quinta-feira, 20 de junho de 2013

Manifestação não é moda. Protestos têm que aparecer nas eleições

A onda de protestos que vêm sendo feitos pelo Brasil tem levado algumas pessoas a dizer que o povo brasileiro “acordou”. Realmente, o povo tem ido às ruas – nem sempre pacificamente, diga-se de passagem – para protestar contra várias arbitrariedades que são cometidas, todos os dias, contra o povo brasileiro. E, finalmente, o povo resolveu mostrar sua insatisfação.
Entretanto, antes de me ufanar e sair à rua marchando e gritando palavras de ordem, algumas considerações devem ser feitas.
Em primeiro lugar, protestos como esses deveriam ter sido feitos quando o Brasil resolveu se candidatar para ser sede da Copa do Mundo. Assim como hoje, naquela época tínhamos necessidades mais urgentes em várias áreas do que sediar o mundial da FIFA.  Porém, todos se uniram na torcida para que a Copa viesse para cá.
Em segundo lugar, protestos contra o aumento das passagens dos transportes são válidos, mas poderiam ser feitos mesmo sem a Copa das Confederações. Além disso, não estamos fazendo protestos apenas por isso, estamos protestando também contra os gastos excessivos feitos para a Copa. Agora é um pouco tarde para isso, já que o dinheiro gasto não vai retornar aos cofres públicos e nem os estádios que estão sendo construídos com dinheiro público passarão a ser construídos com recursos privados.
Em terceiro, não irá adiantar nada fazer todos estes protestos se, nas próximas eleições, votarmos nos mesmos candidatos que aí estão, sendo alvos dos protestos.
Parece que o país acordou. Só espero que não volte a dormir. Espero que se mantenha acordado até as eleições e resolva mostrar seu protesto nas urnas, mudando o cenário que aí está, começando por uma mudança de políticos. Não creio que, com novos políticos, o cenário seja muito diferente. Continuaremos a ter corrupção, a ter o nosso dinheiro mal gerido, a ter transporte, saúde e educação precárias. Mas, pelo menos, os políticos perceberão que o povo não irá tolerar mais esses abusos calado, e poderão até se preocupar em começar a fazer o que deveriam quando nós os colocamos no Poder: lutar por condições melhores para a população.
Essas manifestações não podem parar. Não precisamos ir para as ruas todos os dias para reclamar de alguma coisa, mas devemos manter este mesmo espírito até as eleições, levando os protestos para as urnas, mudando no voto este cenário atual, mostrando que o povo brasileiro, finalmente, acordou.        

     

terça-feira, 18 de junho de 2013

Polícia é truculenta, mas manifestantes nem sempre são “pacíficos”

