sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Tensão racial, demagogia e Candomblé “politicamente incorreto”



Notícias no twitter: @sebo_cultural64




O nível de tensão racial que estamos atingindo, que teve início com as quotas para negros e continuou com os exageros do “politicamente correto”, acabará em confronto entre brancos e negros, nas ruas, como acontecia nos Estados Unidos, quando o grupo racista Ku Klux Klan enfrentava grupos de negros e membros dos Panteras Negras? Os negros, antes oprimidos, agora valem-se do ‘politicamente correto’ para oprimir os brancos, impondo palavras e termos considerados ‘apropriados’.
É claro que no Brasil sempre houve racismo. Negros eram tratados de maneira vergonhosa, muitas vezes proibidos de entrarem em determinados lugares, “exclusivos” para o uso de brancos. Graças aos esforços de grupos de Direitos Humanos, Ordem dos Advogados, lideranças negras etc., essa vergonha começou a ser banida e os negros começaram a ocupar o seu devido lugar na sociedade, passando a ter os mesmos direitos que qualquer outro cidadão.
Porém, os exageros que começaram a surgir e que estão se transformando em uma “ditadura das minorias” – que, muitas vezes, nem são “minorias” –, que nos proíbem de falar certas palavras simplesmente porque alguns imbecis enxergam racismo e preconceito em tudo, estão começando a criar uma onda de racismo até mesmo em pessoas que antes não o tinham. E o pior é que esse racismo é de mão dupla: dos brancos em relação aos negros e dos negros em relação aos brancos.  
E as pessoas não percebem que isso tudo não passa de uma manipulação dos nossos governantes e de políticos que não estão interessados em resolver, de fato, o problema, mas sim de dar a impressão de que querem fazê-lo.
O caso das famigeradas “cotas”, por exemplo. Por quê criar cotas?
A ideia de se criar cotas surgiu com a constatação de que negros e pobres não tinham a mesma chance que brancos e ricos – geralmente, brancos ricos. Assim, a cota daria essa chance às minorias – embora, no Brasil, nem negros nem pobres sejam minorias.
Muito justo, não é mesmo? Não, não é nada justo! O que, de fato, o governo deveria fazer, seria dar mais qualidade à educação pública. Se fizesse isso, os negros e pobres, e, principalmente, os negros pobres, teriam mais condições de competir com alunos de escolas particulares. Porém, para não mexer em vícios e mordomias já enraizadas na educação pública, o governo preferiu criar cotas que não adiantam muita coisa. Você pode colocar um negro na Universidade, porém, sem preparo, ele não conseguirá acompanhar o ritmo dos estudos e acabará desistindo. Afinal, por que o governo divulga o número de negros que entram nas faculdades devido às cotas, mas nunca divulga o número dos que se formaram? Porque, nesse caso, veríamos a discrepância e a ineficiência dessa medida demagógica.
O problema do racismo é uma questão cultural e não serão leis que irão extingui-lo. As leis irão, apenas, escondê-lo. Devido às leis, ninguém poderá se manifestar de maneira racista, mas poderá pensar de maneira racista.
A única coisa que irá acabar com o racismo contra negros e outras raças; contra o preconceito contra homossexuais, mulheres e idosos; contra a violência doméstica e infantil, é uma educação eficiente, que faça o indivíduo pensar, refletir e perceber a imbecilidade e a inutilidade de ser racista, preconceituoso ou violento.
Investir em educação, e não em medidas demagógicas, é a única solução para que possamos resolver esses problemas que, infelizmente, ainda existem e, em alguns casos, estão até mesmo se intensificando.
Só falta os defensores do “politicamente correto” dizerem que o candomblé é racista e preconceituoso por chamar sua entidade de “preto velho”. O correto seria chamá-la de “afrodescendente da terceira idade”. 

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Por que esconder o rosto durante os protestos?



Notícias no twitter: @sebo_cultural64


Um fato que vem causando muita discussão e polêmica tem sido a questão de não se permitir pessoas mascaradas durante protestos e manifestações. Segundo orientações, a polícia poderá abordar e pedir um documento de identificação de pessoas mascaradas e, até mesmo, detê-las. Diante disso, várias pessoas se mostraram revoltadas.
Porém, uma pergunta que se poderá fazer é: se as manifestações são um direito legítimo do cidadão, por que esconder o rosto durante protestos e manifestações?
Em um dos últimos atos de vandalismo que assisti pela televisão, vi várias pessoas com o rosto coberto causando depredações e saques, enquanto as que estavam com o rosto descoberto claramente pretendiam, apenas, continuar com o seu protesto.
O que fica bem evidente é que pessoas que se infiltram nas manifestações com a única intenção de realizar violências, depredações e saques, têm o interesse de não serem identificadas e, daí, cobrem seu rosto para dificultar qualquer identificação.
As pessoas que pretendem apenas exercer o seu legítimo direito de protestar contra algo que consideram errado, não se preocupam em cobrir seus rostos. Ao contrário, sentem-se orgulhosas em mostrar a “cara”, mostrar o seu descontentamento contra determinada situação. Normalmente, são os bandidos que cobrem o rosto para realizar seus atos de violência sem serem identificados.
As pessoas que organizam as manifestações pacíficas deveriam exigir que todos os participantes mostrem o seu rosto, proibindo elementos que insistam em participar com o rosto coberto. Os atos de violência, geralmente, prejudicam a própria manifestação, dando-lhe uma característica de uma simples bagunça, ao invés da justa reivindicação que elas almejam.
Manifestações são um direito de qualquer cidadão, mas acho que já é o momento de nos rebelarmos contra a violência – inclusive, já ocorreram várias manifestações contra a violência. Se a manifestação é um justo direito do cidadão, por que cobrir o rosto?
Por acaso, você já viu alguém cobrir o rosto ao ir votar?   

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

É correto chamar alguém de afrodescendente?

Atualmente, vemos uma nova “moda” crescendo no mundo inteiro e nos obrigando a ter certos tipos de comportamentos e a dizer ou não dizer certas palavras. É a ditadura do politicamente correto.  
Uma dessas palavras é negro. Mesmo que estejamos nos referindo a uma pessoa negra – e lembrando que a palavra “negro” refere-se a uma raça -, somos obrigados a utilizar a palavra afrodescendente, sob o risco de sermos chamados de racistas.
Mas, afinal, é correto chamar um negro de afrodescendente?
Afrodescendente seria uma palavra a ser empregada a todos aqueles cuja origem remonta à África. E, aí, vale algumas ponderações.
Segundo a ciência, o ser humano nasceu no continente africano. Este seria o berço da raça humana. Foi de lá que todos nós viemos. Assim, independente de sermos brancos ou negros, todos os seres humanos seriam considerados afro-descendentes.
Outra situação seria o caso de um descendente de egípcios. Como o Egito fica na África, um homem branco, descendente de egípcios brancos, seria, também, afrodescendente.
E o descendente de europeus? Ao invés de ser chamado de “branco” ou “caucasiano”, não seria mais ‘politicamente correto’ ser chamado de eurodescendente?
E o candomblé, como fica? É notória, nesta religião africana, a figura do famoso “preto velho”. Neste caso, temos duas palavras “politicamente incorretas”: “preto” e “velho”. Como chamaríamos esta figura, então? “Afrodescendente da terceira idade”?
Só lembrando: branco e preto referem-se à cor da pessoa; caucasiano e negro referem-se à raça. Chamar alguém de preto é apenas designar a sua cor, assim como chamar alguém de branco.
Quem for racista, continuará a sê-lo mesmo que passe a utilizar ‘afrodescendente’, em lugar de ‘preto’ ou ‘negro’. Não são as palavras que tornam alguém racista ou não.         

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O que significa ser “intolerante”?

