diferente esse “menor” se apresentaria como sendo o autor do disparo?   
Está mais do que na hora de revermos as nossas Leis sobre esta questão.                

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O que há por trás da “porta-voz da liberdade”, Yoani Sánchez?

A ativista cubana, Yoani Sánchez, chegou ao Brasil com ares de pop star. Realizará uma turnê por algumas cidades, participando de debates, entrevistas etc., aclamada como uma espécie de “porta-voz” da liberdade. Nem mesmo o Dalai Lama, quando visita algum país levando uma mensagem de liberdade para o Tibet, invadido pela China na década de 50, recebe tantas atenções. Por que toda essa celeuma em torno da ativista cubana? Algumas questões se fazem necessárias para tentarmos entender o porquê de Yoani Sánchez receber tanta atenção da mídia.
Em primeiro lugar, por que os Estados Unidos lhe dão o seu mais completo apoio, quando existem países na África e Ásia que também sofrem com ditaduras, por vezes mais cruéis do que a que se diz ser praticada em Cuba, e são completamente ignoradas pelo Tio Sam? Será porque são países pobres e que, pela sua distância dos Estados Unidos, não são considerados como áreas de interesse militar? E o Tibet? Por que os Estados Unidos não apoiam tão abertamente ativistas políticos chineses e tibetanos, que criticam as atrocidades praticadas sob o regime chinês?
Além desse, outros pontos devem ser analisados. 
Uma questão importante é: quem está financiando as viagens de Yoani Sánchez? Ela tem viajado por vários países, conhecendo inúmeras cidades. Quem paga suas despesas? E, o mais importante, com que propósito? 
Outro detalhe interessante. O blog criado por Yoani Sánchez, o “Generación Y”, vem recebendo uma atenção bastante incomum, que nem mesmo blogs de jornalistas e escritores renomados recebem, inclusive o ‘Prêmio de Jornalismo Ortega e Gasset’, di jornal espanhol “El País”, geralmente outorgado a jornalistas e escritores que possuam uma sólida e reconhecida carreira em sua área. Juntamente com esse prêmio, Yoani Sánchez embolsou 15 mil euros. O blog de Yoani Sánchez vem recebendo destaque de outras fontes, tais como a rede de televisão CNN, além de vários outros prêmios, inclusive em dinheiro. Isso tudo em apenas um ano de existência.
As postagens do “Generación Y” possuem traduções para vários idiomas, tais como inglês, francês, espanhol, italiano, além de chinês, japonês e húngaro. No total, suas postagens são traduzidas em mais de quinze idiomas. A menos que Yoani Sánchez tenha um fenomenal dom para as línguas, ela teria que possuir uma equipe para realizar as traduções de suas postagens. Se for o caso, quem manteria essa equipe, com todo o custo que ela representaria? Vale lembrar que nem mesmo sites de grandes empresas privadas ou de órgãos do governo traduzem seus conteúdos para tantos idiomas diferentes.
Algumas das afirmações de Yoani Sánchez são contraditórias. Por exemplo, ela afirma que os cubanos não têm acesso à Internet. Se é assim, como ela consegue ter um blog que traduz suas postagens para mais de quinze idiomas, além de seguir e ter milhares de seguidores no Twitter? Como ela consegue utilizar um sistema de pagamento  on-line em um país cujas sanções econômicas proíbem o comércio eletrônico?
O “fenômeno” Yoani Sánchez é algo que temos que analisar com cuidado. Após ela ter chegado ao Brasil, já vi em redes sociais pessoas apoiando a ‘causa’ da ‘ativista’ de maneira irrestrita. Essas pessoas, simplesmente, abraçam o que o “Jornal Nacional” lhes diz para abraçar, sem analisar as implicações políticas que estão por trás dessa “defesa pela liberdade”. 
Devemos lembrar que os Estados Unidos que apoiam a causa de Yoani Sánchez contra a ditadura cubana, são os mesmos Estados Unidos que ajudaram a implantar ditaduras por toda a América do Sul e América Central nos anos 70 e 80, além de apoiar regimes de extrema-direita em vários países da Ásia e da África. Os Estados Unidos não se preocupam com a liberdade dos outros. Suas ações são baseadas puramente em objetivos econômicos, militares e políticos que lhes favoreçam.
Ninguém se torna uma potência econômica mundial praticando a caridade.  

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O retorno das histórias de cavalaria e a modernidade



Ultimamente, temos visto um retorno a um tipo de história que andava meio esquecida, desde as sagas sobre a lenda do Rei Arthur: as histórias de cavalaria, situadas em mundos que lembram a nossa Idade Média.
Na década de 80, tivemos “As brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley, que tratava a lenda do Rei Arthur sob um ponto de vista feminino. Desde então, não tivemos nada de grande relevância na literatura, até a redescoberta de uma obra que andava meio esquecida no restante do mundo e que, no Brasil, era quase desconhecida: “O Senhor dos Anéis”.
Com o sucesso de “O Senhor dos Anéis”, várias histórias começaram a surgir na literatura mundial. Novas edições de “D. Quixote” foram publicadas, além de presenciarmos o surgimento de obras modernas como “Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R. R. Martin, “Rangers – Ordem dos Arqueiros”, de John Flanagan, e “Crônicas de Nárnia”, de C. S. Lewis. Na televisão, temos visto o ressurgimento do tema em séries como “Merlin”, além de vários filmes e seriados sobre dragões.
Em uma época marcada pela profusão de novidades tecnológicas, temos presenciado um retorno a temas antigos e tradicionais, com os quais a nossa pretensa modernidade pretendia romper. É a famosa ruptura da tradição ou tradição da ruptura, conceito tão bem desenvolvido por Otávio Paz.
Histórias de bruxas – ou bruxos, como é o caso de Harry Potter – e releituras de contos infantis – como são os casos de filmes como “João e Maria”, vários sobre Branca de Neve, além de uma série intitulada “Once upon a time”, uma miscelânea de contos infantis – têm preenchido a nossa televisão, cinema e literatura. Isso sem contar a enxurrada de filmes e livros sobre vampiros e lobisomens. O antigo e o tradicional estão reencontrando seu espaço na nossa modernidade.
O mundo antigo seria mais fácil de suportar do que a nossa caótica modernidade? Seria mais fácil viver em um mundo onde a justiça era feita na ponta da espada e julgamentos eram realizados por combate? Seria isso mais fácil do que as nossas várias leis corrompidas para uso pessoal dos poderosos? Afinal, somos assim tão diferentes das pessoas daquela época?
Na Idade Média, os reis e senhores detinham poder de vida e morte sobre seus súditos. As leis eram feitas de acordo com a vontade real e eram quebradas sem a menor cerimônia, sem que o povo pudesse questionar. Hoje em dia, isso mudou – diriam alguns. Mas, será que mudou mesmo?
O povo pode reclamar, mas até que ponto essas reclamações têm validade? No Brasil, vemos, todos os dias, o povo reclamando dos abusos do Congresso, onde deputados e senadores criam leis que os beneficiam, aumentam seus próprios salários e presenteiam a si mesmos com imunidades. Professores e médicos, por exemplo, ganham uma miséria, enquanto nossos políticos ganham fortunas e nem se dignam a comparecer ao Congresso para honrar seus vultosos salários.
Ou seja, os poderosos continuam cada vez mais poderosos, enquanto o povo continua sendo o camponês ignorante, temente ao seu suserano. Somos nós que elegemos os nossos governantes, mas os tratamos com um temor quase reverente, quando deveriam ser eles a nos agradecer por ocuparem os cargos que ocupam.
“Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, diria Belchior. Ainda vivemos como na Idade Média: os pequenos com medo dos poderosos; os poderosos agindo de forma autoritária e arbitrária, sem serem punidos; o camponês que produz passando fome, enquanto os poderosos jogam comida no lixo; os filhos dos poderosos estudando nos Estados Unidos ou Europa, enquanto a maioria do nosso povo permanece na ignorância. Na Idade Média, os filhos dos camponeses não tinham permissão para estudar; os filhos dos nossos camponeses estudam, mas recebem uma educação que só se preocupa com índices para agradar ao FMI, mas que mantém nossos alunos na ignorância. Vemos alunos saindo do Ensino Médio quase sem saber ler ou escrever de uma forma minimamente aceitável. E isso não ocorre apenas no Brasil.
Será que essa onda de histórias de cavalaria não é um reflexo inconsciente do que acontece em nossa época? Um alerta inconsciente para mostrar que a tão apregoada modernidade na verdade não ocorreu?
Nossa política é uma verdadeira Guerra dos Tronos. O mundo está cheio de Cerceis, Jaimes e Tyrions Lannisters. E, o que é pior: Saurons, também.     