A onda de protestos que têm ocorrido em várias cidades do Brasil, cujos manifestantes protestam contra aumentos de passagens nos transportes e sobre os gastos faraônicos que vêm ocorrendo por conta da Copa de 2014, é legítima. Se a Copa no Brasil irá deixar um legado, talvez seja o de ter servido para “acordar” o povo para os desmandos e excesso de corrupção que vêm ocorrendo no Brasil há muito tempo, mas que agora parece ter atingido um nível tão alto que o povo resolveu dar um basta. Sou a favor dos protestos pacíficos, e até postei um texto contra a truculência da polícia em algumas manifestações.
Porém, não podemos ficar apenas aplaudindo os manifestantes sem refletir sobre a situação que vem ocorrendo. Várias situações se apresentam, e nem sempre as pessoas conseguem perceber todas elas. E, em alguns casos, os manifestantes passam a ser marionetes de interesses que não conseguem perceber.
Uma das coisas que não podemos deixar de perceber é o caráter político destas manifestações “espontâneas” e “populares”. O grande número de bandeiras de partidos políticos é um indicativo de que, se não foram organizadas pelos partidos, estes, pelo menos, querem se aproveitar das manifestações para “aparecer”. As manifestações são o palco perfeito para que alguns partidos lancem as bases de suas futuras campanhas políticas. A violência policial, com certeza, será explorada à exaustão nas campanhas das próximas eleições.
Outro fato que salta aos olhos é o despreparo da nossa polícia para lidar com multidões. Protegidos por roupas especiais e utilizando armas, nossos policiais agem como verdadeiros “rambos”, ‘baixando o cacete’ em qualquer um que apareça na sua frente. Os policiais são treinados apenas para bater, não possuindo a mínima técnica para dispersar multidões sem que seja preciso ferir alguém. E são esses mesmos policiais que irão defender os turistas que virão para o Brasil, aos milhares, durante a Copa do Mundo.
Também não podemos deixar de falar sobre o comportamento dos nossos manifestantes. Reitero, aqui, que considero toda manifestação pacífica como sendo legítima. A população tem o direito de opinar e, já que não sabemos fazer isso nas urnas, tentamos fazer nas manifestações. Porém, é inegável que muitos dos manifestantes, sejam por quais motivos forem – defesa de interesses políticos e particulares ou simplesmente por puro vandalismo –, estão lá apenas para causar confusão. Várias manifestações que começaram pacificamente acabaram em violência. E, em muitos destes casos, a confusão começa por parte dos “manifestantes”, que tentam destruir o patrimônio público, invadir propriedades privadas ou prédios públicos, tentam iniciar saques ou começam a agredir pessoas e/ou policiais. E, quando a polícia lança gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral, os vândalos começam a posar de vítimas.
Estas manifestações, como tudo na vida, apresentam dois lados. Se temos, por um lado, um povo que começa a despertar para cobrar seus direitos e não mais aceitar o péssimo emprego do seu dinheiro e a corrupção que grassa no nosso país, temos, por outro, pessoas que querem apenas se aproveitar da situação para defender interesses particulares ou, simplesmente, querem apenas provocar violência impunemente.

Estas manifestações são legítimas, mas temos que tomar cuidado para que os protestos não descambem para a violência pura e simples e acabem perdendo o seu caráter reivindicatório. O povo tem que acordar – e não pode voltar a dormir –, mas não precisamos gerar mais violência do que já temos. E, também, esperamos que essa consciência que despertou não arrefeça, caso a seleção brasileira seja campeã da Copa das Confederações e/ou da Copa do Mundo.  

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Lamentável a atuação da polícia nos protestos. Ministro diz que não tem nada a declarar