Notícias no twitter: @sebo_cultural64


Tenho ouvido algumas pessoas criticarem outras, principalmente na imprensa, tachando-as de “intolerantes”. Para isso, baseiam-se em comentários considerados homofóbicos, racistas e por aí vai. Se alguém faz um comentário considerado “antigay”, como foi o caso da atleta russa de salto com vara, Isenbayeva, é logo tachada de intolerante, homofóbica etc.
Mas, afinal, o que é ser intolerante?
Segundo o Dicionário Houaiss, intolerância é a “tendência a não suportar ou condenar o que desagrada nas opiniões, atitudes etc. alheias”. Ou seja, é não aceitar as “diferenças”, mesmo que não se concorde com elas. Ressalte-se isto: ser “intolerante” não é discordar de uma determinada opinião; é não aceitar uma opinião divergente. Ou seja, um indivíduo pode ser ateu, mas pode – e deve – respeitar as pessoas que são religiosas. Isso não quer dizer que ele não possa dar sua opinião contrária às religiões, mas sempre respeitando a opinião daqueles que acreditam em Deus.
O mesmo se aplica aos homossexuais, por exemplo. Uma pessoa pode não concordar com o homossexualismo, mas deve respeitar aqueles que optam – não sei nem se “optar” seria o termo mais adequado – por esta prática. Ele pode não concordar, mas deve respeitar uma opinião divergente. Caso não faça isso, estará sendo intolerante.
Aonde eu quero chegar é que, pessoas que “criticam” outras por considerá-las intolerantes, acabam se tornando intolerantes, também. Elas não aceitam que outras pessoas tenham uma opinião divergente da sua, querem que todos se adaptem à manada, que externem o pensamento “da moda”.
Atualmente, há uma espécie de apelo para que se respeitem as diferenças. Entretanto, o que vemos são pessoas que não respeitam aqueles que pensam diferente, tachando-os de racistas, homofóbicos, machistas, reacionários etc.
O que temos que compreender é o que os discursos – e, no final, tudo se resume a discursos disseminados ao longo do tempo – contra homossexuais e negros, por exemplo, são frutos de um comportamento histórico que não será mudado apenas com Leis, mas sim com a conscientização das pessoas. E, aí, entra o papel da educação, tão negligenciada ao logo do tempo.
No caso dos jogos na Rússia, muitos já falam até mesmo em boicote devido às leis antigays do país. Imposições não vão levar a nada. Um país não vai mudar seus hábitos devido a imposições externas.
O que as pessoas deviam fazer é perceber que os seus discursos contra a intolerância estão “carregados” de intolerância. O que é um contra-senso. Não posso defender a eliminação da intolerância sendo intolerante; não posso defender a liberdade sendo autoritário. Afinal, o autoritarismo também é uma forma de intolerância.
  

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Por que, para as pessoas religiosas, só temos livre arbítrio para fazer bobagens?

Notícias no twitter: @sebo_cultural64


Recebo, pelas redes sociais, várias postagens que transmitem mensagens religiosas, das mais diversas denominações. Até aí, tudo bem. A liberdade de pensamento e, principalmente, a diferença de pensamentos nos ajuda a formar as nossas próprias opiniões, às vezes nos auxiliando a entender assuntos sobre os quais não temos muito conhecimento.
Porém, algo que não pude deixar de notar é a semelhança de pensamento constante nestas mensagens, mesmo quando as pessoas defendem posições religiosas contrárias. Uma delas parece fazer de nós marionetes nas mãos de Deus, já que este define, antecipadamente, tudo que irá acontecer na nossa vida – os muçulmanos, por exemplo, acreditam nisto. Porém, muitas pessoas nos consideram como marionetes quando o que nos acontece é bom. Quando o que nos acontece é ruim, a culpa é nossa.
Vemos isso o tempo todo. Pessoas que vão às igrejas para pedir um emprego, por exemplo, fazem promessas aos santos – nos caso dos católicos – ou pedem diretamente a Jesus – no caso dos evangélicos. E, então, quando a pessoa consegue o emprego, aparece alguém e diz que ele só conseguiu o trabalho porque Deus fez esta “graça” na vida dele. Ou o santo/santa foi o/a responsável por ele ter conseguido o trabalho. Ou seja, o mérito não é da pessoa, e sim daquele para quem ele pediu a graça.
Entretanto, quando a pessoa, depois de muito rezar, orar, pedir, implorar, fazer novenas e promessas, não consegue o emprego, aparece alguém e diz que ele não conseguiu porque não possui merecimento aos olhos de Deus. Ou seja, a culpa por não ter conseguido o emprego é da própria pessoa.
As religiões vêm fazendo isso com as pessoas há muito tempo. Tiram todos os méritos de suas ações, ao mesmo tempo que as fazem se sentir culpadas por suas falhas. Se consigo algo, foi Deus quem deu para mim; se não consigo, a culpa é minha.
Será que as coisas funcionam dessa forma ou, na verdade, somos marionetes, sim, mas não nas mãos de Deus, e sim nas mãos de líderes religiosos que nos manipulam para conseguiram vantagens pessoais e materiais – apesar de pregarem o desapego às coisas materiais para o seu “rebanho”?
E isso ocorre porque as pessoas não se dão o trabalho de “pensar”, mas aceitam passivamente tudo o que os líderes religiosos lhes dizem – mesmo que não façam o menor sentido.


Se somos marionetes nas mãos de Deus ou se temos livre arbítrio para tomarmos nossas próprias decisões, não temos como saber. Mas tenho certeza de que, qualquer que seja a situação, ela vale tanto para nossos acertos quanto para nossos erros.    

sábado, 3 de agosto de 2013

Estado não sabe administrar estádios; Consórcios também não

Notícias no Twitter: @sebo_cultural64

A preparação do Brasil para a Copa do Mundo tem trazido algumas novidades e algumas polêmicas: aumento no preço dos ingressos, o que leva a uma elitização das torcidas; proibições absurdas, como a de o torcedor não poder tirar a camisa durante os jogos (na Europa, mesmo no inverno, vemos torcedores sem camisa); proibição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios; e por aí vai.
Uma das novidades foi a privatização dos estádios outrora públicos, tais como o Mineirão e o Maracanã. O argumento utilizado foi o de que o Estado não sabe gerir estádios de futebol, e que estes seriam melhor administrados pela iniciativa privada. Na prática, porém, não é isso que temos presenciado.
Na final da Libertadores, por exemplo, tivemos uma total desorganização por parte do Consórcio que administra o Mineirão. Filas imensas, ingressos nas mãos de cambistas, preços elevados, falta de policiamento e confusão na hora de entrar no estádio. Resultado: torcedores furaram a fila, pularam cercas e quebraram catracas. Muitos torcedores, que pagaram R$ 500,00 por um ingresso, acabaram não conseguindo entrar no estádio, enquanto outros assistiram ao jogo sem pagar.
No jogo entre Fluminense X Cruzeiro, no Rio de Janeiro, a situação não foi muito diferente da que ocorreu em Minas. Apesar de o público ser bem menor que o do jogo do Atlético-MG pela Libertadores, formaram-se filas quilométricas na hora de entrar no Maracanã e muita gente teve dificuldade em comprar ingresso na hora ou trocar ingressos comprados pela Internet. O mesmo ocorreu um dia depois, no jogo Botafogo X Vitória. Ou seja: os Consórcios não estão preparados para administrar jogos que tenham público acima de 10.000 torcedores.
Além disso, várias promessas que foram feitas não foram cumpridas. Uma delas foi a de “mobilidade urbana”. Por “mobilidade urbana” pensou-se que seriam feitas obras que melhorassem o fluxo do trânsito, evitando engarrafamentos. Várias pessoas tiveram suas casas desapropriadas para que pudessem ser feitas obras da tal mobilidade urbana. E o que acontece quando tem jogo? O governo pede que as pessoas vão para o estádio de ônibus ou metrô, para não causar engarrafamentos. Ruas próximas aos estádios são fechadas para desencorajar torcedores mais teimosos que insistam em ir no seu próprio carro. Cadê a tão propalada “mobilidade urbana”? O que melhorou no trânsito? De que adiantaram as desapropriações?
Pelo o que temos visto, não são apenas estádios que o governo não sabe administrar. O governo não sabe é ADMINISTRAR! E as privatizações não têm adiantado muita coisa. O Maracanã, por exemplo, custou cerca de 1 bilhão e 200 milhões de reais (dinheiro que dava para construir um excelente estádio do zero, mas que foi gasto apenas na “reforma” do Maracanã), mas foi repassado ao Consórcio por 700 milhões. 500 milhões do nosso dinheiro ficaram pelo caminho. E para quê? Para termos um estádio que, em termos de atendimento, está pior do que era antes.
O estádio está lindo, está confortável, ninguém mais é obrigado a assistir aos jogos em pé ou sentado em um bloco de cimento desconfortável. Porém, o torcedor tem dificuldade para chegar ao estádio, é obrigado a enfrentar filas imensas e, muitas vezes, não consegue o ingresso ou só o consegue quando o jogo já está pela metade. O torcedor paga o preço total do ingresso e só assiste a meio jogo.
Os estádios são de primeiro mundo, e os preços dos ingressos também. Mas o atendimento continua sendo de terceiro mundo, de país subdesenvolvido. E, enquanto isso, o nosso futebol vai caindo pelas tabelas, agonizando e respirando por aparelhos.