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A tensão entre oralidade e escrita em “Grande sertão: veredas”



A obra de João Guimarães Rosa nos permite efetuar várias leituras diferentes sobre os mais diversos temas, o que faz com que sua obra seja uma das mais ricas da literatura brasileira e, até mesmo, da literatura mundial. Guimarães Rosa nos apresenta um sertão rico em descrições tanto físicas quanto linguísticas. Rosa era um pesquisador do sertão, o que faz com que sua obra seja rica em detalhes. Nesse aspecto, seu trabalho se aproxima de “Os sertões”, de Euclides da Cunha, embora não possua o tratamento técnico, científico deste.
A preocupação com a linguagem é uma das marcas da obra de Rosa. Ele faz uso de um falar sertanejo, bem como de uma linguagem mais refinada, ambas as linguagens presentes no sertão, ao mesmo tempo separando e unindo os personagens. A linguagem do sertão se faz presente no mundo, e a linguagem do mundo se faz presente no sertão. Para o próprio Guimarães Rosa, o sertão é o mundo. Conforme as palavras do personagem-narrador Riobaldo, em “Grande sertão: veredas”, “o sertão está em toda a parte”.
Muitos teóricos afirmam que Guimarães Rosa faz uso de diversos neologismos nos seus textos, inventando, ele mesmo, muitas das expressões utilizadas no livro. No entanto, uma observação mais atenta nos mostra que, em muitos casos, Guimarães Rosa faz uso de estrangeirismos (é o caso de esmarte, do inglês smart, e joliz, do francês joli mais a palavra portuguesa feliz) e de arcaísmos (é o caso de vuvú vavavá, que constam do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa). Muitas expressões usadas nos seus textos são palavras dicionarizadas que, por um motivo qualquer, deixaram de ser utilizadas e que já eram consideradas arcaísmos na época em que sua obra foi escrita.
Guimarães Rosa foi tachado tanto de reacionário (por se utilizar de arcaísmos) quanto de revolucionário (por se utilizar de neologismos e de estrangeirismos). O termo “reacionário” é usado, geralmente, de uma forma pejorativa. Entretanto, se considerarmos que, ao utilizar uma palavra já esquecida, portanto, desconhecida para a maioria, senão para a totalidade, dos leitores, revivendo-a, isso teria o mesmo efeito que a criação de uma palavra nova (já que, para os leitores, essa palavra seria, efetivamente, “nova”). Assim, ele estaria sendo mais revolucionário do que reacionário.
Porém, o que se observa é que, mais do que trabalhar a linguagem, “Grande sertão: veredas”, talvez mais do que qualquer outra obra de Guimarães Rosa, ressalta o conflito entre a tradição oral e a escrita. Além dos diversos ‘causos’ contados pelo personagem-narrador, Riobaldo, que são uma característica da história transmitida de forma oral no sertão, há também a própria estrutura narrativa utilizada pelo autor: o monólogo. O texto se inicia pela fala de Riobaldo, dispensando a presença de um narrador que normalmente situaria a história, o local e os personagens. Enquanto n’Os sertões, de Euclides, temos um capítulo destinado a descrever a terra e outro a descrever o homem, antes de narrar a luta, que é o objetivo do livro, em Rosa vamos conhecendo um e outro – terra e homem – à medida em que a narrativa de Riobaldo avança.
Rosa também nos faz acreditar na presença de um interlocutor que estabelece um diálogo – outra característica da oralidade – com Riobaldo, um interlocutor cuja presença, contudo, está comprometida pela própria fala de Riobaldo. O interlocutor de Riobaldo não é passivo – ele “participa” da narrativa fazendo perguntas e pequenas interrupções –, contudo, essa não-passividade só se dá através do próprio Riobaldo, o qual monopoliza toda a narração – o que é uma característica de um texto escrito. Os personagens falam pela boca de Riobaldo. Temos, nesse caso, uma ambiguidade onde um texto escrito encena uma situação falada e onde a oralidade simula um texto escrito. A escolha de uma narrativa que simula a oralidade revela-nos uma simulação do próprio ambiente do sertão, repleto de personagens rústicos, refratários a mudanças.
Longe de se limitar, entretanto, à ambiguidade entre oralidade e escrita, Rosa estende essa dicotomia para a própria situação do sertão: um ambiente de tensão constante entre os senhores proprietários de terras e o povo, ou seja, a língua escrita como forma de opressão em contraste com a liberdade que se permite a oralidade. O próprio diálogo de Riobaldo com o interlocutor não-nomeado já representa uma ambiguidade, um conflito: o interlocutor demonstra ser um homem culto e cosmopolita, enquanto Riobaldo, atualmente um fazendeiro, já foi jagunço no passado.             
A figura do interlocutor não-nomeado, homem letrado, o qual aparentemente questiona Riobaldo sobre as coisas do sertão, sugere alguém que não pertence àquele meio, embora possua grande interesse nele. Sugere a pessoa de um pesquisador mais do que a de um simples curioso. Esse perfil do interlocutor se encaixa perfeitamente no perfil do próprio Guimarães Rosa, o qual viajava pelo sertão conversando com as pessoas, coletando “causos”, observando a paisagem e a linguagem. Encarando a situação por este ângulo, temos mais uma ambiguidade que permeia o texto. Se considerarmos Rosa como sendo o interlocutor, o narrador passaria a ser esse mesmo interlocutor e, portanto, o texto readquiriria o seu caráter de linguagem escrita; caso contrário, teremos a figura de Riobaldo como narrador e, portanto, voltamos à linguagem oral. Ou seja, de maneira sub-reptícia, Rosa figura a tensão, no controle da narrativa, entre oralidade – Riobaldo, o sertão – e escrita – o interlocutor cosmopolita, o urbano.
Oralidade e escrita, sertão e litoral, proprietários de terras e povo, Deus e Diabo! A própria palavra ‘veredas’, do título, expressa essa dualidade: de acordo com o dicionário Aurélio, vereda, na linguagem do nordeste brasileiro, significa “região mais abundante em água na zona da caatinga, entre as montanhas e os vales dos rios, e onde a vegetação é um misto de agreste e caatinga”.  Vereda também significa “caminho estreito, senda”, em contraste com o “grande sertão”.
A linguagem pode ser tão vasta quanto o sertão, mas também pode ser tão limitadora e estreita quanto uma vereda!  