A Copa do Mundo no Brasil é uma festa! Mas, festa pra quem? Para os que estão se locupletando com os gastos astronômicos e não muito bem explicados com construção e/ou reformas de estádios? Festa para os que tiveram suas propriedades, construídas durante anos de sacrifícios, desapropriadas para “melhorar o visual” do entorno dos estádios? Festa para a FIFA, que tornou-se “dona” das sedes da Copa das Confederações e que vai ganhar muito dinheiro com a Copa?
Em tempos de Copa do Mundo, nem todos estão “em festa”. Muitas pessoas estão passando por problemas trazidos pela Copa do Mundo, em virtude de algumas exigências absurdas da FIFA. Estamos vendo o nosso dinheiro ser mal empregado, enquanto continuamos convivendo com sérios problemas ‘crônicos’: educação de péssimo nível (apesar das propagandas afirmando o contrário); saúde precária; falta de segurança; transporte que, em alguns casos, nem pode ser qualificado como tal.
As pessoas que não se deixaram levar por todo esse “oba-oba”, conscientes dos problemas que, além de não serem resolvidos, em alguns casos irão piorar, resolveram fazer manifestações contra toda essa situação. Manifestações, a priori, pacíficas, embora, em alguns casos, algumas pessoas extrapolem e iniciem atos violentos. Não seremos ingênuos a ponto de negar isso. Para estas pessoas que exageram nas suas reivindicações, a polícia aparece para contê-las, evitando que se inicie uma batalha campal ou atos de vandalismo. Entretanto, o que temos observado é que a polícia, em muitos casos, é exatamente QUEM inicia o conflito.
A função da polícia, em tempos de “democracia”, não é a de coibir manifestações pacíficas – isto é prerrogativa de regimes autoritários –, e sim de manter estas manifestações dentro de certos limites, evitando vandalismo e violência, resguardando propriedades privadas que, em alguns casos, são depredadas e saqueadas. Caso não se verifique nenhum ato violento, a função da polícia é apenas a de acompanhar a manifestação sem interferir. Entretanto, na nossa “democracia tupiniquim”, a polícia já chega “baixando o cacete”, atacando pessoas que estão apenas exigindo seus direitos. A própria polícia é composta de pessoas que passam pelos mesmos problemas, mas acabam defendendo pessoas e instituições que as oprimem, tudo em troca de um salário minguado que, geralmente, mal lhes garante o sustento. É o oprimido defendendo o opressor. É o escravo lutando a favor da escravidão.
E, ainda por cima, quando foi questionado sobre a atitude da polícia na repressão às manifestações, nosso Ministro Aldo Rebelo disse não ter nada a declarar. A nossa presidente também não fala sobre o assunto. Será que é preciso que morra alguém para que nossas “autoridades” tenham algo a declarar? Será que estas mesmas autoridades não têm poder para impedir essa barbaridade que está sendo cometida contra nossa população? Por que a presidente Dilma aparece na abertura da Copa das Confederações, mas não vai dialogar com os manifestantes? Onde anda o ex-presidente Lula, que criticava essa mesma atitude da polícia quando era ordenada por outros presidentes, de partidos rivais? Por que ele se cala agora? Quando a polícia sufocava manifestações dos trabalhadores antes de Lula ser presidente, era repressão dos direitos democráticos; agora essa atitude virou “manutenção da ordem contra desordeiros“ que querem apenas desestabilizar o governo. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, já dizia Luís de Camões.