Vamos ver se estas cenas irão se repetir no jogo Vasco X Botafogo.               

domingo, 28 de julho de 2013

Marcel Duchamp: quando um mictório vira “arte”



Mesmo as pessoas que não são estudiosas da “arte” já ouviram falar do ato de Marcel Duchamp que incluiu um mictório em uma exposição de “arte”. O gesto, a princípio, causou estranheza e muitos, até hoje, não conseguiram entender a sua intenção. Na verdade, longe de pretender apenas chocar, Duchamp quis, com este gesto, mostrar que arte é tudo aquilo que passa pela aceitação das instituições abalizadas, que determinam o que é arte ou não.
Se pararmos para pensar o que realmente é arte, veremos que essa não é uma resposta fácil. Na verdade, o conceito de arte varia com o passar dos séculos e com as mudanças sociais e tecnológicas que naturalmente vão ocorrendo. Um bom exemplo disso é a fotografia. Nos seus primórdios, a fotografia era vista como um simples processo mecânico de fixação de uma imagem. Ela não dependia da sensibilidade e do trabalho do artista. Era só apontar aquela engenhoca e pronto! Tínhamos uma foto de uma paisagem, de um animal ou de uma pessoa.
Com um quadro a coisa era diferente. O artista observava ângulos, luzes, cores. Podia incluir elementos que não participavam da paisagem natural, como aves voando ou nuvens. O quadro era um ato de criação; a fotografia era apenas a produção de uma máquina. Hoje, entretanto, a fotografia adquiriu ‘status’ de arte e existem várias exposições de fotógrafos famosos pelo mundo todo.
Mesmo elementos que foram criados com outros fins que não o “artístico”, acabam virando arte. Máscaras utilizadas em rituais de tribos africanas ou indígenas brasileiros, que foram confeccionadas com propósitos religiosos, acabam sendo expostas em alguma galeria ou em uma exposição fotográfica e passam a ser consideradas arte, desvirtuadas de seu propósito inicial. O teto de muitas igrejas, com suas pinturas com motivos religiosos, passam a ser considerados arte.    
A música é uma arte, mas nem toda música é considerada arte; livros são arte, mas nem todos os livros são considerados artísticos; e o mesmo vale para quadros, estátuas, dança. Muitos edifícios, por seu projeto arquitetônico ousado, são considerados como sendo arte, enquanto outros não. Uma pintura rupestre, que contava o dia-a-dia do povo pré-histórico, hoje em dia é considerada arte. A pintura surrealista, durante muito tempo, não foi considerada como sendo arte; o verso livre, também.    
Ou seja, arte é tudo aquilo que passa a ser aceita como tal por instituições sociais: museus, galerias, bibliotecas, pinacotecas. O que está fora destas instituições não é arte. Daí compreende-se o gesto de Duchamp: um mictório em seu banheiro não será olhado por você como um objeto de arte; porém, se ele estiver em um museu ou em uma galeria, você irá dizer que a intenção do artista é a de mostrar o lado animal de todos nós, ao compor aquela obra.
Aceitamos como arte o que as instituições “abalizadas” nos dizem que é arte. Neste caso, o mictório de Duchamp, em um museu ou galeria, torna-se o mais genuíno objeto de arte.   
 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

O livro “Laranja Mecânica” é apenas uma apologia à violência?

O livro “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, completou 50 anos e ainda hoje desperta controvérsias. Para muitos, o livro é apenas uma apologia da violência desenfreada, encabeçada por Alex e seus ‘druguis’; para outros, o livro levanta discussões que são válidas até os dias de hoje.
É curioso observar que tanto a primeira edição americana do livro quanto o filme produzido por Stanley Kubrick – baseado na edição americana – omitiram o último capítulo, que saiu na edição inglesa e nas edições europeias. Este capítulo mostra um Alex passando para a idade adulta e começando a questionar a validade do que ele e seus amigos faziam. Toda aquela violência sem sentido começa a cansá-lo e ele, que já possui um emprego, passa a pensar em casar e em ter filhos. O editor americano considerou o final muito piegas e resolveu cortá-lo da edição.
“Laranja Mecânica” é recheado de violência – a ultraviolência, citada por Alex: roubos, espancamentos, estupros, brigas de gangues. Os adolescentes utilizam a violência como forma de descarregar suas energias, além de procurar ter uma voz em um mundo que lhes nega isso. Prender os jovens não resolve o problema. Para tentar resolver a questão da violência, o governo resolve implantar um programa que mistura hipnose, drogas e filmes que apresentam cenas de violência. A ideia é que essa misture cause náuseas aos jovens só de estes pensarem em cometer um ato violento.
O que Anthony Burgess questiona no livro não é se é certo ou errado deixar que os jovens cometam violência impunemente, mas a maneira como essa punição seria feita. O processo descrito no livro para conter a violência de Alex o transformou em um ser sem “livre arbítrio”, ou seja, ele não teria condições de escolher entre o Bem e o Mal. Suas reações seriam induzidas pelo programa que o faria sempre escolher o que se consideraria ser o Bem. Burgess, de educação católica, tinha estes conceitos bem enraizados e utilizou-os  de forma discreta no livro, para que este não parecesse um livro de auto-ajuda ou um catecismo. Isso foi motivado pelo fato de que processos como o descrito no livro estavam sendo propostos na Inglaterra por cientistas respeitáveis, que pregavam que o bem-estar da sociedade deveria prevalecer sobre a liberdade individual – conceitos estes utilizados por ditaduras no mundo inteiro e discutidos em livros como “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley.
Longe de defender a violência, Burgess discutia a questão da liberdade individual. Se a liberdade fosse cerceada em nome de um bem-estar social, mesmo que por motivos aparentemente justificáveis, poderia ser cerceada em outras situações, tudo em nome da sociedade.
Vemos isso atualmente. Em nome de situações “politicamente corretas”, pessoas querem nos impor o que podemos ou não fazer e dizer. Tudo isso seria para o bem-estar da sociedade. Mas, será que, para que esse bem-estar ocorra, devemos passar por uma lavagem cerebral igual a de Alex? Devemos perder nossa opção de escolha?
Livros como “1984”, “Admirável Mundo Novo” e “Laranja Mecânica” deveriam ser lidos e discutidos em escolas e universidades. Eles nos alertam para situações que vemos ocorrer diariamente. Sob o discurso da “liberdade” e do “bem-estar social” somos obrigados a repetir certos comportamentos e discursos como animais treinados. Contudo, é certo defender a liberdade cerceando essa mesma liberdade?
Não podemos esquecer que a justificativa dos militares para o golpe de 1964 foi defender a liberdade e o bem-estar social.            