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A construção do mito em “O senhor dos anéis” e “Crônicas de gelo e fogo”


O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, e Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, são duas das maiores sagas já escritas em tempos modernos. “O senhor dos anéis” foi dividido em três livros: “A Sociedade do Anel”, “As Duas Torres” e “O Retorno do Rei”. Se quisermos, podemos incluir “O Hobbit”, como sendo o primeiro livro da série, formando uma quadrilogia. Já “Crônicas de gelo e fogo”, segundo se diz, é uma saga composta por sete livros, dos quais cinco já foram publicados: “A Guerra dos Tronos”, “A Fúria dos Reis”, “A Tormenta de Espadas”, “O Festim dos Corvos” e “A Dança dos Dragões”. O sexto volume, a ser publicado, será “Os ventos do inverno”.
Ambas as sagas possuem semelhanças e diferenças. Entre as semelhanças podemos citar as cenas de batalhas, magia, monstros, seres mitológicos e um mundo que se parece com a nossa Terra em sua época medieval, com reis, príncipes e princesas, castelos etc.
Entre as diferenças, podemos citar a construção das personagens e o próprio foco da história. Enquanto em “O senhor dos anéis” o foco encontra-se no Um Anel – enquanto uns o querem para utilizá-lo em proveito próprio, outros querem vê-lo destruído –, em “Crônicas de gelo e fogo” o foco concentra-se na luta pelo Trono de Ferro e todas as disputas pelo Poder que isso acarreta, além da chegada iminente dos temíveis Outros, que se levantam com o frio – ou que trazem o frio quando se levantam?
Em relação aos personagens, enquanto “O senhor dos anéis” segue uma linha maniqueísta – os bons são extremamente bons e os maus são extremamente maus –, “Crônicas de gelo e fogo” fugiu dessa linha, tornando os personagens mais humanos e mais identificáveis com os seus leitores. Os selvagens do Norte, apesar do nome, demonstram certas emoções, como é o caso de Ygritte por Jon Snow, defendendo-o inúmeras vezes enquanto os demais selvagens o acusavam de ser um traidor. Já Jon Snow, que deveria ser um dos ‘mocinhos’ da história, juntou-se aos selvagens apenas para traí-los depois, o que custou a morte da selvagem Ygritte, por quem ele se afeiçoara. Mesmo personagens que começaram a história como vilões, como é o caso de Jaime e Tyrion Lannister e o Cão de Caça, por exemplo, demonstraram uma certa ‘humanidade’ em determinados momentos: Cão de Caça salva Sansa quando a comitiva do Rei Joffrey é atacada e várias pessoas são mortas; Jaime Lannister, o Regicida, volta para salvar Brienne de Tarth; Tyrion preocupa-se em evitar que a prostituta Shae seja morta, sendo traído por ela, depois. Em contrapartida, a jovem e sonhadora Sansa Stark, que a princípio é uma das ‘mocinhas’, mente em favor de Joffrey, contra a irmã Arya, apenas para não ver o seu sonho de casar com o “galante cavalheiro” ser destruído. Por conta dessa mentira, sua loba gigante Lady acaba sendo morta, bem como o filho do açougueiro que brincava com Arya, Mycah. A ‘mocinha’, no fim das contas, acabou agindo como a maioria dos mortais comuns: de forma egoísta.
Em “O senhor dos anéis”, a luta não é pelo Poder, e sim a velha luta do Bem contra o Mal. Os membros da Sociedade do Anel – Gandalf, Aragorn, Frodo, Gimli, Legolas etc. – não buscam glórias pessoais nem o controle de terras ou o governo de reinos. Querem apenas acabar com o mal provocado por Sauron e seus orcs, eliminando a ameaça que paira sobre a Terra Média. Frodo, ao aceitar o encargo de destruir o Um Anel, não pensa em dominar o Condado, após sua volta. Altruisticamente, pensa apenas em evitar que Condado seja afetado pelo mal proveniente de Sauron.
Já em “Crônicas de gelo e fogo”, todos querem uma fatia do bolo do Poder. Quando um grande senhor se junta a um dos reis, o faz pretendendo obter terras e títulos após a vitória do rei que apoia. Caso esse rei seja derrotado, esse mesmo senhor não hesita em dobrar o joelho e jurar fidelidade ao rei vencedor, esperando, pelo menos, ser poupado de uma execução.
Enquanto Tolkien, criado dentro do catolicismo, utilizou vários elementos do cristianismo em sua história – Gandalf, o Cinzento, morre, ressuscita e volta como Gandalf, o Branco (numa alusão à morte e ressureição de Jesus); Sauron perde seu corpo físico, mas continua a existir em uma forma espiritual, espalhando o mal pela Terra Média (numa alusão ao Demônio bíblico); os seres malignos são criaturas que vivem na escuridão e no fogo e possuem formas horrendas, enquanto os seres bons têm uma aparência angelical, como os elfos –, Martin resolveu centrar a história em uma época parecida com a Idade Média, quando reis lutavam por riquezas e territórios, visando ampliar o seu poder, lembrando-nos de que isso perdura até hoje. Ambas as sagas são riquíssimas, atuais e deveriam ser lidas por todos aqueles que tentam compreender o mundo no qual vivemos. Enquanto “Crônicas de Gelo e Fogo” mostra a luta pelo Poder – riquezas e territórios, coisa que acontece desde que o homem passou a viver em comunidades –, “O Senhor dos Anéis” aborda, de maneira não muito evidente, os prejuízos causados pela industrialização exagerada que vemos ocorrer desde a Revolução Industrial (para maiores detalhes, leia “A simbologia de “O senhor dos anéis”: Frodo e o conflito com a modernidade”, neste mesmo blog).

sábado, 26 de janeiro de 2013

Imbecilidade em ‘horário nobre’



