sexta-feira, 14 de junho de 2013

Camões, Lusíadas e o pessimismo do “Velho do Restelo”

A confusão que reina na política brasileira atingiu proporções “épicas”, invocando até mesmo Luís de Camões, o maior poeta português, para a troca de insultos que geralmente ocorre entre os parlamentares.
Tentando rebater algumas críticas recebidas, a presidente Dilma Roussef resolveu apelar para o épico camoniano e chamou as pessoas que a criticam e ao seu governo de “Velho do Restelo”, personagem d’Os Lusíadas reconhecido pelo seu “pessimismo”. No épico de Camões, a figura do Velho do Restelo alerta Vasco da Gama e seus marujos sobre a sua ambição por glória e poder, prevendo o futuro desastroso e decadente que estava por vir. Por sinal, já virou um hábito da presidente rotular as pessoas que criticam os erros de seu governo como “pessimistas de plantão”.
Aécio Neves, senador pelo PSDB-MG, criticou a presidente dizendo que “não serão ataques fortuitos e fora do tom à oposição que vão permitir que a inflação volte ao controle. Muita serenidade nessa hora. Que a queda nas pesquisas não afete o humor da presidente. Ela tem que planejar o país, o que não foi feito até agora”.
O senador paulista Aloysio Nunes Ferreira, líder do PSDB, ironizou a presidente ao dizer que Dilma está “longe” de ser um Vasco da Gama, referindo-se ao navegador português, personagem do épico de Camões.
Porém, épica mesmo têm sido as confusões que vemos diariamente na política brasileira. A presidente Dilma, por exemplo, tenta nos passar uma imagem da Copa do Mundo como sendo “uma festa”, o que tem sido corroborado por algumas empresas que anunciarão seus produtos durante a Copa. Para “eles”, realmente será “uma festa”. Contudo, quando alguém questiona os abusos e desmandos que vêm ocorrendo durante a preparação para a Copa – estádios superfaturados, estádios inaugurados antes de terem suas obras finalizadas, etc. –, são tratados pela presidente como sendo “pessimista”.
Questionar o que vem sendo feito de “errado” no país, seja na preparação para a Copa ou não, não é pessimismo: é se importar com o péssimo emprego do nosso dinheiro, que poderia ser usado de forma mais eficiente em obras realmente importantes para a população. O famoso “legado” que os defensores da Copa dizem que ficará é algo totalmente incerto. Na África do Sul, muitos dos estádios que foram construídos para a Copa de 2010 estão, atualmente, praticamente sem uso, e já se fala até em demolir alguns deles, por terem uma manutenção cara e não apresentarem nenhuma utilidade prática. Em termos sociais, o ganho para o povo foi mínimo, não se observando obras de relevância para a melhoria das condições de vida da população. O país continua pobre, com uma educação e uma saúde deficitárias. O mesmo discurso utilizado para justificar a Copa da África do Sul está sendo repetido no Brasil e, provavelmente, veremos um pós-Copa igual ao que ocorreu no país africano. Ou alguém realmente acredita que o transporte, a saúde e a segurança, por exemplo, vão melhorar?

Nesta guerra de palavras entre os adversários políticos quem sai perdendo é o povo. Além disso, seria bom que a presidente Dilma se lembrasse que o Velho do Restelo, citado por ela, era um homem simples do povo, povo este que foi afetado pelas ações de Vasco da Gama e de outros navegadores portugueses. E seria bom que ela se lembrasse, também, que os vaticínios “pessimistas” feitos pelo Velho do Restelo se mostraram verdadeiros no futuro.         

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A seleção brasileira tem sido desrespeitada ou as outras seleções perderam o temor?