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Museu da Língua Portuguesa homenageia cronista Rubem Braga

O Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, realiza uma exposição comemorativa do centenário do cronista Rubem Braga. A exposição chama-se “O fazendeiro do ar”. O período de visitação vai de 25 de junho a 01 de setembro de 2013. 
A exposição exibirá textos, documentos, desenhos, fotografias, correspondências, depoimentos em vídeo e objetos pertencentes ao escritor. 
A a exposição tem a curadoria do escritor, jornalista e cronista Joaquim Ferreira dos Santos, e está dividida em módulos temáticos. O primeiro é Retratos, que mostra a infância de Rubem Braga em Cachoeiro do Itapemirim, sua cidade natal; o outro módulo chama-se Redação, e mostra a experiência do cronista como repórter e redator de jornais; o terceiro módulo chama-se Guerra, e mostra sua participação como correspondente de guerra, na Itália; Passarinhos é o quarto módulo, e mostra sua paixão por pássaros, paixão que se reflete nos seus textos; o último módulo é Cobertura, e mostra a cobertura que o cronista tinha em Ipanema, tentando trazer o mundo rural para a selva de concreto.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A poesia de Walt Whitman

Walt Whitman é um importante poeta norte-americano que só se tornou mais conhecido no Brasil graças ao filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, que tinha Robin Williams no papel de um professor de literatura americana.
A importância de Walt Whitman, o “poeta da Liberdade”, pode ser vista no poema que Fernando Pessoa, um dos maiores poetas de língua portuguesa, dedicou a ele, por intermédio de um de seus heterônimos mais famosos, Álvaro de Campos. Em sua, “Saudação a Walt Whitman”, Pessoa/Campos escreveu:

“Nunca posso ler os teus versos a fio... Há ali sentir demais... [...]
E cheira-me a suor, a óleos, a atividade humana e mecânica.
Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é o mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural.”

Um poeta da estatura de Walt Whitman não podia deixar de ter sua obra publicada no Brasil. Porém, somente após 113 anos de sua morte, a Editora Martin Claret publicou a edição completa de “Folhas de Relva”. Uma edição que faz justiça a um dos maiores nomes da poesia norte-americana e – por que não dizer? –, mundial.
Em 1855, Whitman publicou, às suas custas, o que se tornaria a primeira edição de “Folhas de Relva”, compostas por apenas 12 longos poemas. O livro, entretanto, causou estranheza e criou algumas polêmicas, sendo criticado severamente pelos críticos da época.
Assim como ocorria no Brasil, os escritores e poetas pré-Whitman baseavam seus escritos no modelo europeu – no Brasil, essa tentativa de ruptura veio a ocorrer apenas no Modernismo. Whitman inovou, iniciando uma poesia “moderna”, rompendo com a subjugação ao modelo europeu até então utilizado. Foi um poeta inovador na escrita e nos temas abordados. Em seus versos, deu voz a grupos que antes não tinham voz; cantou o cotidiano, a vida simples, a natureza americana, o século em rápida transformação. Cantou também o corpo e o desejo, a sensualidade latente, mas que permanecia oculta sob uma camada de “verniz social”, subordinada às convenções de sua época.
Whitman cantou o seu tempo. Assistiu in loco às diversas mudanças pelas quais passava os Estados Unidos, tais como a Guerra de Secessão e o crescimento industrial e econômico do país em meados do século XIX, mudanças estas que não se refletiam apenas na paisagem, mas também no pensamento e no comportamento das pessoas. Nos seus poemas, Whitman nos mostra estas transformações, o crescimento das cidades, os novos meios de transporte, os bairros pobres que surgem com a industrialização.
Mas Whitman não se limitou a ser, apenas, o poeta do ‘social’. Assim como William Blake, considerado um visionário, por uns, e um louco, por outros, Whitman cantou a exaltação mística. Não essa pretensa exaltação que se vê nas Igrejas, mas sim a comunhão com a natureza, com todas as coisas que existem, num quase paganismo que o faria ser queimado na fogueira da Inquisição, em outra época. Whitman pode ser considerado o que se chama de monista. A diferença entre um monista e um monoteísta é que, para este, existe um único Deus; para aquele, só há Deus. Deus está em tudo, ao mesmo tempo em que transcende a tudo. Para os monistas, esta seria a explicação das palavras de Jesus, quando Ele nos diz que “Eu e o Pai somos um. Eu estou no Pai e o Pai está em Mim, mas o Pai é maior do que Eu”. Este pensamento é reforçado pelo filósofo Espinoza, quando afirma que “Deus é a alma do Universo, e o Universo é o corpo de Deus”.
Nos seus poemas, Whitman exalta essa união do ser humano com a natureza, com o Sol, com o calor e o frio, com os sons e os cheiros do mundo, num êxtase quase místico. Uma verdadeira exaltação à Vida. Para Whitman, ninguém precisa ser um ermitão, morando sozinho em uma montanha isolada, para atingir a comunhão com Deus. Deus está ao nosso redor, está nas árvores, no ar, no Sol, nas pessoas próximas a nós.  
Muitos dizem que Whitman era o poeta das massas e da democracia. Porém, mais do que isso, Whitman era o poeta do Eu, da individualidade perdida na coletividade, mas ainda assim uma individualidade. Um Eu que procurava se destacar da massa anônima confundida no rebanho. Pode-se perceber esta mesma característica nos poemas de Fernando Pessoa, um admirador confesso de Whitman.
Whitman parecia querer “acordar” as pessoas para que elas tivessem consciência dessa individualidade. Em um mundo que estava se tornando automatizado demais, mecânico demais, até mesmo as pessoas começavam a agir de modo mecânico e automatizado. Whitman parecia amar as pessoas, indiferentemente, independente de ser homem ou mulher, adulto ou criança, branco ou preto. Seu monismo latente o fazia ver a todos como irmãos, por isso esse ardor social, democrático, que permeia seus versos. Mais do que um gesto político, seus poemas exaltam essas individualidades ligadas à Unidade.
Para ele, dizer que todos somos iguais, mais do que um aspecto legal ou pieguismo religioso, era a pura verdade.                   


sábado, 29 de junho de 2013

Blatter elogia Copa das Confederações, mas admite “espanto” com protestos

O presidente da FIFA, Joseph Blatter, elogiou, ontem, a organização da Copa das Confederações, mas admitiu “espanto” com as manifestações que ocorreram durante o evento.
A verdade é que o presidente da FIFA não está acostumado a ver as ‘falcatruas’ da poderosa e milionária entidade serem criticadas, principalmente durante importantes eventos patrocinados por ela. As denúncias sobre supostos acordos ilícitos com empresas que patrocinam seus eventos, desvio de dinheiro para contas particulares e, até mesmo, casos de possíveis fraudes em jogos sempre acabaram arquivadas e os responsáveis nunca foram punidos.
Um dos casos mais graves seria o ocorrido durante a Copa do Mundo de 1978, na Argentina, quando o país estava sob regime militar. Para diminuir o descontentamento da população, o regime militar argentino, sob as bênçãos do então presidente da FIFA, o brasileiro João Havelange (por sinal, sogro de Ricardo Teixeira, ex-mandatário da CBF), realizou o Mundial, mesmo passando por uma crise econômica. E, para deleite dos militares no Poder, a seleção Argentina sagrou-se campeã do torneio graças a uma goleada de 6X0 sobre a seleção do Peru, ultrapassando o Brasil no saldo de gols e indo à final (o Brasil, um dia antes, vencera a Polônia por 3X1, e acabou disputando o terceiro lugar).    
Esse Blatter é o mesmo que, no início das manifestações, disse que, caso a seleção brasileira fosse campeã da Copa das Confederações, o povo esqueceria os protestos. Essa é a FIFA, que usa uma paixão do povo, o futebol, para fazer seus negócios escusos sem ser questionada. Para Karl Marx, a religião era o “ópio do povo”. Para Blatter, é o futebol.
Só podemos esperar que esse vaticínio nefasto do presidente da FIFA não se concretize e o povo não volte ao seu estado de letargia e indiferença diante da corrupção dos governos, superfaturamento de estádios e promessa de obras de uma mobilidade urbana que ninguém vê. E que esse “despertar” do povo brasileiro – que já conseguiu expulsar do Poder um presidente corrupto, caso de Fernando Collor de Mello, que teve o impeachment decretado após protestos dos ‘caras-pintadas’ – se manifeste nas próximas eleições, não reelegendo essa mesma ‘corja’ que aí está, mesmo que o Brasil seja campeão da Copa do Mundo em 2014!     


quinta-feira, 27 de junho de 2013

FLIP 2013 começa dia 3 de Julho

A Feira Literária Internacional de Paraty – FLIP começa dia 3 e vai até o dia 7 de julho. Em sua 11ª edição, a festa literária mexe com a pequena e quase bucólica cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, que se agita com a presença ilustre de escritores e de centenas de turistas interessados em literatura, em conhecer a cidade e em participar da festa.
A organização do evento estima que a FLIP deste ano deverá atrair entre 20 e 25 mil pessoas, aproximadamente, mais ou menos o número de pessoas da edição passada.
O escritor alagoano Graciliano Ramos será homenageado na edição deste ano. Se fosse vivo, o escritor teria completado 120 anos em outubro do ano passado.
A feira deste ano não contará com tantos nomes de peso, como na edição passada, mas trará escritores de porte, como o polêmico francês Michel Houellebecq, além de nomes não tão conhecidos do grande público, como John Banville, Karl Ove Knausgård e Lydia Davis.