Um absurdo que se vê em tempos de Copa: em Minas Gerais, um juiz proibiu quaisquer manifestações em cidades mineiras em dias de jogos da Copa das Confederações – esquecendo-se que, em uma democracia, manifestações são um direito do cidadão. Nas cidades-sede, nos dias de jogos é declarado feriado para que o trânsito não fique congestionado e atrapalhe a ida ao estádio. Será este o tão propalado legado de mobilização urbana que veremos após a Copa? Se for, sempre que tiver um evento importante, é só declarar feriado na cidade.

Por que ninguém pensou nisso antes? 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Camões, Lusíadas e o pessimismo do “Velho do Restelo”

A confusão que reina na política brasileira atingiu proporções “épicas”, invocando até mesmo Luís de Camões, o maior poeta português, para a troca de insultos que geralmente ocorre entre os parlamentares.
Tentando rebater algumas críticas recebidas, a presidente Dilma Roussef resolveu apelar para o épico camoniano e chamou as pessoas que a criticam e ao seu governo de “Velho do Restelo”, personagem d’Os Lusíadas reconhecido pelo seu “pessimismo”. No épico de Camões, a figura do Velho do Restelo alerta Vasco da Gama e seus marujos sobre a sua ambição por glória e poder, prevendo o futuro desastroso e decadente que estava por vir. Por sinal, já virou um hábito da presidente rotular as pessoas que criticam os erros de seu governo como “pessimistas de plantão”.
Aécio Neves, senador pelo PSDB-MG, criticou a presidente dizendo que “não serão ataques fortuitos e fora do tom à oposição que vão permitir que a inflação volte ao controle. Muita serenidade nessa hora. Que a queda nas pesquisas não afete o humor da presidente. Ela tem que planejar o país, o que não foi feito até agora”.
O senador paulista Aloysio Nunes Ferreira, líder do PSDB, ironizou a presidente ao dizer que Dilma está “longe” de ser um Vasco da Gama, referindo-se ao navegador português, personagem do épico de Camões.
Porém, épica mesmo têm sido as confusões que vemos diariamente na política brasileira. A presidente Dilma, por exemplo, tenta nos passar uma imagem da Copa do Mundo como sendo “uma festa”, o que tem sido corroborado por algumas empresas que anunciarão seus produtos durante a Copa. Para “eles”, realmente será “uma festa”. Contudo, quando alguém questiona os abusos e desmandos que vêm ocorrendo durante a preparação para a Copa – estádios superfaturados, estádios inaugurados antes de terem suas obras finalizadas, etc. –, são tratados pela presidente como sendo “pessimista”.
Questionar o que vem sendo feito de “errado” no país, seja na preparação para a Copa ou não, não é pessimismo: é se importar com o péssimo emprego do nosso dinheiro, que poderia ser usado de forma mais eficiente em obras realmente importantes para a população. O famoso “legado” que os defensores da Copa dizem que ficará é algo totalmente incerto. Na África do Sul, muitos dos estádios que foram construídos para a Copa de 2010 estão, atualmente, praticamente sem uso, e já se fala até em demolir alguns deles, por terem uma manutenção cara e não apresentarem nenhuma utilidade prática. Em termos sociais, o ganho para o povo foi mínimo, não se observando obras de relevância para a melhoria das condições de vida da população. O país continua pobre, com uma educação e uma saúde deficitárias. O mesmo discurso utilizado para justificar a Copa da África do Sul está sendo repetido no Brasil e, provavelmente, veremos um pós-Copa igual ao que ocorreu no país africano. Ou alguém realmente acredita que o transporte, a saúde e a segurança, por exemplo, vão melhorar?