O zagueiro Thiago Silva e o técnico Felipão, em suas respectivas coletivas de imprensa, nesta semana, reclamaram da “falta de respeito” das outras seleções em relação à seleção brasileira. Thiago Silva chegou a dizer que o Brasil é o único que possui cinco títulos mundiais. Felipão seguiu, mais ou menos, essa mesma linha.
Porém, o que as outras seleções perderam não foi o respeito pelo Brasil. Em todas as seleções, os jogadores falam que querem enfrentar o Brasil e sempre citam que somos uma grande seleção, com grandes jogadores. O que aconteceu foi que as seleções perderam o temor que sentiam quando enfrentavam a seleção brasileira antigamente. Realmente, quando se enfrentava jogadores do porte de Pelé, Garrincha, Jairzinho, Gérson, Rivelino, Zico, Falcão, Sócrates etc., jogando um futebol de qualidade, era uma seleção que impunha respeito pela qualidade dos jogadores. Atualmente, porém, mesmo tendo jogadores habilidosos individualmente, a seleção brasileira não tem apresentado um jogo que empolgue nem mesmo seus torcedores. Tudo bem, vencemos a seleção francesa por 3X0. Mas não podemos esquecer que a França jogou sem alguns de seus principais jogadores, como Ribéry, e que perdeu, há alguns dias, para a seleção uruguaia que, diga-se de passagem, não vai tão bem assim nas Eliminatórias sul-americanas.
Na atual seleção não possuímos um craque que se destaque, como antigamente tínhamos. O maior craque é Neymar, mas este não tem apresentando um bom futebol, ultimamente. Logo que entrou na seleção, convocado pelo técnico Mano Menezes, Neymar chegou a ter boas atuações, mas nada espetacular, como fazia no Santos. Hoje, Neymar tem tido atuações discretas e só tem jogado pelo nome que construiu e, provavelmente, por interesses, externos ao futebol, que envolvem o seu nome.
Além disso, a poucos meses do Mundial, o Brasil ainda não tem um time definido, nem em relação a jogadores e nem a esquema tático. Felipão ainda está fazendo testes no elenco, e esta Copa das Confederações servirá para que ele possa tentar definir time e esquema que utilizará na Copa do Mundo (supondo que ele irá continuar como técnico até a Copa do Mundo).
O único setor que parece estar definido é a defesa. David Luiz, Thiago Silva e Dante parecem ter garantido seu lugar para a Copa do Mundo. Não são jogadores excepcionais, mas são os que têm apresentado um futebol um pouco melhor. Marcelo, na lateral-esquerda, e Daniel Alves, na direita, também se firmaram como nomes certos. Ambos apresentam um bom futebol ofensivo, mas demonstram muitas fragilidades defensivas. Se não tiverem uma boa cobertura dos volantes, o Brasil pode apresentar algumas complicações defensivas.
No gol, Júlio César ainda não reconquistou a confiança dos torcedores, mas está bem evidente que é o titular de Felipão. Na minha opinião, os goleiros deveriam ser Jefferson (Botafogo), Diego Cavalieri (Fluminense) e Fábio (Cruzeiro), mas Júlio César é um goleiro experiente e pode se recuperar da falha na Copa do Mundo da África do Sul.
Do meio-campo para frente, Felipão ainda está testando jogadores tentando encontrar a formação ideal. Tirando Neymar que, mesmo não jogando bem, é intocável, os outros estão brigando pelas vagas e ninguém está garantido. Entre os volantes, Felipão demonstra sua preferência pelo tipo “brucutu”, em detrimento de volantes que sabem sair jogando. Mas tem convocado Paulinho e Hernanes, o que prova que poderá armar um esquema mais ofensivo, com volantes que servirão como válvula de escape caso os meias estejam bem marcados. Nas outras posições, as brigas estão em aberto.
Ou seja, às vésperas de um torneio oficial – a Copa das Confederações –, o Brasil ainda não encontrou o time titular, enquanto as outras seleções já vêm com sua base formada há algum tempo.
O que fica bem evidente é que o Brasil está um nível abaixo de seleções como Espanha, Argentina e Alemanha, por exemplo, e não estamos muito melhores que Itália, Inglaterra e França. Sem contar as surpresas, como a Bélgica, que vem apresentando um bom futebol com uma nova safra de jogadores muito bons, e que promete surpreender.
O fato é que não temos uma seleção de grandes jogadores, individualmente falando, e que não vem apresentando um bom futebol coletivo. O Brasil deixou de meter medo em outras seleções que antes nos respeitavam mais. Isso não representa um desrespeito ao Brasil como país, mas está bem claro que ninguém mais tem medo do futebol apresentado pela seleção brasileira.
Possuímos cinco títulos mundiais, sim, mas alguém devia dizer ao Thiago Silva que quem vive de passado é museu. O que interessa, agora, não é o que fizemos no passado, mas o que estamos fazendo no presente. E, no presente, o que temos feito não mete medo em ninguém.

Nota: Ronaldo Fenômeno, dando uma de comentarista após o jogo, disse que o Brasil está pronto para enfrentar qualquer seleção do mundo.
Calma, Ronaldo! Você como comentarista é um ótimo garoto-propaganda. O Brasil ainda está longe de poder enfrentar, mano a mano, as melhores seleções do planeta, mais entrosadas, com times praticamente prontos e jogando futebol, coisa que o Brasil não tem conseguido fazer.

Vale lembrar que Ronaldo é pago pela CBF para defender os interesses da manda-chuva do futebol brasileiro, e é exatamente isso o que ele está tentando fazer com declarações como essa.               

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O ufanismo da imprensa esportiva