A feira é uma grande oportunidade para que leitores passem a conhecer autores menos badalados, mas nem por isso menos interessantes, além de servir para o fechamento de grandes negócios por parte das editoras, tanto nacionais quanto estrangeiras.   

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Cinema ajuda público brasileiro a conhecer obras de autores estrangeiros

Um fenômeno interessante vem ocorrendo no Brasil em relação à literatura: autores importantes e cultuados em vários países só passam a ser conhecidos no Brasil quando têm suas obras transportadas para o cinema, ou quando são citados em filmes de grande sucesso.
Isso aconteceu com o poeta americano Walt Whitman, que teve sua obra mais conhecida do público brasileiro após a exibição do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, com Robin Williams no papel de um professor de literatura, o qual citava trechos de poemas de Whitman, além de haver um retrato do poeta na parede atrás da mesa do professor. Após a exibição do filme, os poemas de Whitman tornaram-se mais conhecidos, além de sua obra, “Folhas de Relva”, ter sido publicada no país.
Outro autor que passou a ser conhecido foi C. S. Lewis, após a exibição da trilogia “As Crônicas de Nárnia”. Até então, o autor não passava de um célebre desconhecido da maioria do público brasileiro. O filme, que foi um grande sucesso por aqui, serviu para tornar este autor conhecido.
Sucesso maior conheceu J. R. R. Tolkien. Autor conhecido e respeitado em vários países, era praticamente desconhecido no Brasil, passando a ser admirado apenas após sua trilogia, “O Senhor do Anéis”, ter sido transformada em filme e ser exibida por aqui. Vários de seus livros, como “O Hobbit”, também foram editados no Brasil, antes mesmo que “O Hobbit” fosse transformado em filme.
Michael Crichton, autor de obras como “Congo”, “Sol Nascente” e “Parque dos Dinossauros”, também alcançou sucesso com seus livros após estes terem sido exibidos nos cinemas, principalmente o filme “Parque dos Dinossauros”, que alcançou grande sucesso de público. “Congo” e “Sol Nascente”, apesar de também terem virado filme e terem sido exibidos no Brasil, não alcançaram o mesmo sucesso de “Jurassic Park”.
Isaac Asimov, bastante conhecido dos fãs de ficção científica, tornou-se mais conhecido do grande público após seus livros terem virado filmes, tais como “Eu, Robô”, com Will Smith no papel principal, e “O Homem Bicentenário”, com Robin Williams.
Arthur C. Clark, outro ícone da ficção científica, tornou-se conhecido após seu livro “2001, Uma Odisseia no Espaço” ter virado um filme homônimo. Com o sucesso deste filme, vários de seus livros começaram a ser publicados.

Cinema e literatura já andam de mãos dadas há muito tempo. Vários autores tiveram seus livros transformados em filmes. É o caso de “Drácula”, de Bram Stoker; “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess; “1984” e “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell; “A Guerra dos Mundos” e “A Máquina do Tempo”, de H. G. Wells; “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago. Ficaríamos durante dias citando exemplos, portanto iremos parar nestes acima citados. Vários autores, principalmente fora do Brasil, passam a ser reconhecidos pelo seu talento literário antes mesmo que seus livros virem filmes (quando viram). Porém, principalmente no Brasil, por ter um apelo mais popular, o cinema faz com que autores passem a ser conhecidos após seus livros virarem filmes de grande sucesso. 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Protestos ditos “pacíficos” têm acabado em violência e vandalismo

A onda de protestos que se dizem “pacíficos” têm, normalmente, acabado em violência e vandalismo por todo o Brasil. Com raríssimas exceções, os manifestantes acabam entrando em confronto com a polícia, deixando feridos de ambos os lados e vários patrimônios particulares e públicos depredados. Muitas pessoas têm criticado atitude da polícia – que é truculenta, sim –, mas esquecem-se de que, em vários casos, a violência tem começado por parte dos manifestantes.
Durante os protestos, as pessoas aproveitam-se para liberar todas as suas frustrações, raivas, rancores, invejas. Quem não tem carro, depreda o carro de alguém (que, talvez, até esteja participando do protesto); quem mora em um barraco, joga pedra e incendeia uma casa melhor que a dele; quem tem pouca comida, aproveita-se para roubar supermercados. E camuflam esse vandalismo sob a capa da “indignação”.
Nesse período, muitos mitos e muita demagogia tem sido veiculada por parte de pessoas da imprensa: por exemplo, a de que o povo brasileiro é pacífico, é trabalhador, é honesto.
Vamos por partes: se o brasileiro fosse pacífico, não terminaria os protestos provocando violência, agredindo pessoas e nem depredando o patrimônio alheio. Levaria seus cartazes, gritaria palavras de ordem, até mesmo xingaria os políticos que roubam a população. Mas não incendiariam carros nem destruiriam prédios públicos e particulares.
Segundo ponto: se o brasileiro fosse trabalhador, estaria nas ruas reclamando da falta de emprego e exigindo que os governantes criassem mais postos de trabalhos, como Lula prometeu que faria, e não fez; estaria cobrando um salário mínimo decente; não viveria postando, nas redes sociais, reclamações de que o dia seguinte já é segunda-feira; médicos não faltariam aos seus plantões; professores não faltariam tanto e nem chegariam tão atrasados para as aulas; menos pessoas escolheriam o caminho “mais fácil” do tráfico de drogas e da prostituição. Ninguém vai às ruas exigir que se criem mais postos de trabalho, mas correm às ruas quando ouvem dizer que o governo vai suspender o bolsa-família.
Terceiro ponto: se o povo brasileiro fosse honesto, não haveria tanta corrupção no país. Sempre se põe a culpa nos políticos e nos empresários, culpando os “ricos” de serem gananciosos e desonestos. Muitos deles são. Mas não são apenas os ricos que fazem corrupção. Pessoas pobres vendem seu voto em troca de uma dentadura, uma consulta médica ou um milheiro de tijolo para construir um “quartinho”; pessoas pobres compram objetos que sabem que são roubados, mas compram assim mesmo porque vai pagar menos do que se comprar na loja; pessoas pobres fazem “gato” na água, luz e tv a cabo, e ainda se gabam disso; pessoas pobres dão e aceitam propina se acharem que isso vai lhes trazer algum benefício.
O brasileiro fura a fila do banco, leva atestado médico falso para justificar faltas no trabalho, suja as ruas e reclama quando chove e os bueiros estão entupidos, consome produtos dentro do supermercado e depois joga em algum canto e sai sem pagar. O povo reclama da violência, mas arranja brigas que poderiam facilmente ser evitadas.
Na tv, demagogos aparecem dizendo que uma minoria provocou a violência. Se, realmente, é uma “minoria”, por que a maioria não os impede de iniciar o confronto? Se é uma minoria, por que vemos, pela tv, tantas pessoas enfrentando a polícia ou quebrando e incendiando objetos nas ruas? Pode até ser verdade que uma “minoria” procure iniciar o quebra-quebra, mas é inegável que a “maioria” adere à violência incitada pela “minoria”.
O povo tem que protestar, sim. Devíamos ter começado a protestar quando o Brasil se candidatou para ser sede da Copa do Mundo. Todo mundo sabia que a Copa do Mundo serviria de pretexto para aumentarem a roubalheira que já grassava pelo país. Porém, ao invés de protestar, o povo sai às ruas para comemorar quando saiu o anúncio oficial de que o Brasil seria sede do torneio. Saímos às ruas para comemorar quando divulgaram as cidades-sede (menos o povo das cidades que não foram escolhidas).
Agora devemos protestar contra as desonestidades que presenciamos todos os dias. Devemos levar nosso protesto até as urnas e não voltar nessa corja que aí está. Mas devemos fazer isso com civilidade, e não com vandalismo.
O povo brasileiro poderá dar um grande passo para frente com esses protestos. Ou um grande passo para trás. A decisão cabe apenas a nós.                           