Todo início de ano vemos a reedição de uma das maiores imbecilidades já apresentadas na televisão brasileira: o famigerado “Big Brother Brasil”. E, o que é pior, vemos as pessoas preocupadas com quem irá ganhar o prêmio ou apreensivas diante de mais um paredão, como se isso fosse algo de importância vital para a continuação de suas vidas. Mesmo quem não perde seu tempo assistindo a uma imbecilidade destas, não tem como deixar de conhecer alguns detalhes, seja por intermédio dos comentários das pessoas – na rua, no trabalho etc. –, seja por flashes durante a programação da TV Globo.
Verdade seja dita: o programa é uma verdadeira ‘mina de ouro’ para a TV Globo. A cada paredão, vemos milhares de ligações, o que proporciona milhares de reais para os cofres da emissora, sem contar o dinheiro dos patrocínios. Com o que arrecada, a TV Globo consegue pagar todas as despesas e prêmios com os participantes e ainda sobra alguns milhões na sua conta bancária.
O triste da história é vermos uma pessoa que, ao longo da carreira, tanto como jornalista quanto como escritor, sempre demonstrou ser um homem inteligente, como é o caso de Pedro Bial, prestando-se para apresentar um programa dessa qualidade e, o que é pior, qualificando os representantes do programa como ‘heróis’!
Heróis, por quê? Por aguentarem passar alguns meses representando seus ridículos papéis para todo o Brasil? Por falarem idiotices atrás de idiotices e arranjarem confusões pelos motivos mais fúteis? Por se sujeitarem a apresentar cenas dignas de filmes pornôs em um horário no qual há crianças assistindo?
Herói é a pessoa que trabalha o dia todo e, à noite, vai para a escola ou faculdade pensando em adquirir conhecimentos que possam ajudá-la a progredir na vida. Herói é a pessoa que sobrevive com um salário mínimo, em um país no qual os políticos e alguns funcionários públicos ganham verdadeiras fortunas para não trabalhar. Herói é você viver em uma cidade violenta, saindo de casa todos os dias para trabalhar ou estudar, apesar do medo que sente de ser assaltado ou assassinado. Herói é o professor e o médico, que insistem nas suas profissões, apesar de não terem reconhecimento e receberem um pagamento ridículo.
Em um país como o Brazil – com ‘z’, sim, subservientes que somos à cultura americana –, onde as pessoas não estão habituadas a refletir sobre as coisas, aceitando qualquer porcaria que lhes seja atirada na cara, teremos que aguentar por muito tempo a presença desse Big Brother, um programa que representa um total desserviço à educação – e, infelizmente, não é o único – e que não acrescenta nada de útil, nem mesmo como simples divertimento.
É triste vermos tantas pessoas desperdiçando seu dinheiro votando em ‘paredões’, quando essa mesma quantia poderia ser utilizada para projetos educacionais, para a construção de postos de saúde, para a ampliação de escolas, para a compra de remédios para os hospitais, para o saneamento básico de bairros miseráveis.
Porém, as pessoas preferem doar seu dinheiro para sustentar uma imbecilidade como o Big Brother, ao invés de doar esse mesmo dinheiro para uma instituição de caridade ou um asilo, por exemplo.
Somos o país do Big Brother. E, enquanto permanecermos assim, continuaremos a ter desigualdade social, racismo, homofobia e outros problemas advindos da falta de cultura e conhecimento do nosso povo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Duna: A “Guerra dos Tronos” da ficção científica


Várias sagas têm sido escritas ao longo do tempo: “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien; “Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R. R. Martin; “As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley; “A Busca do Graal”, de Bernard Cornwell; “A Torre Negra”, de Stephen King, entre outras. Em uma linha infanto-juvenil temos “Rangers – Ordem dos Arqueiros”, de John Flanagan. Na ficção científica, uma que merece atenção é a saga “Duna”, de Frank Herbert.
Publicada na década de 1960, a saga de “Duna” ganhou reconhecimento por críticos e leitores. “Duna” ganhou prêmios como Nebula e Hugo e, em 1975, em uma pesquisa de opinião pública, foi escolhido como ‘o romance de mais imaginação dos últimos tempos’, superando concorrentes como “1984”, de George Orwell, e “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien. A saga mereceu, também, elogios de dois monstros da literatura de ficção científica: Arthur C. Clark e Robert A. Heinlein.
A saga de Duna é composta por seis livros: “Duna”, “O messias de Duna”, “Os filhos de Duna”, “O Imperador-deus de Duna”, “Os hereges de Duna” e “As herdeiras de Duna”.
A saga narra as intrigas políticas e religiosas que ocorrem em torno do planeta Arrakis, conhecido como Duna, um planeta desértico, lar de vermes de areia gigantes e produtor da disputada ‘especiaria’. O planeta é habitado por um estranho povo da areia, conhecido como Fremen. Além disso, o Imperador Padishah vive às voltas com a insatisfação que se espalha pelo Império, conseguindo manter-se no poder apenas pelo medo que as grandes e pequenas Casas têm do seu temível exército, os Sardaukar.
A Casa Atreides ganha a concessão de explorar a especiaria no lugar da Casa Harkonnen, sua inimiga, a qual procura recuperar o planeta e os fantásticos lucros que obtinha com a exploração da especiaria. O equilíbrio do poder é precário, sendo disputado pelo Imperador, pelas Grandes Casas, pela Corporação Espacial e pelas Bene Gesserit.
Em um mundo onde os computadores foram suprimidos, após o Jihad Buleriano, ou Grande Revolta, a Corporação Espacial e as Bene Gesserit transformaram-se em duas escolas de treinamento físico e mental, cujo objetivo era o de fazer com que seus adeptos fossem capazes de realizar grandes feitos sem precisar de computadores para isso. As Bene Gesserit eram extremamente habilidosas nas artes do combate e os navegadores da Corporação Espacial eram capazes de transportar pessoas e cargas para qualquer ponto do Universo, substituindo os aparelhos convencionais de navegação. Havia, também, os Mentat, ‘computadores humanos’ que deviam processar informações e retirar delas resultados lógicos. Toda grande Casa possuía um Mentat.     
Intrigas comerciais, políticas e religiosas estão presentes em todos os cantos. Um novo culto, iniciado em Arrakis, ameaça tomar o Império, bem como uma força composta por Fremens, denominada Fedaykin, ameaça o poder do exército imperial, os Sardaukar. Arrakis torna-se o centro de uma força que poderá varrer o Império, desestabilizando o já precário equilíbrio de Poder.
Frank Herbert criou um universo consistente e complexo, que se mantém atual com os acontecimentos que vemos no mundo moderno. Para Arthur C. Clark, autor de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” e “Fim da Infância”, o livro de Frank Herbert é “único... na profundidade da caracterização e nos detalhes extraordinários do mundo que cria”.     
   

sábado, 12 de janeiro de 2013

O fascismo da linguagem



Em seu livro ‘Aula’, Roland Barthes escreveu que não há linguagem fora do Poder, e que a língua não é reacionária nem progressista, e sim fascista: porque o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer.
Atualmente, mesmo sob um sutil e tênue discurso – e disfarce – de liberdade e democracia, temos visto o fascismo da língua imperando nos mais diversos setores de nossa sociedade. E é um fascismo pior do que o citado por Barthes, pois este, além de nos “obrigar a dizer”, também nos “impede de dizer”. Esse fascismo tem respondido pelo nome de “Politicamente Correto”.
Lembro de um episódio ocorrido com a presidente Dilma, quando ela foi vaiada durante um discurso simplesmente porque disse ‘portadores de necessidades especiais’ ao invés de ‘pessoas com necessidades especiais’. Da mesma forma, um jovem delinquente que, a despeito da idade precoce, não passa de um ladrão, assassino ou estuprador – ou uma combinação dos três, em alguns casos –, não pode mais ser ‘preso’, e sim ‘apreendido’, como se o ato em si não fosse a mesma coisa – com a diferença que o jovem delinquente brevemente será solto para continuar assaltando, assassinando e estuprando, por ser considerado incapaz de responder pelos seus atos, embora seja suficientemente capaz de praticá-los.
A nossa sociedade, escondida atrás de uma bandeira democrática, está na verdade tornando-se uma sociedade autoritária e fascista. As pessoas estão perdendo o direito de terem ideias próprias, sendo obrigadas a aceitar as ideias que são impostas pela sociedade como se estas fossem ‘verdades supremas’ que não podem ser questionadas.
Apropriando-me das ideias de Roland Barthes, posso dizer que as funções da literatura são: mathesis, mimesis e semiosis. Deixando a primeira e a última de lado, poderíamos dizer que mimesis seria uma ‘imitação’ da realidade – ou, como preferem alguns, representação. Em alguns casos, a literatura se antecipa à realidade, tornando-se um tanto visionária, e antecipando situações que ainda não ocorreram. Para ficar em apenas dois exemplos, cito os livros ‘1984’, de George Orwell; e ‘Admirável mundo novo’, de Aldous Huxley. Ambos os autores escreveram sobre sociedades autoritárias, que obrigavam as pessoas a agir de acordo com o que ela considerava “melhor” para as pessoas, evitando que estas mesmas pessoas pensassem e raciocinassem sobre o que estavam fazendo. O pensamento livre era suprimido por uma aceitação passiva do que lhes era imposto pelo Governo. Ninguém dizia o que pensava – pois, na verdade, ninguém pensava –, apenas repetiam o que lhes era ensinado a dizer.
Hoje, quando vejo pessoas querendo banir os livros de Monteiro Lobato das escolas, por acusação de racismo – quando este conceito não existia, na época em que ele escreveu suas histórias –, e quando vejo pessoas querendo alterar grandes livros da nossa literatura, utilizando os mesmos argumentos sobre racismo ou homofobia, por exemplo, lembro-me da manipulação feita na História, utilizada pelo governo fascista do Big Brother, no livro ‘1984’, no qual funcionários modificavam fatos históricos para favorecer o governo autoritário.
É o que está sendo sutilmente sugerido pelo ‘politicamente correto’: alterar nossa história, esquecer fatos relevantes do passado para forjar um futuro baseado na falsidade.
O Big Brother já está aí, nos observando e manipulando como se fôssemos gado sendo tocado, obedientemente, em direção ao matadouro.
Ao matadouro da nossa inteligência, da nossa razão e do nosso livre-pensamento. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Temos liberdade ou apenas concessões?