A Copa do Mundo no Brasil tem mexido com muita gente, principalmente aquelas que irão ganhar muito dinheiro com a realização da Copa em terras tupiniquins – empreiteiras, políticos, televisão, ex-jogadores etc. Para que possamos realizar “a melhor Copa de todos os tempos”, conforme alguns apregoam, foram tomadas várias providências: construção de novos estádios, reformulação de estádios antigos, realização de obras de ‘mobilidade urbana’ etc.
Quanto a esta última, talvez seja o que menos se tem visto. E algumas das ditas obras têm prejudicado uma grande parte dos brasileiros, curiosamente, aqueles que não terão a oportunidade de participar da “festa” que será a realização da Copa no Brasil. Muitas famílias tiveram suas casas desapropriadas para a duplicação de estradas, por exemplo, casas estas que haviam sido construídas com muito sacrifício, durante muitos anos. Agora estas pessoas não têm onde ficar, tudo para facilitar o deslocamento dos turistas que visitarem o nosso país. Ou seja: aqueles que ficarão à parte da festa da Copa do Mundo são aqueles que pagam o preço mais alto.
Quanto aos estádios, praticamente tem sido a única coisa que realmente tem mobilizado o Governo brasileiro. Inicialmente, quando foi anunciado que o Brasil sediaria o Mundial de 2014, o então presidente Lula afirmou, peremptoriamente, que os estádios seriam construídos exclusivamente com capital privado. Ao Governo caberia realizar as obras de mobilidade urbana. Resultado: todos os estádios, mesmo os particulares, têm recebido dinheiro público na sua construção.
Outro ponto em relação aos estádios: todos acabaram custando muito mais do que o previsto no orçamento inicial. Sem contar que as sedes da Copa foram escolhidas por questões políticas, com a questão futebolística figurando em segundo plano, se é que figurou.
O pior é que, com raras exceções, não vemos os nossos membros da imprensa esportiva tocando nesses assuntos. A própria presidente Dilma chama quem questiona esses desmandos de “os pessimistas de plantão”. A maioria insiste em louvar as maravilhas que ficaram os nossos estádios após a reforma e/ou construção, sem questionar porque os valores aumentaram tanto em relação aos valores apontados inicialmente; não questionam as inaugurações que são feitas com os estádios ainda inacabados, apenas para o governo poder dizer que cumpriu com os prazos estabelecidos (e, mesmo assim, não cumpriu); não questionam os aumentos nos preços dos ingressos, o que tira as pessoas de baixa renda dos estádios – e, na realidade, sempre foram as pessoas de baixa renda que formaram a torcida do futebol –; entre outras coisas.
Atualmente, vemos nos estádios muitas pessoas que não têm afinidade com o futebol. Estamos formando “torcidas de vôlei”, um público que mais parece espectadores de uma ópera ou balé. Sou a favor de que o público seja educado, não deprede os estádios e nem fique jogando objetos no campo, mas não podemos cercear aquela alegria que víamos na “geral” do Maracanã. O público de hoje é um público apático, que só se anima quando a câmera “passeia” pelo estádio e eles se veem no telão. Os famosos “geraldinos” eram um público que participava do jogo, incentivando e cobrando seus times, além de procurar atrapalhar e desconcentrar os adversários. O que a FIFA precisa entender é que o torcedor de futebol não precisa – e não deve – ter o mesmo comportamento de um espectador de música de câmara. Em um período em que se apregoa a valorização das ‘diversidades’, a FIFA parece querer criar um público uniforme, desrespeitando valores locais.
A imprensa brasileira, que tanto lutou na época da ditadura militar – período em que se procurou abafar a voz da imprensa – para informar o público dos abusos que eram cometidos, agora torna-se conivente com o que vem sendo praticado no “país da Copa”.
Parece que os ares de suposta liberdade que vieram após o período da ditadura não fizeram bem à nossa imprensa. Ou, quem sabe, a ditadura não tenha realmente acabado. Apenas mudou de forma. 

terça-feira, 28 de maio de 2013

Roland Barthes e a morte do autor


Ainda hoje vê-se críticos, autores e estudiosos da Teoria Literária às voltas com uma pergunta que, à primeira vista, parece simples, mas que mostra-se de difícil resposta ao se refletir sobre ela: o que é Literatura? Esse questionamento gera outras perguntas, tais como: que tipo de texto pode ser considerado literário? Qual o papel do autor? Qual o papel do leitor? São muitas as perguntas e seria preciso escrever um livro apenas para se discutir algumas delas – discutir, não necessariamente esclarecê-las. Portanto, decidi deter-me em uma questão que considero fundamental e central da literatura: a figura do autor. Para isso, voltamos a uma das perguntas feitas acima: qual o papel do autor?
Muitos estudiosos importantes debruçaram-se sobre essa questão, gerando as mais diversas teorias. Foucault, Barthes, Bakhtin e Eagleton são apenas alguns deles. Questionaram, por exemplo, quem seria o sujeito mais importante do ato literário: o autor ou o leitor? Livros são escritos para serem lidos e só são lidos porque foram escritos. Esse cabo-de-guerra gerou inúmeras teorias e discussões que tentaram esclarecer essa questão. Em meados da década de setenta do século passado, Roland Barthes surgiu com uma teoria que gerou uma polêmica que dura até hoje nos círculos literários e acadêmicos: ele propôs a morte do autor.
Como sempre ocorre, essa teoria dividiu críticos e teóricos em dois campos radicalmente opostos e que nem sempre entenderam os conceitos elaborados por Barthes. Afinal, o que seria a morte do autor? Seria negar ao autor sua importância em relação ao texto? Alguns defensores desta ideia podem se apegar às palavras do próprio Barthes quando ele diz que o ato de escrever faz o autor e não o contrário, já que o autor sofreria influências do contexto social e histórico no qual estaria inserido. Ou poderiam se basear novamente em Barthes quando ele diz que a linguagem sofre a influência do Poder, que a tudo permeia e do qual nada nem ninguém escapa. A língua, assim, seria uma expressão do Poder. Ou seja, o autor não usaria a linguagem, ao contrário, seria usado por ela.
Creio que, entender dessa forma o conceito de “morte do autor” emitido por Barthes não passa de uma simplificação de suas ideias. Na verdade, um texto só existe de fato no momento em que está sendo escrito ou no momento em que está sendo lido. Dessa forma, ambos – autor e leitor – seriam “produtores do texto”.
Outros argumentam que, ao ser publicado, o texto como que se desvincula do autor, o autor perde seu poder sobre ele. Conforme Foucault, o autor, em relação ao texto, seria exterior e anterior, pelo menos em aparência. De certa forma, isso é verdade: um texto, muitas vezes, foge ao controle do autor. Gera tantas interpretações quantos leitores o leiam; seus personagens, às vezes, acabam se tornando mais conhecidos que os seus criadores (veja-se o caso de “Drácula”, de Bram Stoker); seus textos servem de inspiração para obras que neles se baseiam (é o caso de “Amor de Capitu”, de Fernando Sabino, inspirado na obra de Machado de Assis, “Dom Casmurro”, ou do livro “Sexta-Feira ou os limbos do Pacífico”, de Michel Tournier, baseado em “Robinson Crusoé”). Porém, podemos nos perguntar se o autor perdeu realmente o poder sobre sua obra ou sobre as ideias que expôs. No caso do livro de Michel Tournier, citado acima, o que o autor fez foi abordar uma outra faceta da história, no caso, uma possível relação homossexual entre Crusoé e o índio Sexta-Feira. “Robinson Crusoé” permanece intocado em sua essência, o que se fez foi expandir suas possibilidades narrativas. Isso sem contar que depende do autor possíveis alterações, revisões ou até mesmo autores que renegam certas obras por considerá-las “menores” no conjunto da sua obra. Essa é uma prerrogativa exclusiva do autor. Esses argumentos podem ser reforçados pelas palavras do próprio Barthes quando ele define o leitor “não como um indivíduo personalizado, como certa crítica literária vê o autor. É, antes, um lugar, não preenchido por um ser individual, o espaço da unidade do texto, unidade que não é conseguida pelo lado do autor, mas pelo do leitor”.
Mesmo que o autor não dê ao texto nenhum sentido prévio que possa orientar a leitura, não se vê porque “o leitor – que, como o autor, também deveria ter sido atingido pela ‘crise do sujeito’ – não é afetado pela mesma suspeição com que aquele é visto”, conforme diz Rosa Maria Goulart. Se, conforme Barthes, “a linguagem conhece um ‘sujeito’, não uma ‘pessoa’”, autor e leitor seriam sujeitos do texto, assim como o próprio personagem, que reflete a ‘voz’ do autor, mas que não deixa de ter sua voz própria.
Entendo a “morte do autor”, proposta por Barthes, não como uma morte literal, como muitos acreditam, e sim como um deslocamento desse autor, uma tentativa de fuga da própria linguagem, ao mesmo tempo em que tenta trazer o leitor para sua obra, fazê-lo participar dela, ambos sendo autor e personagem de uma história várias vezes reescrita, ao mesmo tempo em que é imutável. A Literatura é esse elo entre os dois polos. Como já disse um autor, escrever (e ler) é, antes de tudo, exorcizar demônios.             