quinta-feira, 20 de junho de 2013

Manifestação não é moda. Protestos têm que aparecer nas eleições

A onda de protestos que vêm sendo feitos pelo Brasil tem levado algumas pessoas a dizer que o povo brasileiro “acordou”. Realmente, o povo tem ido às ruas – nem sempre pacificamente, diga-se de passagem – para protestar contra várias arbitrariedades que são cometidas, todos os dias, contra o povo brasileiro. E, finalmente, o povo resolveu mostrar sua insatisfação.
Entretanto, antes de me ufanar e sair à rua marchando e gritando palavras de ordem, algumas considerações devem ser feitas.
Em primeiro lugar, protestos como esses deveriam ter sido feitos quando o Brasil resolveu se candidatar para ser sede da Copa do Mundo. Assim como hoje, naquela época tínhamos necessidades mais urgentes em várias áreas do que sediar o mundial da FIFA.  Porém, todos se uniram na torcida para que a Copa viesse para cá.
Em segundo lugar, protestos contra o aumento das passagens dos transportes são válidos, mas poderiam ser feitos mesmo sem a Copa das Confederações. Além disso, não estamos fazendo protestos apenas por isso, estamos protestando também contra os gastos excessivos feitos para a Copa. Agora é um pouco tarde para isso, já que o dinheiro gasto não vai retornar aos cofres públicos e nem os estádios que estão sendo construídos com dinheiro público passarão a ser construídos com recursos privados.
Em terceiro, não irá adiantar nada fazer todos estes protestos se, nas próximas eleições, votarmos nos mesmos candidatos que aí estão, sendo alvos dos protestos.
Parece que o país acordou. Só espero que não volte a dormir. Espero que se mantenha acordado até as eleições e resolva mostrar seu protesto nas urnas, mudando o cenário que aí está, começando por uma mudança de políticos. Não creio que, com novos políticos, o cenário seja muito diferente. Continuaremos a ter corrupção, a ter o nosso dinheiro mal gerido, a ter transporte, saúde e educação precárias. Mas, pelo menos, os políticos perceberão que o povo não irá tolerar mais esses abusos calado, e poderão até se preocupar em começar a fazer o que deveriam quando nós os colocamos no Poder: lutar por condições melhores para a população.
Essas manifestações não podem parar. Não precisamos ir para as ruas todos os dias para reclamar de alguma coisa, mas devemos manter este mesmo espírito até as eleições, levando os protestos para as urnas, mudando no voto este cenário atual, mostrando que o povo brasileiro, finalmente, acordou.        

     

terça-feira, 18 de junho de 2013

Polícia é truculenta, mas manifestantes nem sempre são “pacíficos”

A onda de protestos que têm ocorrido em várias cidades do Brasil, cujos manifestantes protestam contra aumentos de passagens nos transportes e sobre os gastos faraônicos que vêm ocorrendo por conta da Copa de 2014, é legítima. Se a Copa no Brasil irá deixar um legado, talvez seja o de ter servido para “acordar” o povo para os desmandos e excesso de corrupção que vêm ocorrendo no Brasil há muito tempo, mas que agora parece ter atingido um nível tão alto que o povo resolveu dar um basta. Sou a favor dos protestos pacíficos, e até postei um texto contra a truculência da polícia em algumas manifestações.
Porém, não podemos ficar apenas aplaudindo os manifestantes sem refletir sobre a situação que vem ocorrendo. Várias situações se apresentam, e nem sempre as pessoas conseguem perceber todas elas. E, em alguns casos, os manifestantes passam a ser marionetes de interesses que não conseguem perceber.
Uma das coisas que não podemos deixar de perceber é o caráter político destas manifestações “espontâneas” e “populares”. O grande número de bandeiras de partidos políticos é um indicativo de que, se não foram organizadas pelos partidos, estes, pelo menos, querem se aproveitar das manifestações para “aparecer”. As manifestações são o palco perfeito para que alguns partidos lancem as bases de suas futuras campanhas políticas. A violência policial, com certeza, será explorada à exaustão nas campanhas das próximas eleições.
Outro fato que salta aos olhos é o despreparo da nossa polícia para lidar com multidões. Protegidos por roupas especiais e utilizando armas, nossos policiais agem como verdadeiros “rambos”, ‘baixando o cacete’ em qualquer um que apareça na sua frente. Os policiais são treinados apenas para bater, não possuindo a mínima técnica para dispersar multidões sem que seja preciso ferir alguém. E são esses mesmos policiais que irão defender os turistas que virão para o Brasil, aos milhares, durante a Copa do Mundo.
Também não podemos deixar de falar sobre o comportamento dos nossos manifestantes. Reitero, aqui, que considero toda manifestação pacífica como sendo legítima. A população tem o direito de opinar e, já que não sabemos fazer isso nas urnas, tentamos fazer nas manifestações. Porém, é inegável que muitos dos manifestantes, sejam por quais motivos forem – defesa de interesses políticos e particulares ou simplesmente por puro vandalismo –, estão lá apenas para causar confusão. Várias manifestações que começaram pacificamente acabaram em violência. E, em muitos destes casos, a confusão começa por parte dos “manifestantes”, que tentam destruir o patrimônio público, invadir propriedades privadas ou prédios públicos, tentam iniciar saques ou começam a agredir pessoas e/ou policiais. E, quando a polícia lança gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral, os vândalos começam a posar de vítimas.
Estas manifestações, como tudo na vida, apresentam dois lados. Se temos, por um lado, um povo que começa a despertar para cobrar seus direitos e não mais aceitar o péssimo emprego do seu dinheiro e a corrupção que grassa no nosso país, temos, por outro, pessoas que querem apenas se aproveitar da situação para defender interesses particulares ou, simplesmente, querem apenas provocar violência impunemente.

Estas manifestações são legítimas, mas temos que tomar cuidado para que os protestos não descambem para a violência pura e simples e acabem perdendo o seu caráter reivindicatório. O povo tem que acordar – e não pode voltar a dormir –, mas não precisamos gerar mais violência do que já temos. E, também, esperamos que essa consciência que despertou não arrefeça, caso a seleção brasileira seja campeã da Copa das Confederações e/ou da Copa do Mundo.  