Desde priscas eras temos ouvido as pessoas clamarem por ‘liberdade’. E muito já se fez em nome dela: guerras, assassinatos, revoluções. A ‘liberdade’ é colocada como antônimo de autoritarismo, de ditadura. Na época do governo militar, no Brasil, muitas pessoas desapareceram nos porões da ditadura lutando pela liberdade; nos Estados Unidos, o povo americano lutou contra os colonizadores ingleses pela sua liberdade; a Revolução Francesa depôs a monarquia para acabar com sua opressão e obter liberdade; o Aliados enfrentaram a Alemanha de Hitler para evitar o nazismo que oprimiria a liberdade das nações. E, afinal, conseguimos esta tão sonhada e propalada liberdade?
Liberdade, na verdade, é apenas um conceito abstrato e vago. Mesmo nas chamadas ‘democracias’ não existe, verdadeiramente, liberdade. No Brasil, por exemplo, onde supostamente vivemos uma democracia, vemos que não possuímos, de fato, liberdade: somos obrigados a votar; somos obrigados a nos alistar nas Forças Armadas; somos obrigados a lutar pelo país em caso de guerra; somos obrigados a pagar impostos; e por aí vai. Ou seja, somos obrigados a fazer uma porção de coisas que não queremos, e deixar de fazer umas tantas outras que queremos. Na maior parte dos casos, somos obrigados a agir contra a nossa vontade.
Quando votamos, não votamos nos candidatos que achamos serem os melhores para determinados cargos, mas votamos nos candidatos que os Partidos nos oferecem. Não escolhemos quem queremos; escolhemos dentre as opções que nos são oferecidas.
Temos Leis que nos dizem o que podemos ou não podemos fazer. Mantemos a nossa liberdade quando obedecemos a essas leis; quem desobedece, fica privado de sua liberdade.     
Moralmente, existe uma ‘lei’ que nos diz que o limite da nossa liberdade vai até onde começa a liberdade de outra pessoa. Eu só posso fazer algo que não incomode outra pessoa, caso contrário não devo fazê-lo. Posso exercer minha liberdade dentro de determinados limites. Nossa liberdade é cerceada e vigiada – Big Brother em ação (estou falando do famoso livro ‘1984’, de George Orwell, e não daquela imbecilidade exibida pela Rede Globo).
Em tempos idos, permitia-se a realização de duelos. Se uma pessoa matasse outra em um duelo não seria presa por assassinato, já que a vítima havia concordado em participar do referido duelo. Atualmente, duelos são proibidos. Se uma pessoa matar outra em duelo, será presa por assassinato. Mesmo que as duas partes concordem em duelar, o duelo é considerado ilegal.
Ou seja: nossa liberdade é determinada pela sociedade e por suas ideias de momento. A sociedade nos prende a determinadas convenções que devemos seguir, querendo ou não. Daí podemos deduzir que não temos, de fato, liberdade. O que temos são concessões que a sociedade nos dá, permitindo que façamos algo ou não.             
Na verdade, esse tempo todo temos lutado por uma utopia: a utopia da Liberdade! Temos matado e morrido por nada. O povo – a grande massa de gente – foi feita para seguir, e não para ser seguida – daí o grande número de igrejas e religiões que nascem todos os dias; daí o número de ditaduras que pululam pelo mundo. A ‘massa’ faz não o que quer, mas o que a mandam fazer. A televisão nos diz o que comprar, o que vestir, o que assistir e o que fazer, enquanto nos passa a falsa impressão de liberdade, de que fazemos o que queremos.
Mesmo em governos ditos ‘democráticos’, essa democracia é pura ilusão. O governo do povo, na verdade, é o governo de uma minoria que recebe o aval de uma maioria para oprimir esta maioria. E, geralmente, essa minoria age em proveito próprio, sem defender os interesses da maioria que os colocou lá.
O que devemos fazer, então, para alcançarmos a Liberdade?
Não sei. Não escrevi este texto com a pretensão de fornecer respostas, mas de fazer perguntas, de fazer com que as pessoas pensem sobre a questão.
Pelo menos, aqui, cada um terá a liberdade de encontrar suas próprias respostas.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O papel da mulher na educação dos filhos