quinta-feira, 9 de maio de 2013

O labirinto de espelhos em “O Físico Prodigioso”, de Jorge de Sena


A novela ‘O Físico Prodigioso’, do português Jorge de Sena, é uma obra cheia de signos, o que nos permite obter as mais diversas leituras, dependendo do ponto de vista ao qual nos atenhamos. A história se passa em uma espécie de Idade Média, por si só um período repleto de simbologias. Temos aí o mito do Rei Arthur e sua busca pelo Santo Graal; a simbologia do Cristianismo sendo imposta pela Igreja Católica; as bruxas e seus rituais; dragões cuspidores de fogo andando sobre a terra e voando alto nos céus. Utilizando-se desse período para desenvolver sua novela, Jorge de Sena pôde brincar com todos esses símbolos, misturando-os, alterando-os e acrescentando alguns de sua própria invenção.
A Idade Média na qual Sena situa sua obra nos faz lembrar o D. Quixote e sua novela de cavalaria. O próprio Físico é um cavaleiro andante, assim como D. Quixote – e como o próprio Jorge de Sena, longe de sua terra, em um exílio voluntário devido ao regime salazarista que tiranizava Portugal. Os três cavaleiros perseguem cada qual o seu ideal: D. Quixote enfrenta o que, nos seus delírios, pensa serem gigantes; o Físico e Sena procuram o amor e a liberdade. Literariamente Jorge de Sena resgata, mesmo que parcialmente, os heróis que enfrentavam mil batalhas contra dragões, contra exércitos ou mesmo contra moinhos. Assim como D. Quixote montado em seu Rocinante, o Físico chega em seu cavalo para encontrar a sua Dulcineia, na forma de D. Urraca.