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Lamentável a atuação da polícia nos protestos. Ministro diz que não tem nada a declarar

A Copa do Mundo no Brasil é uma festa! Mas, festa pra quem? Para os que estão se locupletando com os gastos astronômicos e não muito bem explicados com construção e/ou reformas de estádios? Festa para os que tiveram suas propriedades, construídas durante anos de sacrifícios, desapropriadas para “melhorar o visual” do entorno dos estádios? Festa para a FIFA, que tornou-se “dona” das sedes da Copa das Confederações e que vai ganhar muito dinheiro com a Copa?
Em tempos de Copa do Mundo, nem todos estão “em festa”. Muitas pessoas estão passando por problemas trazidos pela Copa do Mundo, em virtude de algumas exigências absurdas da FIFA. Estamos vendo o nosso dinheiro ser mal empregado, enquanto continuamos convivendo com sérios problemas ‘crônicos’: educação de péssimo nível (apesar das propagandas afirmando o contrário); saúde precária; falta de segurança; transporte que, em alguns casos, nem pode ser qualificado como tal.
As pessoas que não se deixaram levar por todo esse “oba-oba”, conscientes dos problemas que, além de não serem resolvidos, em alguns casos irão piorar, resolveram fazer manifestações contra toda essa situação. Manifestações, a priori, pacíficas, embora, em alguns casos, algumas pessoas extrapolem e iniciem atos violentos. Não seremos ingênuos a ponto de negar isso. Para estas pessoas que exageram nas suas reivindicações, a polícia aparece para contê-las, evitando que se inicie uma batalha campal ou atos de vandalismo. Entretanto, o que temos observado é que a polícia, em muitos casos, é exatamente QUEM inicia o conflito.
A função da polícia, em tempos de “democracia”, não é a de coibir manifestações pacíficas – isto é prerrogativa de regimes autoritários –, e sim de manter estas manifestações dentro de certos limites, evitando vandalismo e violência, resguardando propriedades privadas que, em alguns casos, são depredadas e saqueadas. Caso não se verifique nenhum ato violento, a função da polícia é apenas a de acompanhar a manifestação sem interferir. Entretanto, na nossa “democracia tupiniquim”, a polícia já chega “baixando o cacete”, atacando pessoas que estão apenas exigindo seus direitos. A própria polícia é composta de pessoas que passam pelos mesmos problemas, mas acabam defendendo pessoas e instituições que as oprimem, tudo em troca de um salário minguado que, geralmente, mal lhes garante o sustento. É o oprimido defendendo o opressor. É o escravo lutando a favor da escravidão.
E, ainda por cima, quando foi questionado sobre a atitude da polícia na repressão às manifestações, nosso Ministro Aldo Rebelo disse não ter nada a declarar. A nossa presidente também não fala sobre o assunto. Será que é preciso que morra alguém para que nossas “autoridades” tenham algo a declarar? Será que estas mesmas autoridades não têm poder para impedir essa barbaridade que está sendo cometida contra nossa população? Por que a presidente Dilma aparece na abertura da Copa das Confederações, mas não vai dialogar com os manifestantes? Onde anda o ex-presidente Lula, que criticava essa mesma atitude da polícia quando era ordenada por outros presidentes, de partidos rivais? Por que ele se cala agora? Quando a polícia sufocava manifestações dos trabalhadores antes de Lula ser presidente, era repressão dos direitos democráticos; agora essa atitude virou “manutenção da ordem contra desordeiros“ que querem apenas desestabilizar o governo. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, já dizia Luís de Camões.
Um absurdo que se vê em tempos de Copa: em Minas Gerais, um juiz proibiu quaisquer manifestações em cidades mineiras em dias de jogos da Copa das Confederações – esquecendo-se que, em uma democracia, manifestações são um direito do cidadão. Nas cidades-sede, nos dias de jogos é declarado feriado para que o trânsito não fique congestionado e atrapalhe a ida ao estádio. Será este o tão propalado legado de mobilização urbana que veremos após a Copa? Se for, sempre que tiver um evento importante, é só declarar feriado na cidade.

Por que ninguém pensou nisso antes? 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Camões, Lusíadas e o pessimismo do “Velho do Restelo”

A confusão que reina na política brasileira atingiu proporções “épicas”, invocando até mesmo Luís de Camões, o maior poeta português, para a troca de insultos que geralmente ocorre entre os parlamentares.
Tentando rebater algumas críticas recebidas, a presidente Dilma Roussef resolveu apelar para o épico camoniano e chamou as pessoas que a criticam e ao seu governo de “Velho do Restelo”, personagem d’Os Lusíadas reconhecido pelo seu “pessimismo”. No épico de Camões, a figura do Velho do Restelo alerta Vasco da Gama e seus marujos sobre a sua ambição por glória e poder, prevendo o futuro desastroso e decadente que estava por vir. Por sinal, já virou um hábito da presidente rotular as pessoas que criticam os erros de seu governo como “pessimistas de plantão”.
Aécio Neves, senador pelo PSDB-MG, criticou a presidente dizendo que “não serão ataques fortuitos e fora do tom à oposição que vão permitir que a inflação volte ao controle. Muita serenidade nessa hora. Que a queda nas pesquisas não afete o humor da presidente. Ela tem que planejar o país, o que não foi feito até agora”.
O senador paulista Aloysio Nunes Ferreira, líder do PSDB, ironizou a presidente ao dizer que Dilma está “longe” de ser um Vasco da Gama, referindo-se ao navegador português, personagem do épico de Camões.
Porém, épica mesmo têm sido as confusões que vemos diariamente na política brasileira. A presidente Dilma, por exemplo, tenta nos passar uma imagem da Copa do Mundo como sendo “uma festa”, o que tem sido corroborado por algumas empresas que anunciarão seus produtos durante a Copa. Para “eles”, realmente será “uma festa”. Contudo, quando alguém questiona os abusos e desmandos que vêm ocorrendo durante a preparação para a Copa – estádios superfaturados, estádios inaugurados antes de terem suas obras finalizadas, etc. –, são tratados pela presidente como sendo “pessimista”.
Questionar o que vem sendo feito de “errado” no país, seja na preparação para a Copa ou não, não é pessimismo: é se importar com o péssimo emprego do nosso dinheiro, que poderia ser usado de forma mais eficiente em obras realmente importantes para a população. O famoso “legado” que os defensores da Copa dizem que ficará é algo totalmente incerto. Na África do Sul, muitos dos estádios que foram construídos para a Copa de 2010 estão, atualmente, praticamente sem uso, e já se fala até em demolir alguns deles, por terem uma manutenção cara e não apresentarem nenhuma utilidade prática. Em termos sociais, o ganho para o povo foi mínimo, não se observando obras de relevância para a melhoria das condições de vida da população. O país continua pobre, com uma educação e uma saúde deficitárias. O mesmo discurso utilizado para justificar a Copa da África do Sul está sendo repetido no Brasil e, provavelmente, veremos um pós-Copa igual ao que ocorreu no país africano. Ou alguém realmente acredita que o transporte, a saúde e a segurança, por exemplo, vão melhorar?

Nesta guerra de palavras entre os adversários políticos quem sai perdendo é o povo. Além disso, seria bom que a presidente Dilma se lembrasse que o Velho do Restelo, citado por ela, era um homem simples do povo, povo este que foi afetado pelas ações de Vasco da Gama e de outros navegadores portugueses. E seria bom que ela se lembrasse, também, que os vaticínios “pessimistas” feitos pelo Velho do Restelo se mostraram verdadeiros no futuro.         

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A seleção brasileira tem sido desrespeitada ou as outras seleções perderam o temor?