Na maioria dos países, os cargos de liderança são exercidos por homens. As mulheres reclamam que vivemos em uma sociedade patriarcal e que elas são manietadas e sofrem preconceitos por parte dos homens, opressores. Porém, se refletirmos sobre o assunto, chegaremos à conclusão de que a culpa de ainda termos uma sociedade machista e patriarcal é culpa das mulheres, já que são elas que, verdadeiramente, nos governam.
Quando pequenos, ficamos aos cuidados da mãe, que nos alimenta, nos dá banho, nos põe pra dormir. Mesmo quando estamos um pouco maiores, passamos mais tempo com nossas mães, enquanto nossos pais estão no trabalho ou, no seu tempo livre, estão bebendo cerveja com os amigos. 
Na escola, do 1° ao 5° ano, a maioria dos professores são mulheres – as “tias”, como nos ensinam a chamá-las. Assim como nossas mães e avós, são elas que nos educam nos primeiros anos do nosso aprendizado, quando estamos aguçando a nossa curiosidade para novas descobertas. 
Quando os filhos são adolescentes, já demonstrando sinais incipientes de independência, o pai, em muitos casos, se aproxima mais das filhas, com quem conversa e troca ideias. E, sem perceber, acaba se deixando levar pelo jeito carinhoso e meigo da ‘filhinha’. Geralmente, a filha consegue manipulá-lo a deixá-la fazer quase tudo que ela deseja. 
Os nossos líderes são forjados no seu caráter e na sua integridade pelas suas mães. Poderíamos dizer que são as mulheres que formam os nossos líderes, embora muitos deles acabem se desviando dos ensinamentos que lhes foram passados. Outros se desviam por não terem recebido de suas mães – e também de seus pais – ensinamentos adequados ou suficientes. 
A mulher, mesmo nos dias atuais, ainda mantém a sagrada tarefa de educar os filhos nas suas fases iniciais. Pena que muitas delas (a maioria, infelizmente) não tenham consciência da importância e responsabilidade que lhes cabe. Acham que educar o filho é apenas banhá-lo, alimentá-lo, vesti-lo, dar-lhe uma boa escola. Não percebem que cabe a elas moldar o caráter dos filhos, formando os homens que eles serão no futuro. Valores morais e educação não se adquirem nas escolas nem nas igrejas. Estas instituições apenas reforçam ou expandem o que foi aprendido em casa. O lar é a escola primeira, que nos prepara para a vida ou, pelo menos, nos fornece subsídios para que possamos nos ajustar e nos ajeitar da melhor maneira possível. 
A escola não nos educa, apenas nos ensina. Porém, nos dias corridos de hoje, muitos pais deixam a cargo da escola e da televisão (que nos mostra coisas boas e más, indiscriminadamente) a educação dos filhos, sem se darem conta – ou, o que é pior, recusando-se a se darem conta – de que as bases são lançadas no lar. Sem uma base sólida não podemos construir o edifício da educação. 
Muitos pais dizem não ter tempo para conversar com os filhos, para simplesmente estar com eles. Contudo, esses mesmos pais arranjam tempo para jogar futebol, tomar um chopp com os amigos, para ir ao cabeleireiro ou ficar horas ao telefone fofocando da vida alheia com uma amiga. Há falta de tempo, tempo mal administrado ou simplesmente desinteresse? 
Quando os pais, principalmente as mães, que ainda são as reais administradoras do lar, se conscientizarem de que depende deles a aquisição de valores morais por parte dos filhos, passando-lhes estes valores, principalmente, por meio de exemplos – uma conduta correta, um lar equilibrado e harmonioso – teremos, no futuro, cidadãos comuns e líderes conscientes e honestos, preocupados com o desenvolvimento justo da sociedade, com a diminuição das injustiças sociais, enfim, preocupados em realmente erigir uma sociedade justa por meio de atitudes realmente eficazes, ao invés das palavras vazias que comumente ouvimos dos nossos políticos.
Os pais são responsáveis em transformar esse futuro em realidade, passando para os filhos valores e ideais elevados, iniciando-os no caminho da justiça social. 
Porém, lembremo-nos de que não podemos dar aos outros aquilo que não temos nem para nós mesmos.           

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O país do pão e do circo


Observando os últimos dias, quando o Corinthians estava em Yokohama, no Japão, para disputar o Mundial da FIFA, pude observar certas situações, e lembrar de outras, que parecem só ocorrer no Brasil.
Uma das coisas que já nos habituamos a ouvir dos comentaristas, quando um time brasileiro disputa um campeonato internacional (Libertadores, Sulamericana ou Mundial de Clubes), é que aquele time “é o Brasil na Libertadores”, por exemplo. São levantadas bandeiras de um falso ‘patriotismo’. Torcedores de outros times aderem a esse bordão e passam a torcer por equipes que, normalmente, são rivais. Outro fato que causa discussões é o ranking da FIFA. Quando o Brasil perde posições – e, principalmente, quando é ultrapassado pela Argentina –, causa uma espécie de indignação entre os brasileiros, que não aceitam que o Brasil deixe de ser um dos três primeiros times no ranking, no mínimo.
Porém, algumas notícias que envolvem situações mais graves e alarmantes acabam passando despercebidas. Como é o caso de um ranking sobre educação, recentemente divulgado. Dentre os quarenta países que fizeram parte da análise, o Brasil ocupou o trigésimo nono lugar! É isso mesmo: posição número 39, entre 40 países! Só ficamos à frente da Indonésia! Qual foi o resultado disso? Nenhum.
Não vi nenhum comentário indignado no Facebook ou no Twitter, embora tenhamos ficado atrás da Argentina, por exemplo.
Temos vários recordes negativos, mas ninguém parece se importar com isso. Somos um dos primeiros países em acidentes de trânsito; estamos no topo em violência e corrupção. Ocupamos as últimas posições quando o assunto é educação. Mas, tudo bem. Desde que sejamos um dos primeiros no futebol. Cair no ranking da FIFA é que não pode!
É por isso que, atualmente, temos esta educação de fachada. O governo brasileiro divulga números baixíssimos de analfabetos, mas vemos alunos do Ensino Médio que não leem nem escrevem com um mínimo de correção; a educação é elogiada pelos nossos governantes, mas o que vemos são vários professores despreparados e que não conhecem nem mesmo as matérias que lecionam; vemos garis ganhando quase o mesmo – e, às vezes, até mais – que professores.
Enquanto o governo faz cortes nas verbas voltadas para a educação, liberam milhões de reais para a construção de estádios para a Copa do Mundo – embora o então presidente Lula, aquele que nunca sabia de nada, tenha afirmado categoricamente que os estádios seriam construídos com dinheiro privado, com o governo arcando apenas com as obras de infraestrutura.   
Atualmente, a única preocupação do povo brasileiro é com a Copa do Mundo que será realizada no Brasil. A maioria da população está preocupada com o fato de o Brasil ainda não ter um time pronto, enquanto seleções como Espanha e Alemanha têm uma base desde a última Copa. O povo anda preocupado em não repetir o fiasco de 1950, quando fomos derrotados pelo Uruguai e perdemos o título em pleno Maracanã. Porém, não vejo ninguém preocupado – nem mesmo os nossos governantes – com o fato de perdermos para o mesmo Uruguai, para o Chile e para a Argentina em termos de educação. Lembrando: só ganhamos da Indonésia, dentre os 40 países analisados.
E por que o povo brasileiro só se preocupa com o futebol, deixando de lado questões mais relevantes? Por causa dessa mesma educação que nos deixa em trigésimo nono lugar, dentre 40 países!
A educação que recebemos – e que nós, como professores, repassamos! – não nos permite analisar questões relevantes. O brasileiro vive ainda como os romanos da época dos Césares: é só dar-lhes pão e circo – leia-se: bolsa família e futebol – e ele fica calado e contente. Passando fome, desempregado, morrendo de várias doenças por falta de infraestrutura e vivendo na ignorância.
Mas com orgulho de ser brasileiro, o país da próxima Copa do Mundo!       