O paralelo mais evidente com o Físico é a figura de Jesus Cristo. Porém, podemos rastrear várias outras figuras diante das inúmeras simbologias utilizadas por Jorge de Sena. A figura do Físico parece funcionar como um espelho que emite reflexos diversos, alguns deles distorcidos, que se completam apenas quando conseguimos ver o conjunto. Cada reflexo funciona como uma estrada que, em determinado momento, se bifurca em duas ou mais direções, oferecendo caminhos diversos para o andarilho que nela viaja. Porém, os caminhos acabam por se reunir mais adiante, voltando a ser o mesmo caminho. Porém, o viajante, esse, já não é mais o mesmo.
A dualidade permeia toda a narrativa de ‘O Físico Prodigioso’. Entretanto, fugindo do maniqueísmo que costumamos encontrar na religião, que divide tudo entre Bem e Mal, pureza e pecado etc., e até mesmo de algumas obras literárias, que dividem os personagens em bons e maus – principalmente na literatura infanto-juvenil –, Sena nos apresenta personagens que vivem neste limite, procurando eles mesmos o conhecimento – o autoconhecimento. Os personagens se veem como se estivessem em frente a espelhos – onde a imagem refletida, mesmo sendo outra, é a mesma. Decifrar e compreender estas imagens, unindo-as em uma só, seria a sua meta.
Para fazer sua novela, Sena utilizou-se de várias imagens, de dualismos, de ambiguidades – inclusive semânticas –, explorando todas as facetas que a literatura lhe permite explorar, inclusive alterando a narrativa entre a prosa e a poesia. Em ‘O Físico Prodigioso’, porém, o real e o imaginário não se opõem, não são contrastantes. São imagens distintas que se refletem e se misturam para formar uma única imagem.
É perceptível a influência do surrealismo na obra. Sena utilizou-se de aspectos técnicos peculiares para a fluidez do texto – como é o caso de colunas duplas para narrar eventos simultâneos –, a fragmentação temporal e espacial, além do diálogo intertextual com vários autores, como Camões, e com vários gêneros, como é o caso da utilização de cantigas de amigo, um marco da época medieval, porém compostas pelo próprio Sena. Subverter e superar fronteiras é algo que está presente durante todo o desenrolar da narrativa.
Narrativa esta, por sinal, que não segue os moldes consagrados pelo romance tradicional. Sena brinca com o texto, avança, recua, dá voltas, volta ao mesmo ponto. Por sinal, o experimentalismo narrativo da novela nos é informado pelo próprio Jorge de Sena na introdução à novela que consta da edição brasileira de 2009. Sena nos diz que “o experimentalismo narrativo, jogando com o espaço, o tempo, a repetição variada do texto, etc., é uma das bases essenciais desta novela” (p. 20). Quanto à narração, podemos encontrar três tipos distintos que demonstram esse jogo proposto por Sena: a narração paralela, a narração espiral e o mise em abyme.
A narração paralela é auxiliada pela própria diagramação do texto. Sena utiliza-se da abertura de colunas que narram, simultaneamente, histórias – ou possibilidades – que ocorrem ao mesmo tempo e, às vezes, no mesmo espaço. A princípio, podemos considerar que uma destas histórias é real e que a outra se passa em um mundo onírico, apenas uma fantasia vivida pelo Físico. A utilização do itálico em uma destas colunas, diferenciando-a da outra coluna e do texto “normal”, reforçaria esta ideia. Contudo, devido à capacidade do Físico de transitar em diferentes espaços/tempos, devemos considerar a possibilidade de que as duas situações sejam reais, que tenham acontecido ou estejam acontecendo, possibilidades em diferentes realidades. Na verdade, o que julgamos ser sonho pode ser real, e o que julgamos real pode ser sonho.
O primeiro caso de narração paralela ocorre já no primeiro capítulo, quando o Físico encontra-se tomando sol no vale próximo ao castelo de D. Urraca e aparecem as treês damas do castelo. Na coluna da esquerda é narrada a aparição das damas; na coluna da direita, elas são descritas como se fossem deusas (ps. 30-31). Vale ressaltar a dualidade que ocorre entre esses dois episódios: enquanto, na primeira coluna, as damas são descritas de um modo casto e ficam surpresas e ligeiramente envergonhadas ao ver o Físico, na segunda coluna as deusas transbordam sensualidade. Elas vêm nuas, cabelos soltos, seios balançando. A tensão entre o pudor e o erótico é uma das características que permeia toda a obra.
O segundo caso ocorre quando D. Urraca narra ao Físico a situação que a levou a casar-se com D. Gundisalvo Matamoros. Novamente temos, nesta narração paralela, a tensão entre o casto e o erótico. Enquanto na coluna da esquerda D. Urraca narra uma relação casta com D. Gundisalvo, quase um relacionamento paternal, a coluna da esquerda está repleta de elementos eróticos, inclusive homossexualidade masculina e feminina (os. 72-75). As duas narrações são reflexos distintos de uma mesma situação.
O terceiro caso ocorre no capítulo XII, no final da novela. Narra o momento em que dois bandos distintos chegam simultaneamente a um castelo e a uma cidade, respectivamente. A narrativa refere-se a duas situações que ocorrem ao mesmo tempo, porém em espaços diferentes. Estes espaços, contudo, apresentam algumas similaridades, tais como um espaço vazio (um pátio, no castelo; uma praça, na cidade) e escombros. Esta narração paralela, contudo, não termina com o fim das colunas. Ela continua com o texto regular, com a alternância das duas narrativas, até que uma cantiga junta as duas.
Além disso, outro exemplo de narração paralela, porém de forma indireta, ocorre no capítulo II (os. 45-46), quando as três damas propõem várias histórias sobre a origem do Físico e ele não nega nenhuma das versões. Ao contrário, aceita a todas como verdadeiras quando afirma que “porque, tanto quanto sabia, elas estavam recordando sua própria vida. Tudo aquilo era verdade assim” (p. 46).
Longe de se contradizerem ou repelir-se, as histórias complementam-se, como se fossem reflexos em um espelho. Apenas reunindo-se as duas imagens é que teríamos uma imagem completa e complexa da realidade que elas representam.
A narração espiral consiste em repetir certos fragmentos da narrativa sem que estes fragmentos, de fato, se repitam. Em alguns situações observamos que o Físico volta no tempo e no espaço, nos levando de volta a momentos já acontecidos. Entretanto, o que observar é que, nesses casos, jamais os fatos narrados acontecem da mesma maneira que tinham ocorrido antes. Sempre há algo de diferente, quer seja na ação, quer seja no aspecto físico do local, ou ambos. O próprio Físico afirma que “nunca sai certo o momento a que se volta... Nunca... (p. 90).
Um dos exemplos disso seria quando o Físico tem o primeiro encontro sexual com o Demônio, no capítulo I. Nesse momento, o Físico “sofria aquilo como vexame inapelável que não o excitava, e nem sequer lhe dava horror ou repugnância (p. 27). Já no capítulo VI, após voltar no tempo, a situação modificou-se, como fica provado na seguinte passagem: “entregou-se ao Demônio, que fez dele o que quis [...] Quando aquilo acabou, levantou-se, sacudiu-se, passou as mãos pelo corpo sujo, e sentiu a volúpia de estar sujo assim” (p. 89).