Nesta guerra de palavras entre os adversários políticos quem sai perdendo é o povo. Além disso, seria bom que a presidente Dilma se lembrasse que o Velho do Restelo, citado por ela, era um homem simples do povo, povo este que foi afetado pelas ações de Vasco da Gama e de outros navegadores portugueses. E seria bom que ela se lembrasse, também, que os vaticínios “pessimistas” feitos pelo Velho do Restelo se mostraram verdadeiros no futuro.         

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A seleção brasileira tem sido desrespeitada ou as outras seleções perderam o temor?

O zagueiro Thiago Silva e o técnico Felipão, em suas respectivas coletivas de imprensa, nesta semana, reclamaram da “falta de respeito” das outras seleções em relação à seleção brasileira. Thiago Silva chegou a dizer que o Brasil é o único que possui cinco títulos mundiais. Felipão seguiu, mais ou menos, essa mesma linha.
Porém, o que as outras seleções perderam não foi o respeito pelo Brasil. Em todas as seleções, os jogadores falam que querem enfrentar o Brasil e sempre citam que somos uma grande seleção, com grandes jogadores. O que aconteceu foi que as seleções perderam o temor que sentiam quando enfrentavam a seleção brasileira antigamente. Realmente, quando se enfrentava jogadores do porte de Pelé, Garrincha, Jairzinho, Gérson, Rivelino, Zico, Falcão, Sócrates etc., jogando um futebol de qualidade, era uma seleção que impunha respeito pela qualidade dos jogadores. Atualmente, porém, mesmo tendo jogadores habilidosos individualmente, a seleção brasileira não tem apresentado um jogo que empolgue nem mesmo seus torcedores. Tudo bem, vencemos a seleção francesa por 3X0. Mas não podemos esquecer que a França jogou sem alguns de seus principais jogadores, como Ribéry, e que perdeu, há alguns dias, para a seleção uruguaia que, diga-se de passagem, não vai tão bem assim nas Eliminatórias sul-americanas.
Na atual seleção não possuímos um craque que se destaque, como antigamente tínhamos. O maior craque é Neymar, mas este não tem apresentando um bom futebol, ultimamente. Logo que entrou na seleção, convocado pelo técnico Mano Menezes, Neymar chegou a ter boas atuações, mas nada espetacular, como fazia no Santos. Hoje, Neymar tem tido atuações discretas e só tem jogado pelo nome que construiu e, provavelmente, por interesses, externos ao futebol, que envolvem o seu nome.
Além disso, a poucos meses do Mundial, o Brasil ainda não tem um time definido, nem em relação a jogadores e nem a esquema tático. Felipão ainda está fazendo testes no elenco, e esta Copa das Confederações servirá para que ele possa tentar definir time e esquema que utilizará na Copa do Mundo (supondo que ele irá continuar como técnico até a Copa do Mundo).
O único setor que parece estar definido é a defesa. David Luiz, Thiago Silva e Dante parecem ter garantido seu lugar para a Copa do Mundo. Não são jogadores excepcionais, mas são os que têm apresentado um futebol um pouco melhor. Marcelo, na lateral-esquerda, e Daniel Alves, na direita, também se firmaram como nomes certos. Ambos apresentam um bom futebol ofensivo, mas demonstram muitas fragilidades defensivas. Se não tiverem uma boa cobertura dos volantes, o Brasil pode apresentar algumas complicações defensivas.
No gol, Júlio César ainda não reconquistou a confiança dos torcedores, mas está bem evidente que é o titular de Felipão. Na minha opinião, os goleiros deveriam ser Jefferson (Botafogo), Diego Cavalieri (Fluminense) e Fábio (Cruzeiro), mas Júlio César é um goleiro experiente e pode se recuperar da falha na Copa do Mundo da África do Sul.
Do meio-campo para frente, Felipão ainda está testando jogadores tentando encontrar a formação ideal. Tirando Neymar que, mesmo não jogando bem, é intocável, os outros estão brigando pelas vagas e ninguém está garantido. Entre os volantes, Felipão demonstra sua preferência pelo tipo “brucutu”, em detrimento de volantes que sabem sair jogando. Mas tem convocado Paulinho e Hernanes, o que prova que poderá armar um esquema mais ofensivo, com volantes que servirão como válvula de escape caso os meias estejam bem marcados. Nas outras posições, as brigas estão em aberto.
Ou seja, às vésperas de um torneio oficial – a Copa das Confederações –, o Brasil ainda não encontrou o time titular, enquanto as outras seleções já vêm com sua base formada há algum tempo.
O que fica bem evidente é que o Brasil está um nível abaixo de seleções como Espanha, Argentina e Alemanha, por exemplo, e não estamos muito melhores que Itália, Inglaterra e França. Sem contar as surpresas, como a Bélgica, que vem apresentando um bom futebol com uma nova safra de jogadores muito bons, e que promete surpreender.
O fato é que não temos uma seleção de grandes jogadores, individualmente falando, e que não vem apresentando um bom futebol coletivo. O Brasil deixou de meter medo em outras seleções que antes nos respeitavam mais. Isso não representa um desrespeito ao Brasil como país, mas está bem claro que ninguém mais tem medo do futebol apresentado pela seleção brasileira.
Possuímos cinco títulos mundiais, sim, mas alguém devia dizer ao Thiago Silva que quem vive de passado é museu. O que interessa, agora, não é o que fizemos no passado, mas o que estamos fazendo no presente. E, no presente, o que temos feito não mete medo em ninguém.