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Galinhas, família e epifania: reflexões sobre Clarice Lispector



O conto “Uma galinha”, de Clarice Lispector, é, aparentemente, um conto simples, até mesmo infantil. Esta impressão fica mais acentuada ao sabermos que Clarice Lispector também escreveu histórias infantis – O mistério do coelhinho pensante, A mulher que matou os peixes, A vida íntima de Laura e Quase de verdade. Porém, esta impressão de simplicidade se esvai frente a uma leitura mais atenta da história. Ao procedermos assim, observamos que o conto apresenta várias opções de análise e alguns fatos que são recorrentes tanto nos contos quanto nos romances ditos ‘para adultos’ de Clarice.
Primeiramente, a questão da família. Clarice escreveu um livro de contos inteiro sobre este tema, Laços de família, no qual discute várias situações envolvendo famílias. No Brasil, por ser um país eminentemente católico, principalmente na época em que o livro foi publicado – 1960 –, a família era vista como algo sagrado, remetendo à família de Jesus como sendo um exemplo. Criticar a instituição família era ir contra a Igreja e também contra o Estado.
Em segundo lugar, a presença de uma galinha, figura recorrente nas histórias da escritora. Em vários dos seus contos e romances, há uma galinha como personagem ou, então, ovos de galinha. No conto “Amor”, do livro Laços de Família, por exemplo, a personagem Ana, quando está no bonde, leva consigo alguns ovos, que serão servidos no jantar; há, também, um conto intitulado “O ovo e a galinha”.
No conto “Uma galinha”, a personagem central, como o próprio título diz, é uma galinha, uma “galinha de domingo” que irá ser servida no almoço. No entanto, quando se iniciam os preparativos para matar a galinha, esta alça voo e vai empoleirar-se nos muros e telhados da vizinhança. O pai, vendo o almoço fugir, empenha-se em persegui-la até que, triunfante, consegue trazer a galinha de volta para casa. Com a excitação da fuga e a consequente perseguição de que fora alvo, a galinha põe um ovo. Nesse instante, a filha pede para que “(...) não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!”
A partir daí, a galinha torna-se o centro das atenções, “tornara-se a rainha da casa”. Essa situação permaneceu durante algum tempo, até que um dia “dia mataram-na, comeram-na e passaram-se os anos”.
O conto narra a vida de uma típica família brasileira – mas que poderia representar uma família de qualquer parte do mundo. Há a figura do pai, da mãe, da filha e da cozinheira. O papel de cada um está bem delineado e condizente com a realidade – pelo menos, com a realidade da época em que Clarice Lispector escreveu o conto. O pai é o provedor, é aquele que tem a responsabilidade de sustentar a família, provendo todas as suas necessidades, inclusive de alimentação – resquícios dos tempos das cavernas, no qual os homens tinham a função de proteger e alimentar o grupo. Quando a galinha foge, é ele quem realiza a tentativa de captura e é ele quem a traz de volta para casa. Além disso, após a galinha botar o ovo, é ele quem toma a decisão de não mais matar a galinha, decisão esta que fica patente nos trechos “O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão” e “Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!” A palavra final, a decisão pelos rumos que a família vai tomar, cabe à figura paterna. O homem é o ‘cabeça’ do casal, segundo a tradição bíblica e a Lei então vigente no Brasil, cabendo a ele tomar as decisões pertinentes à família.
Além disso, se a galinha é a protagonista da história, o pai faz o papel do antagonista. É ele quem entra em choque com a galinha; é ele quem vai buscá-la quando ela empreende sua fuga; é ele quem decide que a galinha não mais será morta para servir de almoço.
A mãe ocupa um papel secundário, não merecendo um destaque maior no decorrer do conto. Sua única ação, quando o pai decide que não mais matarão a galinha e a filha o apoia, é de indiferença, que pode ser notada pelo trecho “A mãe, cansada, deu de ombros”.
É interessante a utilização do adjetivo ‘cansada’. De quê a mãe estaria cansada? O narrador, no início do conto, nos informa sobre o dia e a hora em que a história se inicia: “Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã”. Ou seja, a mãe não tivera ainda tempo para ter um dia estafante, após trabalhar na limpeza da casa ou algo assim, além de que não fora ela quem perseguira a galinha após a sua fuga, e sim o marido – este, sim, podendo estar cansado devido a falta de exercícios físicos. De onde viria esse seu “cansaço”? Provavelmente, da própria vida de dona de casa, do seu papel de mulher em uma sociedade machista, que cerceava os direitos da mulher. Da falta de propósito que permeava sua vida. Assim como na ‘vida real’, no conto a mãe ocupa um papel secundário, enquanto o marido ocupa um papel de maior destaque, proporcionado pela perseguição que empreendeu na tentativa de capturar a galinha, bem como na tomada de decisão quanto ao destino que seria dado à galinha.
A menina também ocupa um papel secundário no conto, evidenciando a posição secundária que as crianças exerciam naquele tempo – o tempo da autora, que pode coincidir com o da história. Ela apenas anuncia o fato de que a galinha pôs um ovo e, depois, concorda com o pai quando este diz que não mais matarão a galinha. Ou seja, a criança tinha consciência das coisas que se desenrolavam ao seu redor, mas não tinham voz ativa para emitir sua própria opinião. Ao perceber que a galinha havia colocado um ovo, a menina limita-se a pedir para a mãe que “não mate mais a galinha, ela pôs um ovo”, evidenciando que a decisão sobre este assunto não cabia a ela, e sim a um adulto. No entanto, a decisão final não coube à mãe, e sim ao pai, e é ele quem decide não matar mais a galinha.
A cozinheira – mais um personagem feminino que ocupa um lugar secundário no conto – praticamente não aparece na história, sendo apenas citada no trecho “o tempo da cozinheira dar um grito”, por ocasião da fuga da galinha. Além de ser mulher, a cozinheira ocupa uma posição que, ainda hoje, enfrenta certo preconceito, que é a de empregada doméstica. Convivendo diariamente com a família – chegando até mesmo a morar com ela –, mas sem fazer parte dela, a cozinheira ocupa uma posição de invisibilidade social, vivendo uma vida marginalizada, sendo lembrada apenas quando seus serviços se fazem necessários – a mesma invisibilidade social que atinge garis, mendigos e outras parcelas da população que ocupam postos ou classes sociais consideradas ‘inferiores’, não merecendo um olhar mais atento por parte daqueles que possuem um pouco mais de recursos econômicos e/ou possuem uma posição social privilegiada.
Temos, assim, a galinha como protagonista da história e o pai como antagonista. Os demais personagens – mãe, filha e cozinheira – ocupam uma posição secundária, para os quais não é dado um maior destaque.
A galinha é o único personagem ‘feminino’ que ocupa um destaque na história. A figura da galinha é usada como uma metáfora para demonstrar o papel da mulher na sociedade da época. A autora utiliza-se deste personagem para criticar a maneira como a mulher era vista e tratada, já que o conto foi publicado em 1960, época em que movimentos feministas começavam a se espalhar pelo mundo.
A maneira como a galinha/mulher é tratada pode ser vista em trechos como “Não olhava para ninguém. Ninguém olhava para ela”; “Nunca se adivinharia nela um anseio”. Até uma certa época, a mulher era tratada como se não tivesse vontade própria. Vivia sob o domínio do pai, até que um dia casava-se e passava a viver sob o domínio do marido; ao morrer o marido, o controle passava para o filho mais velho. A mulher não era olhada como um ser pensante e inteligente – assim como a galinha, normalmente considerada como sendo estúpida –, apenas como objeto de admiração por causa de sua beleza e/ou atrativos sexuais.
O mesmo ocorre com a figura da galinha. Ela não recebia nenhum tipo de atenção – “Ninguém olhava para ela”; “usando suas duas capacidades: a de apatia e a de sobressalto”. A galinha só mereceu uma atenção maior em dois momentos do conto: quando alçou voo, e a família se viu perdendo seu almoço de domingo; e quando pôs um ovo e despertou na família a ideia da maternidade.