O mesmo se dá com o uso de certas palavras, como tronco. Pode-se entendê-la tanto como sendo o tronco de uma árvore quanto sendo o tronco humano, refletindo uma mistura entre o elemento humano e a natureza. Isto nos leva ao ciclo da vida.
O mise en abyme, segundo o Dicionário de Narratologia, seria “a própria narrativa ou um dos seus aspectos significativos, como se no discurso se projectasse ‘em profundidade’ uma representação reduzida, ligeiramente alterada ou figurada da história em curso ou do seu desfecho”. Isto pode ser observado no capítulo I, quando o Físico está descansando no vale e as donzelas aproximam-se, cantando uma canção (os. 32-34). Esta canção funciona como uma micro-história embutida na novela, resumindo-a e, num deslocamento temporal, antecipando o seu desfecho. Estas duas histórias, interpondo-se e interpenetrando-se, narram a mesma coisa. Novamente temos, aí, um jogo de espelhos onde a canção representa um reflexo da novela. Da mesma forma que podemos observar os dois reflexos separadamente, a completude apenas se dá na junção de ambos.
Ainda em relação a essa duplicidade, a esse jogo de espelhos, também temos o cenário utilizado para a novela. Simbolicamente, a Idade Média – não tendo sido especificado o ano ou mesmo o século – seria uma transposição do período salazarista do século XX. O próprio Jorge de Sena nos dá uma pista sobre isto quando nos diz que “esta época, dando-me uma distância pseudo-histórica, permitia-me uma liberdade da imaginação em que o fantástico, com todas as implicações eróticas e revolucionárias como eu sentia ferver em mim na pessoa do Físico, podia ser usado para tudo” (p. 20).
A Idade Média representou, na história da humanidade, um período que ficou marcado pela opressão aplicada tanto pela nobreza quanto pela Igreja, esta se utilizando da temida instituição chamada de Santo Ofício, fato que vemos narrado na novela, quando o Físico, denunciado à Inquisição, é preso e torturado. No Portugal do período salazarista também temos a opressão a todos aqueles que se opunham ao regime, com prisões, torturas e mortes. Assim, apesar da distância espaço-temporal, temos aí uma grande similaridade entre os dois períodos, dois reflexos que se completam e se ajustam para contar uma história.
Ainda no campo do simbolismo, podemos associar a figura do Físico com a de outra figura mítica de Portugal, que é D. Sebastião. Miticamente, D. Sebastião é uma figura que, após ter desaparecido na batalha de Alcácer Quibir, ressurgirá para trazer Portugal de volta à sua glória. O Físico, o único capaz de curar D. Urraca de uma doença que a acomete há muito tempo, seria D. Sebastião, o único que poderia ‘curar’ Portugal, representado por D. Urraca, da ‘doença’ que o acometia há séculos – a submissão aos interesses e poderes estrangeiros, em contraste com a glória do período das grandes navegações –, bem como de uma doença mais recente – a opressão do regime salazarista.
Ou seja, teríamos aqui um perfeito jogo de espelhos, onde o espelho – e, por extensão, a própria literatura – reflete a imagem do mundo real, um reflexo deformado, mas ainda assim um reflexo.
A figura do Demônio, nesse caso, seria ainda mais emblemática. Ele não é o Demônio estigmatizado pela Igreja Católica como um ser votado exclusivamente a fazer o mal – e, contraditoriamente à sua função, castigando aqueles que praticam o mal. Ele, por meio de um pacto que fez com a madrinha do Físico, concede-lhe poderes em troca de favores sexuais, um elemento erótico que sugere um ato de perversão, segundo a época em que a história se passa, que é o homossexualismo. Além disso, o diabo está associado com a oposição ao ethos dominante, à rebeldia. O Físico Prodigioso é um “símbolo da liberdade e do amor” (p. 17), segundo o próprio Sena. Além disso, o mesmo Sena afirmou que “O Físico Prodigioso” é a sua obra mais autobiográfica. Nesse caso, o próprio Demônio seria um alter-ego de Sena, ambos não querendo nada do Físico, apenas que ele “viva, que ele vá pelo mundo com o seu poder, e que eu assista à sua eternidade” (p. 113). O Físico, assim como Sena, é um andarilho, um peregrinador. O Físico, o Demônio e o próprio Sena seriam os três o mesmo reflexo, ou reflexos de uma mesma coisa. Marcelo Pacheco, em uma tese sobre “O Físico Prodigioso”, traça um paralelo entre o conto “A Biblioteca de Babel” e o romance “O nome da rosa”, onde o mosteiro no qual se passa a história possui uma biblioteca no fundo da qual há um espelho, o que ocorre em “A Biblioteca de Babel”. Em “O Físico Prodigioso”, não encontramos uma biblioteca. Contudo, pelas várias influências que a novela apresenta, por sua intertextualidade, ela própria seria uma biblioteca. Jorge de Sena confessa que baseou sua novela em dois trechos retirados de “O Orto do Esposo”, um livro de exemplos do século XV; além dele, temos várias referências a passagens bíblicas – a própria Bíblia sendo vista como uma coleção de textos, uma minibiblioteca –, que vão de Adão e o Éden, retratado no Gênesis, até Jesus, retratado no Novo Testamento, e com quem o Físico tem paralelos evidentes; as novelas de cavalaria, principalmente com “D. Quixote”, de Cervantes – o Físico é alguém extremamente idealista, visto que não utiliza seus poderes para adquirir riqueza pessoal, assim como o Quixote – e, também, Jesus -, que não luta por riquezas materiais; “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde – quando o Físico envelhece, os monges da Inquisição passam a ter o seu rosto jovem; “O Fausto”, de Goethe; o mito de Narciso; as cantigas de amigo do trovadorismo português; “A máquina do tempo”, de H. G. Wells – assim como o Físico, quando o personagem consegue retornar ao passado, as situações desenrolam-se de maneira diferente, embora, em todas elas, sua noiva acabe morta. E, por que não dizer, o mito de Teseu e o Minotauro. “O Físico Prodigioso”, com suas voltas e retornos e espirais, seria ele próprio um labirinto a ser decifrado. Como a própria literatura.
Dessa forma, “O Físico Prodigioso”, além de travar um diálogo com outros textos, pode ser visto também como uma nova visão destes mesmos textos, uma reescritura de mitos e histórias já contadas, como dois espelhos de frente um para o outro, refletindo suas imagens infinitamente. A mesma imagem representando possibilidades infinitas – e, afinal, não é disso que trata a Literatura?
“O Físico Prodigioso” nos descortina um mundo vasto, tão vasto quanto o mundo percorrido pelo cavaleiro andante nas suas viagens em busca de aventuras. A cada nova leitura descobrimos algo novo, algum aspecto que antes havia passado despercebido. Assim como o Físico, que passou por transformações desde que chegou ao castelo de D. Urraca – descobrindo o amor carnal, descobrindo a dimensão dos seus poderes, enfim, se descobrindo –, nós também descobrimos novas situações e novas visões. Ou seja, lemos um texto que, ao mesmo tempo, é o mesmo texto e não o é. O Físico que chegou ao castelo de D. Urraca não era o mesmo Físico que foi preso pela Inquisição. Assim como ele, a cada releitura, não somos a mesma pessoa que leu o livro pela primeira vez. 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Maracá é nosso!!! – Nosso, de quem?