O zagueiro Thiago Silva e o técnico Felipão, em suas respectivas coletivas de imprensa, nesta semana, reclamaram da “falta de respeito” das outras seleções em relação à seleção brasileira. Thiago Silva chegou a dizer que o Brasil é o único que possui cinco títulos mundiais. Felipão seguiu, mais ou menos, essa mesma linha.
Porém, o que as outras seleções perderam não foi o respeito pelo Brasil. Em todas as seleções, os jogadores falam que querem enfrentar o Brasil e sempre citam que somos uma grande seleção, com grandes jogadores. O que aconteceu foi que as seleções perderam o temor que sentiam quando enfrentavam a seleção brasileira antigamente. Realmente, quando se enfrentava jogadores do porte de Pelé, Garrincha, Jairzinho, Gérson, Rivelino, Zico, Falcão, Sócrates etc., jogando um futebol de qualidade, era uma seleção que impunha respeito pela qualidade dos jogadores. Atualmente, porém, mesmo tendo jogadores habilidosos individualmente, a seleção brasileira não tem apresentado um jogo que empolgue nem mesmo seus torcedores. Tudo bem, vencemos a seleção francesa por 3X0. Mas não podemos esquecer que a França jogou sem alguns de seus principais jogadores, como Ribéry, e que perdeu, há alguns dias, para a seleção uruguaia que, diga-se de passagem, não vai tão bem assim nas Eliminatórias sul-americanas.
Na atual seleção não possuímos um craque que se destaque, como antigamente tínhamos. O maior craque é Neymar, mas este não tem apresentando um bom futebol, ultimamente. Logo que entrou na seleção, convocado pelo técnico Mano Menezes, Neymar chegou a ter boas atuações, mas nada espetacular, como fazia no Santos. Hoje, Neymar tem tido atuações discretas e só tem jogado pelo nome que construiu e, provavelmente, por interesses, externos ao futebol, que envolvem o seu nome.
Além disso, a poucos meses do Mundial, o Brasil ainda não tem um time definido, nem em relação a jogadores e nem a esquema tático. Felipão ainda está fazendo testes no elenco, e esta Copa das Confederações servirá para que ele possa tentar definir time e esquema que utilizará na Copa do Mundo (supondo que ele irá continuar como técnico até a Copa do Mundo).
O único setor que parece estar definido é a defesa. David Luiz, Thiago Silva e Dante parecem ter garantido seu lugar para a Copa do Mundo. Não são jogadores excepcionais, mas são os que têm apresentado um futebol um pouco melhor. Marcelo, na lateral-esquerda, e Daniel Alves, na direita, também se firmaram como nomes certos. Ambos apresentam um bom futebol ofensivo, mas demonstram muitas fragilidades defensivas. Se não tiverem uma boa cobertura dos volantes, o Brasil pode apresentar algumas complicações defensivas.
No gol, Júlio César ainda não reconquistou a confiança dos torcedores, mas está bem evidente que é o titular de Felipão. Na minha opinião, os goleiros deveriam ser Jefferson (Botafogo), Diego Cavalieri (Fluminense) e Fábio (Cruzeiro), mas Júlio César é um goleiro experiente e pode se recuperar da falha na Copa do Mundo da África do Sul.
Do meio-campo para frente, Felipão ainda está testando jogadores tentando encontrar a formação ideal. Tirando Neymar que, mesmo não jogando bem, é intocável, os outros estão brigando pelas vagas e ninguém está garantido. Entre os volantes, Felipão demonstra sua preferência pelo tipo “brucutu”, em detrimento de volantes que sabem sair jogando. Mas tem convocado Paulinho e Hernanes, o que prova que poderá armar um esquema mais ofensivo, com volantes que servirão como válvula de escape caso os meias estejam bem marcados. Nas outras posições, as brigas estão em aberto.
Ou seja, às vésperas de um torneio oficial – a Copa das Confederações –, o Brasil ainda não encontrou o time titular, enquanto as outras seleções já vêm com sua base formada há algum tempo.
O que fica bem evidente é que o Brasil está um nível abaixo de seleções como Espanha, Argentina e Alemanha, por exemplo, e não estamos muito melhores que Itália, Inglaterra e França. Sem contar as surpresas, como a Bélgica, que vem apresentando um bom futebol com uma nova safra de jogadores muito bons, e que promete surpreender.
O fato é que não temos uma seleção de grandes jogadores, individualmente falando, e que não vem apresentando um bom futebol coletivo. O Brasil deixou de meter medo em outras seleções que antes nos respeitavam mais. Isso não representa um desrespeito ao Brasil como país, mas está bem claro que ninguém mais tem medo do futebol apresentado pela seleção brasileira.
Possuímos cinco títulos mundiais, sim, mas alguém devia dizer ao Thiago Silva que quem vive de passado é museu. O que interessa, agora, não é o que fizemos no passado, mas o que estamos fazendo no presente. E, no presente, o que temos feito não mete medo em ninguém.

Nota: Ronaldo Fenômeno, dando uma de comentarista após o jogo, disse que o Brasil está pronto para enfrentar qualquer seleção do mundo.
Calma, Ronaldo! Você como comentarista é um ótimo garoto-propaganda. O Brasil ainda está longe de poder enfrentar, mano a mano, as melhores seleções do planeta, mais entrosadas, com times praticamente prontos e jogando futebol, coisa que o Brasil não tem conseguido fazer.

Vale lembrar que Ronaldo é pago pela CBF para defender os interesses da manda-chuva do futebol brasileiro, e é exatamente isso o que ele está tentando fazer com declarações como essa.               

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O ufanismo da imprensa esportiva

A Copa do Mundo no Brasil tem mexido com muita gente, principalmente aquelas que irão ganhar muito dinheiro com a realização da Copa em terras tupiniquins – empreiteiras, políticos, televisão, ex-jogadores etc. Para que possamos realizar “a melhor Copa de todos os tempos”, conforme alguns apregoam, foram tomadas várias providências: construção de novos estádios, reformulação de estádios antigos, realização de obras de ‘mobilidade urbana’ etc.
Quanto a esta última, talvez seja o que menos se tem visto. E algumas das ditas obras têm prejudicado uma grande parte dos brasileiros, curiosamente, aqueles que não terão a oportunidade de participar da “festa” que será a realização da Copa no Brasil. Muitas famílias tiveram suas casas desapropriadas para a duplicação de estradas, por exemplo, casas estas que haviam sido construídas com muito sacrifício, durante muitos anos. Agora estas pessoas não têm onde ficar, tudo para facilitar o deslocamento dos turistas que visitarem o nosso país. Ou seja: aqueles que ficarão à parte da festa da Copa do Mundo são aqueles que pagam o preço mais alto.
Quanto aos estádios, praticamente tem sido a única coisa que realmente tem mobilizado o Governo brasileiro. Inicialmente, quando foi anunciado que o Brasil sediaria o Mundial de 2014, o então presidente Lula afirmou, peremptoriamente, que os estádios seriam construídos exclusivamente com capital privado. Ao Governo caberia realizar as obras de mobilidade urbana. Resultado: todos os estádios, mesmo os particulares, têm recebido dinheiro público na sua construção.
Outro ponto em relação aos estádios: todos acabaram custando muito mais do que o previsto no orçamento inicial. Sem contar que as sedes da Copa foram escolhidas por questões políticas, com a questão futebolística figurando em segundo plano, se é que figurou.
O pior é que, com raras exceções, não vemos os nossos membros da imprensa esportiva tocando nesses assuntos. A própria presidente Dilma chama quem questiona esses desmandos de “os pessimistas de plantão”. A maioria insiste em louvar as maravilhas que ficaram os nossos estádios após a reforma e/ou construção, sem questionar porque os valores aumentaram tanto em relação aos valores apontados inicialmente; não questionam as inaugurações que são feitas com os estádios ainda inacabados, apenas para o governo poder dizer que cumpriu com os prazos estabelecidos (e, mesmo assim, não cumpriu); não questionam os aumentos nos preços dos ingressos, o que tira as pessoas de baixa renda dos estádios – e, na realidade, sempre foram as pessoas de baixa renda que formaram a torcida do futebol –; entre outras coisas.
Atualmente, vemos nos estádios muitas pessoas que não têm afinidade com o futebol. Estamos formando “torcidas de vôlei”, um público que mais parece espectadores de uma ópera ou balé. Sou a favor de que o público seja educado, não deprede os estádios e nem fique jogando objetos no campo, mas não podemos cercear aquela alegria que víamos na “geral” do Maracanã. O público de hoje é um público apático, que só se anima quando a câmera “passeia” pelo estádio e eles se veem no telão. Os famosos “geraldinos” eram um público que participava do jogo, incentivando e cobrando seus times, além de procurar atrapalhar e desconcentrar os adversários. O que a FIFA precisa entender é que o torcedor de futebol não precisa – e não deve – ter o mesmo comportamento de um espectador de música de câmara. Em um período em que se apregoa a valorização das ‘diversidades’, a FIFA parece querer criar um público uniforme, desrespeitando valores locais.
A imprensa brasileira, que tanto lutou na época da ditadura militar – período em que se procurou abafar a voz da imprensa – para informar o público dos abusos que eram cometidos, agora torna-se conivente com o que vem sendo praticado no “país da Copa”.
Parece que os ares de suposta liberdade que vieram após o período da ditadura não fizeram bem à nossa imprensa. Ou, quem sabe, a ditadura não tenha realmente acabado. Apenas mudou de forma.