Basicamente, o mesmo ocorria em relação à mulher. Criada para casar e ter filhos – ou seja, a mulher era vista apenas como um instrumento para procriação –, a mulher só merecia destaque quando se casava e, vestida de noiva, tornava-se o centro das atenções; e quando ficava grávida. A gravidez, por conta de aspectos religiosos impostos pelo cristianismo, era vista como algo quase sagrado, divino, quando comparada com a gravidez de Maria, mãe de Jesus.
Ao pôr o ovo, a galinha despertou nas pessoas o senso da maternidade, tornando-se “a rainha da casa”. Ao chocar o ovo, criou uma analogia com a gravidez feminina, quando o embrião ainda se encontra em desenvolvimento para se tornar um ser humano. Neste momento, todos passaram a se interessar e a se preocupar com a galinha, fazendo até com que o pai pensasse, com um certo tom de remorso, que “a obriguei a correr naquele estado!”
A importância da mulher – e da galinha – residia no fato de que a gravidez era um momento de importância, conforme se observa em um trecho do conto que diz “nascida que fora para a maternidade”. Um filho – principalmente se fosse homem – iria perpetuar o nome da família e cuidar dos negócios do pai. No caso da galinha, colocar ovos supriria as necessidades de alimentação da família e, caso o ovo fosse chocado, geraria uma nova galinha que serviria de alimento ou poria mais ovos para sustentar a família.
Neste conto, Clarice não se utiliza de um recurso que acompanha grande parte de sua obra: a epifania. De acordo com definições de Affonso Romano de Sant’Anna, a epifania seria uma “uma súbita revelação da verdade”, “o relato de uma experiência que a princípio se mostra simples e rotineira, mas que acaba por mostrar a força de uma inusitada revelação” ou, ainda, “a percepção de uma realidade atordoante quando os objetos mais simples, os gestos mais banais e as situações mais cotidianas comportam iluminação súbita na consciência dos figurantes...”.
No conto “Amor” e no romance “A paixão segundo G. H.”, por exemplo, ocorre o fenômeno da epifania, quando as personagens, movidas por um incidente banal, entram em um processo de quase ‘revelação’, até que, no final, voltam à sua vida cotidiana. Ou seja, nas histórias de Clarice, a epifania é um momento efêmero que, praticamente, não deixa marcas nas personagens, já que elas retornam ao estado inicial após este momento epifânico.
No conto “Uma galinha”, a epifania não acontece. O mais próximo que ocorre de uma epifania é quando a galinha põe o ovo e a filha diz que “Ela quer o nosso bem”. O pai, também sensibilizado por aquela situação, alega que “nunca mais comerei galinha na minha vida”, caso a galinha seja morta para servir de almoço. A mãe permanece apática diante da situação, acatando a decisão do pai sem questionar. Não se conhece a reação da cozinheira, mas, provavelmente, estaria apenas esperando, pacientemente, a decisão dos patrões para saber o que deveria fazer – matar a galinha ou providenciar outra coisa para o almoço.
Assim, em nenhum dos dois casos – a reação da menina e a do pai – ocorreu realmente uma epifania, já que não houve uma reflexão sobre a questão. Ambos apenas aceitaram a situação, movidos mais por um sentimento instintivo e inconsciente do que por uma reflexão sobre aquele instante. Em nenhum momento os personagens modificam sua visão de mundo ou chegam, sequer, a pensar sobre ela.
A galinha, durante toda a história, é descrita como “Estúpida, tímida”, “Inconsciente da vida que lhe fora entregue” ou “vazia cabeça”. No entanto, o que podemos observar é que os demais personagens da trama não agem de maneira diferente. Eles também, a seu modo, levam uma vida estúpida e tímida, e também tinham sua própria inconsciência da vida que lhes fora entregue. Assim como a galinha, mal tendo posto o ovo, “parecia uma velha mãe habituada”, movida por um instinto atávico que a levava a exercer a maternidade sem que precisasse refletir sobre ela, as pessoas que compunham a família também parecem agir de maneira inconsciente, deixando-se levar por um instinto que lhes havia sido passado pelos seus pais e que eles, por sua vez, passariam a seus filhos. A tão propalada ‘superioridade’ dos homens sobre os animais seria um mito, pois a maioria das pessoas acabam realizando suas ações mais por instinto do que por reflexões sobre a situação.   
O conto, dessa forma, serve como um momento de reflexão sobre a Vida e sobre o comportamento dos seres humanos. Reflexão esta que não parte dos personagens, que em nenhum momento se põem a pensar sobre o que está ocorrendo naquele instante. Eles apenas se deixam levar por velhos hábitos que eles mesmos não se dão conta de onde vieram. Esta reflexão deverá ser feita pelo leitor – se é que este a fará!
Sob este aspecto, o conto inteiro funciona como uma epifania, com o intuito de, partindo de um fato banal – a fuga de uma galinha que serviria de almoço e a sua subsequente maternidade –, nos fazer pensar sobre situações para as quais não damos maior importância, nos deixando levar ao sabor da corrente, uma massa humana que se guia pelo instinto, assim como os animais se deixam levar pelo instinto, cada raça agindo da mesma maneira em qualquer lugar do mundo.
O conto “Uma galinha” confunde-se, em alguns momentos, com o conceito de fábula e parábola. Fábula é uma estória que possui como personagens animais, vegetais ou minerais e tem um objetivo instrutivo. Além disso, a fábula e uma história breve”. Já a parábola tem, como personagens, homens. Tal como a fábula, a parábola tem sentido moralista, mas seu sentido não é aparente, utilizando uma linguagem figurada e com os personagens possuindo um sentido simbólico. No conto “Uma galinha”, temos um animal como personagem central – afinal, sem a galinha a estória não aconteceria –, assim como em uma fábula. E, além disso, como em uma parábola, o sentido do conto não é aparente. A galinha, assim como os demais personagens do conto, na verdade funcionam como estereótipos para exemplificar pessoas e situações reais. A família do conto representa um padrão do que seria uma família comum – no Brasil e em várias partes do mundo. A galinha funciona como uma metáfora para discutir a situação da mulher em uma sociedade machista e paternalista. Neste conto, os personagens funcionam mais como símbolos do que como pessoas reais vivenciando situações possíveis.
Diferentemente da fábula, que tem caráter instrutivo, e da parábola, cujo objetivo é moralizante, o conto de Clarice não procura instruir nem criar conceitos moralizantes – ao contrário, a exemplo de Derrida, ela parece procurar mais ‘desconstruir’ para que, no meio dos destroços, se possa encontrar a base de um novo conceito a ser discutido e pensado.
Antenada com fatos que aconteciam no mundo – Clarice foi casada com o diplomata Maury Gurgel Valente e chegou a viver quinze anos fora do Brasil, morando em cidades como Nápoles, Berna, Torquay e Washington –, Clarice presenciou movimentos culturais, políticos e econômicos que aconteciam na Europa e América do Norte, relacionando os novos pensamentos e comportamentos com a atmosfera que ainda permeava o pensamento brasileiro. Em seus textos, Clarice põe em discussão vários valores – família, situação da mulher etc. –, procurando fazer com que o brasileiro também acompanhasse esse momento de mudança e de comportamento que começava – ou continuava – a se espalhar pelo mundo.
Desta forma, podemos observar que, apesar da aparente simplicidade citada no início deste texto, o conto “Uma galinha”, bem como o restante da obra de Clarice Lispector, suscita reflexões sobre os mais variados temas: família, individualidade, maternidade, condições sociais e muitos outros.
A obra de Clarice Lispector merece ser lida e analisada pela profundidade com que trata de temas que, mesmo atualmente, ainda são debatidos sem que se consiga chegar a uma decisão satisfatória sobre o assunto. Nas suas histórias, Clarice nos mostra que das coisas mais simples podemos extrair grandes ensinamentos. Cada um de nós pode alcançar sua própria epifania.