Na tarde do último Sábado, o Maracanã passou por um evento-teste. Foi realizado um jogo entre “Amigos do Ronaldo” X “Amigos do Bebeto” (leia-se, Amigos do Comitê Organizador da Copa ou, mais simplesmente, Amigos do Marin). O evento não foi aberto ao público, contando apenas com os operários que participaram da (re)construção do estádio, além dos seus familiares.
Antes do jogo, ouviu-se o indefectível “o Maraca é nosso”, gritado pelos já referidos operários e seus familiares. “O Maraca é nosso!!!”, gritaram os artistas que participaram do evento. Mas, ‘nosso’, de quem.
Desde antes da reforma já se havia acabado com a ‘geral’ do Maracanã, local onde se reuniam as pessoas que possuíam renda mais baixa e não tinham condições de pagar por uma arquibancada. Resumindo: a geral era o local dos ‘pobres’. Com a sua extinção, e o aumento nos preços dos ingressos, deu-se início a um processo de esvaziamento dos estádios (não só do Maracanã), ocasionado pela ‘elitização’ do público. Porém, um público ‘elitizado’ é o mesmo público que pode pagar por um canal pay-per-view e assistir aos jogos comodamente em casa, sem precisar ir ao estádio.
Além disso, com a privatização do Maracanã – ou, seria melhor dizer, com a eikização do Maracanã – o público de baixa renda será ainda mais afastado do estádio. Na Copa do Mundo, os ingressos mais baratos não deverão ter um preço inferior a mil reais (e isso para assistir a um ‘clássico’ entre Congo X Emirados Árabes Unidos, por exemplo), o que afastará as pessoas de baixa renda. Mesmo em jogos do Carioca e do Brasileirão, não é qualquer um que poderá desembolsar sessenta ou oitenta reais para assistir a um jogo. Assim, talvez essa seja a última vez em que esses operários entrem no Maracanã para assistir a um jogo (podem entrar, novamente, para realizar uma nova reforma).  
Será que o Maraca, realmente, ainda é nosso?
O que me admira, também, é ver tantos artistas (uma classe que sempre esteve atuante em vários momentos críticos da nossa História, como o período da Ditadura e o movimento das ‘Diretas Já’, por exemplo) participando deste evento e ainda gritando ‘slogans’, como o já citado “o Maraca é nosso”. Só faltou alguém gritar “Brasil: ame-o ou deixe-o”.
Nesse momento, nossos artistas deveriam questionar os bilhões de reais gastos na ‘reforma’ do estádio; questionar o legado que, dizem, ficará após a Copa; questionar a tão falada ‘mobilidade urbana’, que a gente não vê, de fato; questionar os elefantes brancos que estão sendo construídos; questionar a corrupção que grassa na nossa política e na CBF; questionar as relações do presidente da CBF com a ditadura militar.
Não é só o Maraca que está deixando de ser nosso. O futebol brasileiro está deixando de ser nosso para pertencer a uma organização que visa apenas obter lucro com jogos da seleção e dos campeonatos por ela patrocinados. O público brasileiro perdeu o vínculo que possuía com a seleção. E isso tudo se reflete nos públicos ridículos que vemos em campeonatos estaduais importantes e, até mesmo, no Campeonato Brasileiro.
Por sinal, houve uma manifestação próxima ao Maracanã, manifestação esta que foi reprimida com uso de gás lacrimogêneo por parte da polícia, segundo informações. Isso porque os governos municipal, estadual e, principalmente, federal, querem dar a impressão de que todos os brasileiros estão entusiasmadíssimos com a realização da Copa do Mundo no Brasil, e não estão preocupados com a farra que está sendo feita com o dinheiro público – o nosso dinheiro. E, de fato, a maioria da população não está.
Só lembrando que, quando anunciou que a Copa do Mundo seria no Brasil, o então presidente Lula disse que apenas as obras de mobilidade urbana seriam custeadas pelo governo, enquanto os estádios seriam todos bancados com dinheiro privado. Coisa que, obviamente, não aconteceu, e mesmo estádios particulares estão sendo bancados com dinheiro público.
O Maraca pode até não ser nosso. Mas o dinheiro é!       