Nota: Ronaldo Fenômeno, dando uma de comentarista após o jogo, disse que o Brasil está pronto para enfrentar qualquer seleção do mundo.
Calma, Ronaldo! Você como comentarista é um ótimo garoto-propaganda. O Brasil ainda está longe de poder enfrentar, mano a mano, as melhores seleções do planeta, mais entrosadas, com times praticamente prontos e jogando futebol, coisa que o Brasil não tem conseguido fazer.

Vale lembrar que Ronaldo é pago pela CBF para defender os interesses da manda-chuva do futebol brasileiro, e é exatamente isso o que ele está tentando fazer com declarações como essa.               

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O ufanismo da imprensa esportiva

A Copa do Mundo no Brasil tem mexido com muita gente, principalmente aquelas que irão ganhar muito dinheiro com a realização da Copa em terras tupiniquins – empreiteiras, políticos, televisão, ex-jogadores etc. Para que possamos realizar “a melhor Copa de todos os tempos”, conforme alguns apregoam, foram tomadas várias providências: construção de novos estádios, reformulação de estádios antigos, realização de obras de ‘mobilidade urbana’ etc.
Quanto a esta última, talvez seja o que menos se tem visto. E algumas das ditas obras têm prejudicado uma grande parte dos brasileiros, curiosamente, aqueles que não terão a oportunidade de participar da “festa” que será a realização da Copa no Brasil. Muitas famílias tiveram suas casas desapropriadas para a duplicação de estradas, por exemplo, casas estas que haviam sido construídas com muito sacrifício, durante muitos anos. Agora estas pessoas não têm onde ficar, tudo para facilitar o deslocamento dos turistas que visitarem o nosso país. Ou seja: aqueles que ficarão à parte da festa da Copa do Mundo são aqueles que pagam o preço mais alto.
Quanto aos estádios, praticamente tem sido a única coisa que realmente tem mobilizado o Governo brasileiro. Inicialmente, quando foi anunciado que o Brasil sediaria o Mundial de 2014, o então presidente Lula afirmou, peremptoriamente, que os estádios seriam construídos exclusivamente com capital privado. Ao Governo caberia realizar as obras de mobilidade urbana. Resultado: todos os estádios, mesmo os particulares, têm recebido dinheiro público na sua construção.
Outro ponto em relação aos estádios: todos acabaram custando muito mais do que o previsto no orçamento inicial. Sem contar que as sedes da Copa foram escolhidas por questões políticas, com a questão futebolística figurando em segundo plano, se é que figurou.
O pior é que, com raras exceções, não vemos os nossos membros da imprensa esportiva tocando nesses assuntos. A própria presidente Dilma chama quem questiona esses desmandos de “os pessimistas de plantão”. A maioria insiste em louvar as maravilhas que ficaram os nossos estádios após a reforma e/ou construção, sem questionar porque os valores aumentaram tanto em relação aos valores apontados inicialmente; não questionam as inaugurações que são feitas com os estádios ainda inacabados, apenas para o governo poder dizer que cumpriu com os prazos estabelecidos (e, mesmo assim, não cumpriu); não questionam os aumentos nos preços dos ingressos, o que tira as pessoas de baixa renda dos estádios – e, na realidade, sempre foram as pessoas de baixa renda que formaram a torcida do futebol –; entre outras coisas.
Atualmente, vemos nos estádios muitas pessoas que não têm afinidade com o futebol. Estamos formando “torcidas de vôlei”, um público que mais parece espectadores de uma ópera ou balé. Sou a favor de que o público seja educado, não deprede os estádios e nem fique jogando objetos no campo, mas não podemos cercear aquela alegria que víamos na “geral” do Maracanã. O público de hoje é um público apático, que só se anima quando a câmera “passeia” pelo estádio e eles se veem no telão. Os famosos “geraldinos” eram um público que participava do jogo, incentivando e cobrando seus times, além de procurar atrapalhar e desconcentrar os adversários. O que a FIFA precisa entender é que o torcedor de futebol não precisa – e não deve – ter o mesmo comportamento de um espectador de música de câmara. Em um período em que se apregoa a valorização das ‘diversidades’, a FIFA parece querer criar um público uniforme, desrespeitando valores locais.
A imprensa brasileira, que tanto lutou na época da ditadura militar – período em que se procurou abafar a voz da imprensa – para informar o público dos abusos que eram cometidos, agora torna-se conivente com o que vem sendo praticado no “país da Copa”.
Parece que os ares de suposta liberdade que vieram após o período da ditadura não fizeram bem à nossa imprensa. Ou, quem sabe, a ditadura não tenha realmente acabado. Apenas mudou de forma. 