terça-feira, 23 de abril de 2013

A importância da mitologia para a elaboração das culturas grega e romana


Os deuses gregos e latinos estão há muito desaparecidos, substituídos que foram pelo Deus cristão por ocasião da conversão do Imperador Constantino à religião cristã, então recentemente organizada. Embora, atualmente, façam parte apenas da imaginação e da literatura, utilizados como fonte de divertimento, exerceram grande papel na formação da cultura grega e, posteriormente, na construção da do povo romano que, ao conquistar parte do mundo conhecido à época, espalhou-a pelos vários povos dominados, formando a base da cultura ocidental contemporânea. Os deuses gregos constituíram a base do que hoje se conhece por ‘mitologia grega’, e surgiram em virtude da propensão do povo grego para a contemplação e da sua capacidade para o pensamento abstrato e filosófico. Decorre daí o fato de que foram os gregos os grandes influenciadores do pensamento filosófico e da ciência modernas.
A mitologia grega, ao invés de se constituir em uma religião, como a conhecemos atualmente, era mais uma forma de o povo grego justificar as mudanças e fenômenos para os quais não havia uma explicação plausível: por que chovia? O que era o relâmpago? Que estrondo era aquele que vinha do céu quando chovia? Na tentativa de explicar estes e outros fenômenos desconhecidos, os gregos criaram seres divinos, superiores aos homens, os quais decidiam o destino dos seres humanos e influenciavam as coisas que aconteciam na Terra. Por acreditarem firmemente na influência dos deuses sobre os destinos humanos, os gregos entremeavam fatos históricos com narrativas mitológicas, tornando difícil, atualmente, separar o que é fato do que é ficção. A célebre Guerra de Troia, por exemplo, é encarada por muitos historiadores como sendo mera ficção, uma simples narrativa literária, enquanto outros não descartam a sua ocorrência e, inclusive, acreditam terem encontrado indícios do que poderia ter sido a cidade de Troia em uma região que atualmente faz parte da costa turca.
Portanto, o mito exercia uma grande influência para o povo grego, pois era por meio do mito que eles conseguiam explicar fenômenos que, de outra forma, ficariam sem explicação. Para aqueles que consideram a mitologia grega fruto de um povo ignorante e atrasado, vale a pena lembrar que, mesmo nos dias atuais, com todo o conhecimento e tecnologia a nossa disposição, encontramos diversos tipos de superstição nos mais diferentes povos espalhados pelo globo.
Ao iniciar o seu domínio sobre os outros povos, no que se tornaria o grande Império Romano, uma das primeiras regiões a serem conquistadas foi a Magna Grécia, localizada no sul da atual Itália. Os romanos, então, utilizaram-se dos gregos cultos para exercerem diversas funções, entre elas a de professores. O contato com gregos cultos influenciou a cultura e a literatura romana. Porém, o que hoje é referido como mitologia greco-romana não existe. Na verdade, os romanos apossaram-se da mitologia grega e a adaptaram de acordo com sua própria visão de mundo, a qual diferia da visão grega.
Uma das coisas que devemos ter em mente quando estudamos as culturas grega e romana é que existia uma diferença básica entre elas: enquanto os gregos possuíam uma grande inclinação para o pensamento abstrato e despendiam muito tempo em contemplações filosóficas, os romanos eram um povo voltado para as coisas práticas do dia-a-dia. Essa diferença influiu na maneira de os romanos conceberem sua própria mitologia. Assim, enquanto os deuses gregos eram concebidos como seres reais, possuidores de uma personalidade individual e com histórias próprias, os romanos concebiam os deuses representando funções, em vez de serem concebidos como seres reais. Dessa forma, enquanto os gregos viam os deuses como causadores de fenômenos específicos – um raio surgia no céu porque havia sido lançado por Zeus, em sua fúria –, os romanos nomeavam o próprio fenômeno com o nome de uma divindade – Abundância ou Fortuna, por exemplo. Além disso, ao utilizarem a mitologia grega como modelo, os romanos realizaram algumas modificações, como a adoção de nomes romanos para as divindades gregas – Júpiter no lugar de Zeus e Mercúrio no lugar de Hermes, por exemplo –, bem como a utilização de características de divindades já pertencentes à cultura romana, incorporando-as às divindades gregas.
Com a expansão do Império Romano por praticamente toda a Europa, a mitologia desse povo incorporou-se à cultura dos povos por eles dominados, e acabou por influenciar estes povos, mesmo que eles não a adotassem de forma integral.
O próprio cristianismo, na figura da Igreja Católica que começava a se formar, adotou diversos elementos da cultura romana e os transfigurou em dogmas e convenções do cristianismo nascente.
Um exemplo disso são os ‘santos’ da religião católica. Na antiga cultura romana, cada casa tinha um local específico para cultuar seus ‘deuses protetores’, chamados de numes tutelares. Além disso, esses ‘numes’ também funcionavam como uma espécie de protetores das cidades, tais como os santos padroeiros atualmente. A Igreja Católica nascente apropriou-se dessa tradição utilizada pelos romanos e criou os ‘santos’ protetores de cidades (os chamados ‘padroeiros’) e ‘santos’ que funcionam para casos específicos (caso de São Cristóvão, santo protetor dos motoristas, e Santa Luzia, santa protetora dos olhos).
Os mitos que influenciaram as culturas grega e romana, direta ou indiretamente, também influenciaram e continuam influenciando a cultura ‘moderna’, influência esta que se estende ao direito, às línguas, a hábitos sociais, às artes etc.
O legado deixado por essas culturas influencia e continuará influenciando nossa sociedade por muito mais tempo.