terça-feira, 28 de maio de 2013

Roland Barthes e a morte do autor


Ainda hoje vê-se críticos, autores e estudiosos da Teoria Literária às voltas com uma pergunta que, à primeira vista, parece simples, mas que mostra-se de difícil resposta ao se refletir sobre ela: o que é Literatura? Esse questionamento gera outras perguntas, tais como: que tipo de texto pode ser considerado literário? Qual o papel do autor? Qual o papel do leitor? São muitas as perguntas e seria preciso escrever um livro apenas para se discutir algumas delas – discutir, não necessariamente esclarecê-las. Portanto, decidi deter-me em uma questão que considero fundamental e central da literatura: a figura do autor. Para isso, voltamos a uma das perguntas feitas acima: qual o papel do autor?
Muitos estudiosos importantes debruçaram-se sobre essa questão, gerando as mais diversas teorias. Foucault, Barthes, Bakhtin e Eagleton são apenas alguns deles. Questionaram, por exemplo, quem seria o sujeito mais importante do ato literário: o autor ou o leitor? Livros são escritos para serem lidos e só são lidos porque foram escritos. Esse cabo-de-guerra gerou inúmeras teorias e discussões que tentaram esclarecer essa questão. Em meados da década de setenta do século passado, Roland Barthes surgiu com uma teoria que gerou uma polêmica que dura até hoje nos círculos literários e acadêmicos: ele propôs a morte do autor.
Como sempre ocorre, essa teoria dividiu críticos e teóricos em dois campos radicalmente opostos e que nem sempre entenderam os conceitos elaborados por Barthes. Afinal, o que seria a morte do autor? Seria negar ao autor sua importância em relação ao texto? Alguns defensores desta ideia podem se apegar às palavras do próprio Barthes quando ele diz que o ato de escrever faz o autor e não o contrário, já que o autor sofreria influências do contexto social e histórico no qual estaria inserido. Ou poderiam se basear novamente em Barthes quando ele diz que a linguagem sofre a influência do Poder, que a tudo permeia e do qual nada nem ninguém escapa. A língua, assim, seria uma expressão do Poder. Ou seja, o autor não usaria a linguagem, ao contrário, seria usado por ela.
Creio que, entender dessa forma o conceito de “morte do autor” emitido por Barthes não passa de uma simplificação de suas ideias. Na verdade, um texto só existe de fato no momento em que está sendo escrito ou no momento em que está sendo lido. Dessa forma, ambos – autor e leitor – seriam “produtores do texto”.
Outros argumentam que, ao ser publicado, o texto como que se desvincula do autor, o autor perde seu poder sobre ele. Conforme Foucault, o autor, em relação ao texto, seria exterior e anterior, pelo menos em aparência. De certa forma, isso é verdade: um texto, muitas vezes, foge ao controle do autor. Gera tantas interpretações quantos leitores o leiam; seus personagens, às vezes, acabam se tornando mais conhecidos que os seus criadores (veja-se o caso de “Drácula”, de Bram Stoker); seus textos servem de inspiração para obras que neles se baseiam (é o caso de “Amor de Capitu”, de Fernando Sabino, inspirado na obra de Machado de Assis, “Dom Casmurro”, ou do livro “Sexta-Feira ou os limbos do Pacífico”, de Michel Tournier, baseado em “Robinson Crusoé”). Porém, podemos nos perguntar se o autor perdeu realmente o poder sobre sua obra ou sobre as ideias que expôs. No caso do livro de Michel Tournier, citado acima, o que o autor fez foi abordar uma outra faceta da história, no caso, uma possível relação homossexual entre Crusoé e o índio Sexta-Feira. “Robinson Crusoé” permanece intocado em sua essência, o que se fez foi expandir suas possibilidades narrativas. Isso sem contar que depende do autor possíveis alterações, revisões ou até mesmo autores que renegam certas obras por considerá-las “menores” no conjunto da sua obra. Essa é uma prerrogativa exclusiva do autor. Esses argumentos podem ser reforçados pelas palavras do próprio Barthes quando ele define o leitor “não como um indivíduo personalizado, como certa crítica literária vê o autor. É, antes, um lugar, não preenchido por um ser individual, o espaço da unidade do texto, unidade que não é conseguida pelo lado do autor, mas pelo do leitor”.
Mesmo que o autor não dê ao texto nenhum sentido prévio que possa orientar a leitura, não se vê porque “o leitor – que, como o autor, também deveria ter sido atingido pela ‘crise do sujeito’ – não é afetado pela mesma suspeição com que aquele é visto”, conforme diz Rosa Maria Goulart. Se, conforme Barthes, “a linguagem conhece um ‘sujeito’, não uma ‘pessoa’”, autor e leitor seriam sujeitos do texto, assim como o próprio personagem, que reflete a ‘voz’ do autor, mas que não deixa de ter sua voz própria.
Entendo a “morte do autor”, proposta por Barthes, não como uma morte literal, como muitos acreditam, e sim como um deslocamento desse autor, uma tentativa de fuga da própria linguagem, ao mesmo tempo em que tenta trazer o leitor para sua obra, fazê-lo participar dela, ambos sendo autor e personagem de uma história várias vezes reescrita, ao mesmo tempo em que é imutável. A Literatura é esse elo entre os dois polos. Como já disse um autor, escrever (e ler) é, antes de tudo, exorcizar demônios.